Quando se torna necessário se diminuir para caber


Há um tipo de desconforto que não faz barulho. Ele não explode em discussões, não se anuncia em brigas, não se apresenta como violência explícita. Pelo contrário, ele se instala devagar, quase com educação. É o mal-estar que surge quando, perto de alguém, você começa a sentir que precisa se diminuir para caber. Não porque a outra pessoa seja má, nem porque exista necessariamente uma intenção de ferir, mas porque, naquela relação, algo em você passa a ser excessivo. Sua forma de falar, de pensar, de sentir, de desejar. Aos poucos, você aprende que, para permanecer ali, precisa se conter.
No início, isso costuma ser confundido com maturidade. Você acredita que está sendo compreensivo, cuidadoso, sensível ao outro. Passa a medir as palavras, a baixar o tom, a evitar certos temas. Deixa de dizer algumas coisas para não gerar desconforto. Tudo isso parece razoável, afinal toda relação exige algum nível de negociação. O problema começa quando essa negociação deixa de ser pontual e se torna estrutural.
Talvez você tenha parado de falar certos assuntos. Talvez tenha começado a se explicar demais, justificando cada gesto, cada opinião, cada incômodo. Ou talvez tenha sentido, de forma mais difusa, que precisava se moldar para continuar sendo aceito. Não há uma exigência explícita. Ninguém diz que você deve ser menos você. Ainda assim, o efeito é exatamente esse.
O vínculo permanece, mas a liberdade começa a se esvair. Você não está preso por grades, não é impedido de sair, não sofre ameaças diretas. Mesmo assim, algo em você já não circula. A relação passa a funcionar a partir de regras invisíveis, assuntos que não devem ser tocados, afetos que precisam ser contidos, partes suas que são escondidas para evitar conflito ou rejeição.
É nesse ponto que o laço deixa de ser apenas um encontro e passa a operar como contenção. Aos poucos, o outro deixa de ser um espaço onde você pode existir e se transforma em um território onde você precisa se vigiar. A espontaneidade cede lugar à autocensura. O silêncio vira uma estratégia de sobrevivência. O medo de perder o lugar conquistado sustenta tudo isso.
Essa é uma das prisões mais eficazes que existem, porque ela não se impõe pela força, mas pelo medo. Medo de ficar só, medo de ser rejeitado, medo de que, se você mostrar quem realmente é, o vínculo não suporte. Para que o laço não se rompa, você sacrifica o desejo. Abre mão de pequenas verdades. Ajusta o discurso. Suaviza opiniões. Reorganiza afetos. E faz isso acreditando que é provisório, até perceber que esse provisório virou modo de existir.
O laço segue intacto, mas você começa a se esvaziar. Em algum momento, surge uma pergunta incômoda, quase sussurrada. Quem eu preciso fingir ser para continuar aqui. Essa pergunta não aparece à toa. Ela é o sinal de que algo essencial já foi atravessado. Quando a permanência em uma relação depende de uma encenação constante, não estamos mais falando de vínculo, mas de adaptação forçada.
É importante dizer que o problema nem sempre é o outro. Muitas vezes, a armadilha está na dinâmica construída entre dois. Um se acostuma a conter, o outro se acostuma a se conter. Assim se cria um pacto silencioso em que o laço é preservado ao custo da vitalidade de um dos lados ou, não raro, de ambos.
Aceitamos caber em lugares pequenos por medo da solidão. Esquecemos que não existe solidão maior do que estar acompanhado e não poder existir. Estar com alguém e, ainda assim, precisar se esconder é uma forma refinada de abandono.
Liberdade não é a ausência de laços. Liberdade é poder estar em relação sem precisar se trancar por dentro. É poder falar sem medo constante de represálias emocionais. É poder discordar sem sentir que o vínculo corre perigo. Quando uma relação exige que você se aprisione para permanecer, algo já se perdeu, mesmo que o laço continue de pé. E se você percebe que precisa se diminuir para caber, talvez o problema não seja o seu tamanho. Talvez o espaço seja pequeno demais para aquilo que você é.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















