O cansaço emocional de sempre ter que ser interessante


Existe um tipo de cansaço que não se manifesta no corpo, mas pesa na mente. É o cansaço de sentir que é preciso ser interessante o tempo todo. Como se houvesse uma plateia invisível observando, avaliando e esperando algo de nós. Mesmo quando estamos sozinhos, a sensação é de que ainda estamos em cena.
Essa exigência de agradar, impressionar e sustentar uma performance constante se infiltra no cotidiano de forma quase imperceptível. Aos poucos, a pessoa passa a medir a própria existência como quem administra uma vitrine. O que diz, o que posta, como reage, o que produz, até o que sente. Tudo se transforma em material de exposição, em tentativa de provar valor, relevância ou pertencimento.
O problema é que viver tentando ser interessante não é viver; é encenar. E toda encenação cobra um preço. Exige brilho quando há cansaço, entusiasmo quando há tristeza, presença quando o que se precisa é recolhimento. Trata-se de uma forma silenciosa de autoexploração, em que o sujeito se obriga a continuar encantando para não correr o risco de decepcionar, desaparecer ou se tornar irrelevante.
Com o tempo, muitos passam a se relacionar consigo mesmos como se fossem um produto. Ajustam a própria personalidade, escondem fragilidades, editam emoções, constroem versões mais aceitáveis do que são. Quanto mais essa lógica se instala, mais distante a pessoa fica da própria experiência interna. E essa distância, invariavelmente, se traduz em exaustão emocional.
Por trás da necessidade de ser interessante, costuma existir um medo profundo: o medo de não ser suficiente. O medo de não ser visto, de não ser lembrado, de não ocupar lugar algum. Em um mundo acelerado, onde tudo disputa atenção, parecer comum soa quase como uma ameaça à existência social. Como se perder o brilho fosse o mesmo que perder valor.
No entanto, a vida real não sustenta essa exigência por muito tempo. Nenhum ser humano consegue permanecer constantemente disponível, interessante e coerente. Existem dias opacos, momentos confusos, silêncios necessários. O que realmente desgasta não é viver essas oscilações, mas acreditar que elas precisam ser ocultadas para garantir aceitação.
Talvez o maior cansaço contemporâneo não venha do excesso de tarefas, mas da obrigação de sustentar uma imagem. Enquanto o valor pessoal depender de ser visto, admirado ou interessante, o sujeito continuará exausto, mesmo quando para. Permitir-se ser comum não é desistência nem fracasso. É uma forma de sobrevivência psíquica em um mundo que insiste em transformar a existência em espetáculo.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















