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O medo do novo e o apego ao que já não faz bem

Redação5 de janeiro de 20265min2
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por Ed Gonçalves

É comum, no início de um novo ano, fazermos promessas a nós mesmos e aos outros. Promessas que surgem carregadas de esperança, entusiasmo e, muitas vezes, de uma expectativa quase mágica de que algo finalmente vai mudar. No entanto, também é igualmente comum que, ao longo dos meses, praticamente nada daquilo que foi prometido ou estabelecido como meta se concretize. O que acontece nesse intervalo entre o desejo e a ação? Por que insistimos em prometer aquilo que, no fundo, já suspeitamos que não iremos cumprir?

Talvez a resposta esteja menos na falta de força de vontade e mais no medo que o novo nos provoca. Existe uma expressão bastante conhecida que diz que algumas pessoas preferem infernos conhecidos a paraísos desconhecidos. Essa frase, embora pareça dura, revela algo muito verdadeiro sobre a nossa condição humana. O conhecido, mesmo quando nos causa dor, oferece uma sensação de controle. Já o novo, por mais promissor que seja, sempre carrega a ameaça da perda, da instabilidade e da incerteza.

Toda mudança exige uma renúncia. E renunciar nunca é simples. Quando alguém traça como meta perder vinte quilos em 2026, por exemplo, não está apenas falando de um número na balança. Está falando de uma nova rotina de vida. Isso implica disciplina alimentar, prática regular de exercícios físicos, redução do consumo de álcool e, em muitos casos, o abandono de um estilo de vida sedentário. Algo precisa ficar para trás. A pergunta que raramente é feita é se nós estamos, de fato, dispostos a pagar esse preço.

O mesmo acontece quando alguém decide que não irá mais se envolver em relações amorosas problemáticas. Essa decisão, que à primeira vista parece apenas uma mudança de escolha, implica algo muito mais profundo: olhar para si mesmo e admitir que o problema nem sempre está apenas no outro. Ou seja, implica reconhecer padrões, repetições e, muitas vezes, feridas que ainda não foram elaboradas. Mudar o tipo de relação que se estabelece com o outro exige, antes, uma mudança na relação consigo mesmo.

É importante compreender que não existe transformação sem perda. Toda escolha carrega uma renúncia, e toda renúncia envolve um certo luto. O novo quase sempre provoca um frio na barriga, uma ansiedade e até uma resistência silenciosa. Isso é esperado. O problema não está em sentir medo, mas em permitir que esse medo nos paralise a ponto de nos manter presos a uma vida que já não faz sentido ou que, em muitos casos, se tornou claramente prejudicial.

Muitas pessoas passam anos esperando por um sinal que indique o momento certo para mudar. Esse sinal, no entanto, raramente vem de fora. Não haverá um aviso claro, um acontecimento extraordinário ou uma confirmação absoluta. Talvez a própria infelicidade persistente, o cansaço emocional e a repetição insistente de hábitos que não nos fazem bem já sejam sinais mais do que suficientes de que algo precisa ser revisto.

É certo que o maior engano do início de cada ano talvez seja acreditar que mudar é apenas desejar algo diferente. Não é. Mudar é aceitar perdas, sustentar desconfortos e abandonar versões de nós mesmos que já não servem, ainda que sejam familiares. Permanecer onde estamos também é uma escolha, embora muitas vezes seja feita por medo e não por consciência. O novo assusta, é verdade, mas continuar insistindo em velhos hábitos que nos adoecem pode custar muito mais caro. Se não houver um sinal externo, que ao menos a própria insatisfação sirva de alerta. Em alguns momentos da vida, mudar não é coragem, é necessidade.


Ed Gonçalves
Psicanalista | Professor

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2 comentários

  • Gustavo Henrique

    5 de janeiro de 2026 at 15:20

    Texto muito necessário.

    Responder

  • Michele Cristina

    6 de janeiro de 2026 at 9:38

    Entender que toda mudança implica em deixar alguma coisa pra trás é algo que por mais que doa temos que entender. Ótimo Texto

    Responder

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