Expectativas, idealizações e o narcisismo cotidiano


Há um movimento muito comum nas relações: a tendência de tentar consertar o outro. Muitas vezes, isso não é percebido como controle, mas como cuidado. A pessoa acredita que está ajudando, orientando, guiando. No fundo, porém, existe um desejo de moldar o outro a partir de uma imagem ideal, uma imagem que raramente corresponde à realidade. Esse movimento costuma vir acompanhado de boas intenções declaradas, mas carrega uma dificuldade profunda de lidar com a alteridade.
Idealizar alguém é mais confortável do que encontrá-lo de verdade. A idealização elimina a complexidade, organiza o que é caótico, acomoda o outro dentro de um formato que faz sentido para nós. É como se criássemos um personagem para evitar lidar com a pessoa real, com suas contradições, limites e zonas de sombra. A expectativa, então, deixa de ser apenas um desejo e se torna uma exigência silenciosa, muitas vezes não verbalizada, mas intensamente sentida.
Quando o outro não corresponde a essa imagem ideal, sentimos frustração, irritação ou até rejeição, como se ele tivesse nos enganado ou falhado conosco. Surge uma sensação de decepção que, à primeira vista, parece causada pelo outro. Mas, na verdade, quem nos traiu foi a fantasia que construímos. O sofrimento não nasce do que o outro é, mas daquilo que esperávamos que ele fosse.
A tentativa de arrumar o outro também carrega um traço de narcisismo cotidiano. Não o narcisismo grandioso e explícito que costuma chamar atenção, mas aquele mais sutil, comum, presente em quase todos nós. É o desejo de ver no outro um reflexo das nossas próprias crenças, do nosso jeito de viver, das nossas certezas. É querer que o outro funcione a partir do nosso manual interno, como se só existisse uma maneira correta de ser, e ela fosse a nossa.
Esse narcisismo cotidiano aparece, por exemplo, quando acreditamos saber o que é melhor para o outro sem escutá-lo de fato, ou quando interpretamos a diferença como erro, imaturidade ou resistência. O outro passa a ser visto como um projeto inacabado que precisa ser ajustado, corrigido ou amadurecido conforme nossos parâmetros.
Encontrar alguém, de fato, é muito mais difícil. Implica aceitar que o outro é um mundo independente, com tempos, dores, ritmos e histórias que não se dobram ao nosso controle. Implica suportar a diferença sem tentar apagá-la. Encontrar alguém exige a renúncia ao ideal e a disposição de conhecer o que realmente está ali, mesmo quando não combina com nossas expectativas ou desafia nossas certezas.
Talvez por isso seja tão raro. Encontrar é um exercício de humildade. Arrumar é um gesto de poder. No encontro verdadeiro, somos obrigados a reconhecer que não temos domínio sobre o outro, nem sobre os efeitos que ele produz em nós. Isso pode ser desconfortável, pois nos coloca diante da nossa própria limitação.
Na prática, insistimos tanto em arrumar pessoas porque a realidade delas nos confronta. Confronta nossas crenças, nossos limites, nossas projeções. A diferença do outro revela nossas falhas, nossas inseguranças e aquilo que ainda não elaboramos em nós mesmos. É mais fácil tentar ajustá-lo do que lidar com o que ele desperta em nós. A expectativa funciona como uma proteção narcísica: se o outro for exatamente como imaginamos, não precisaremos revisitar nossas próprias fragilidades.
Mas o encontro verdadeiro só acontece quando abrimos mão da ilusão de controle. Quando paramos de esperar que o outro encaixe em nossas formas e permitimos que ele seja exatamente quem é. Isso não significa concordar com tudo, mas aceitar que o outro não existe para confirmar nossas fantasias.
Arrumar é tentar transformar o outro em extensão de nós mesmos. Encontrar é permitir que ele exista por conta própria.
E é justamente nesse espaço de liberdade que as relações se tornam mais vivas, mais profundas e mais reais.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.


















5 comentários
Roberto César Almeida
20 de janeiro de 2026 at 11:13
Muito interessante a distinção entre arrumar e encontrar. Nunca tinha pensado dessa maneira, mas ficou muito claro no texto.
Gustavo Henrique
20 de janeiro de 2026 at 11:17
mais um texto muito bom, inspirador e extremamente necessário, professor!!!
Eliane Cristina
20 de janeiro de 2026 at 12:58
Ler isso me faz pensar em quantas vezes eu tentei ajudar alguém sem realmente escutar. Texto necessário Professor.
Moisés Lugli
20 de janeiro de 2026 at 14:57
Parabéns por este texto brilhante e profundamente necessário! Sua análise sobre a sutil linha entre o “cuidado” e o “controle” é de uma lucidez rara. Você conseguiu desarmar com elegância o mecanismo da idealização, mostrando como muitas vezes amamos apenas os personagens que criamos, e não as pessoas reais.
A distinção entre “arrumar” e “encontrar” é um conceito poderoso que deveria ser lido por todos que buscam relações mais saudáveis em 2026. O texto toca na ferida do nosso narcisismo cotidiano de forma empática, mas firme, lembrando-nos que o verdadeiro amor exige a coragem de suportar a diferença e a humildade de abrir mão do controle. Uma escrita sensível, madura e extremamente libertadora!
Simone Aparecida Rocha
21 de janeiro de 2026 at 10:46
Achei muito bonito esse final Ed. Encontrar de verdade parece simples, mas exige uma humildade que nem sempre temos.