Dietas extremas de janeiro podem ser piores para o corpo do que a comilança de dezembro


Quatro amigos – um juiz, um chef de cozinha, um piloto e um jornalista – se isolam em uma mansão nos arredores de Paris para um gigantesco banquete. Eles também contratam prostitutas para se juntarem à sua orgia de comida e prazer, que gradualmente se transforma em decadência e aniquilação. O objetivo do grupo não é outro se não alcançar própria morte por meio do excesso.
Trama do longa italiano “A Comilança”, do cineasta Marco Ferreri, de 1973, que pesa a mão fazendo de fontes de prazer algo repulsivo e mórbido, parece alcançar um assombro que, em outra escala, pega muita gente após as fartas festas de fim de ano. Os períodos de celebração típicos de dezembro, com suas confraternizações e ceias, costumam incluir mesas fartas e nada balanceadas; o álcool costuma circular mais facilmente; os doces são onipresentes. E há uma espécie de acordo tácito que permite mandar a rotina e a saciedade às favas. Comer demais, então, mais passa a ser não só permitido, mas quase esperado.
Mas, diferente da história de “A Comilança”, essas tradicionais reuniões nada têm de mórbidas. Ao contrário. Não por outro motivo, o problema raramente está nesses poucos dias de exceção: ele costuma aparecer logo depois, quando janeiro chega trazendo junto o inchaço, o desconforto físico, a balança inflada e, sobretudo, a culpa. É nesse momento que muitos tentam “consertar” o fim de ano com soluções radicais – e acabam entrando em um ciclo que compromete mais a saúde do que o excesso pontual.
É o que assegura a nutricionista Silvia Hespanha, que é enfática ao relativizar o impacto das festas. “Comer um pouco mais em ocasiões pontuais, como Natal e réveillon, não compromete a saúde de forma isolada. O corpo é inteligente e sabe lidar com variações”, situa. “O maior problema geralmente começa depois, quando a pessoa tenta compensar com dietas muito restritivas, jejuns prolongados ou exclusões radicais. Esse movimento de excesso seguido de punição cria um ciclo de culpa, desregula a relação com a comida e dificulta resultados consistentes”, adverte.
A balança costuma ser o principal gatilho desse processo. Poucos dias após as festas, o número aparece mais alto, alimentando a sensação de que algo saiu do controle. Silvia explica que essa leitura costuma ser enganosa. “Na maioria das vezes, não é gordura. O aumento rápido na balança está muito mais relacionado à retenção de líquido, ao aumento do consumo de sódio, álcool e carboidratos e a alterações no funcionamento intestinal”, aponta, lembrando que o corpo não ganha gordura de forma tão imediata. “Para ganhar gordura de fato, seria necessário um excesso calórico consistente por vários dias ou semanas. Por isso, esse peso inicial tende a reduzir naturalmente quando a rotina é retomada”, reforça.
Pressa é amiga da ilusão
Mesmo assim, a pressa por resultados faz com que soluções rápidas voltem à cena todos os anos. Chás, sucos detox, água com limão em jejum e outras fórmulas semelhantes reaparecem embaladas pela promessa de “limpar” os excessos. Silvia chama atenção para o equívoco dessa lógica. “O corpo já possui sistemas eficientes de desintoxicação, principalmente o fígado e os rins”, explica, embora reconheça que bebidas naturais podem ajudar em alguma medida – “podem auxiliar na hidratação, no funcionamento intestinal e na redução do inchaço, mas não fazem milagres nem apagam excessos alimentares”. “O risco está em acreditar que essas estratégias substituem hábitos consistentes, criando uma falsa sensação de controle”, adverte.
Outro comportamento comum no pós-festas é o corte radical de carboidratos. Embora possa resultar em uma queda rápida do peso, Silvia alerta que esse tipo de estratégia cobra seu preço. “Cortes radicais até podem gerar uma perda rápida de peso inicial, mas normalmente não são sustentáveis”, avalia. “Eles aumentam a irritação, o cansaço, a queda de desempenho nos treinos e o risco de episódios de compulsão. Além disso, favorecem o efeito rebote”, complementa.
Quando o assunto é eliminar os chamados “quilinhos extras” do fim de ano, a nutricionista defende um caminho menos dramático. “O caminho mais eficiente é retomar a rotina, não tentar consertar o passado”, resume. Isso inclui, segundo ela, organizar horários, priorizar refeições equilibradas, manter boa hidratação, retomar a atividade física e cuidar do sono. “Pequenos ajustes feitos com constância trazem resultados reais, sem sofrimento e sem perda de massa muscular”, diz.
O peso da culpa
Mas talvez o ponto mais delicado desse período não seja físico, e sim emocional. A culpa alimentar aparece com força, transformando o início do ano em uma batalha do “eu comigo mesmo”. Silvia Hespanha faz questão de nomear esse mecanismo. “O primeiro passo é entender que comer também é um ato social e emocional, e isso faz parte da vida”, identifica, asseverando que a culpa não apenas é inútil como prejudicial. “Culpa não emagrece ninguém. Tratar o corpo com respeito, abandonar a lógica de punição e adotar o autocuidado como estratégia principal é essencial”, diz. Na visão da nutricionista, janeiro deveria ser encarado como um recomeço consciente: “O início do ano pode e deve ser um recomeço, não um castigo”.
Essa leitura é compartilhada pelo professor de nutrição Diego Righi, da Afya Centro Universitário Itaperuna. Ele concorda que o excesso do fim de ano, por si só, não é o grande vilão. “Excesso em fim de ano é comum. O risco é tentar compensar com tudo ou nada”, analisa, dizendo que essa mentalidade costuma gerar uma sequência de efeitos indesejados. “Isso aumenta fome, compulsão, irritação, queda de desempenho no treino e efeito rebote”, insiste.
Righi observa que há sinais claros de que a pessoa caiu na armadilha da compensação extrema, como o fato de cortar grupos alimentares inteiros sem indicação médica, iniciar jejuns longos para “pagar” o que comeu, pesar comida o tempo todo ou transformar o treino em punição. “Quando a fome fica muito alta, os pensamentos em comida são constantes e a vontade de doce aparece à noite, é um sinal de alerta”, alerta. Para ele, oscilar entre dias muito restritos e dias completamente descontrolados indica que o processo está mal conduzido.
Assim como Silvia, Righi defende que o foco deve estar na retomada do ritmo, não na correção agressiva. “Um começo de ano bom é mais sobre retomar ritmo do que punir o corpo”, sugere, lembrando que, após períodos de festas, o peso corporal sobe principalmente por retenção de líquido e aumento do glicogênio. “Antes de se assustar com a balança, a ação prática é hidratar bem, aumentar frutas e verduras e reduzir ultraprocessados por alguns dias. Evite detox e diuréticos”, orienta.
Detox inteligente
O conceito de “detox inteligente”, apresentado por Diego Righi, dialoga diretamente com essa abordagem. “Detox inteligente não é dieta radical. É um retorno à rotina e apoio ao corpo, sem dietas extremas”, explica. Ele reforça que o organismo já conta com sistemas altamente eficientes de desintoxicação. “Fígado, rins, intestino, pulmões e pele trabalham o tempo todo para filtrar, transformar e eliminar substâncias. O que faz diferença é dar condições adequadas para esse funcionamento, com alimentação adequada, boa hidratação, sono e rotina equilibrada”.
A forma como o doce é tratado nesse período também merece atenção. Para Diego, a proibição absoluta tende a aumentar o desejo. “Tratar o doce como parte da estratégia, e não como proibido, funciona melhor”, assinala. Ele sugere que ajustes calóricos, quando necessários, sejam pequenos: “Em vez de cortar 800 ou 1.000 calorias, reduzir 200 a 400 calorias por dia já diminui o risco de fome intensa e efeito rebote”.
Tanto Silvia quanto Righi destacam que metas baseadas em processo costumam ser mais eficientes do que aquelas centradas apenas no peso. Beber mais água, incluir frutas e leguminosas na alimentação diária, caminhar regularmente, garantir proteína nas refeições e regular o sono criam um ambiente favorável para que o corpo se reorganize. Em contrapartida, quando há histórico de compulsão, dietas repetidas ou culpa intensa ao comer, o acompanhamento profissional pode ser decisivo. “Se isso aparece, vale conversar com nutricionista e psicólogo com experiência em comportamento alimentar. Isso acelera muito o processo”, conclui Righi.
O que realmente ajuda o corpo a se reorganizar
- Aumente a hidratação ao longo do dia, priorizando água, chás naturais e água de coco;
- Monte refeições mais leves, com foco em frutas, verduras, legumes e fibras para favorecer o funcionamento intestinal;
- Reduza temporariamente o consumo de álcool e de ultraprocessados, dando espaço para o organismo se reequilibrar;
- Inclua atividade física leve diariamente, como caminhadas, alongamentos ou exercícios de baixa intensidade;
- Retome uma rotina regular de sono, garantindo noites completas para apoiar o metabolismo e o bem-estar.
Fonte: O Tempo

















