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Testes de sangue para detectar câncer precocemente e o que você precisa saber

Redação11 de fevereiro de 20267min0
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Entenda como funcionam os exames multicâncer baseados em biomarcadores, suas limitações científicas e quando eles realmente podem ser úteis

Detectar múltiplos tipos de câncer com um único exame de sangue antes de qualquer sintoma aparecer parece o futuro da medicina. Testes baseados em biomarcadores tumorais circulantes já estão disponíveis comercialmente em alguns países, prometendo identificar dezenas de neoplasias simultaneamente.

Mas essa promessa tecnológica ainda enfrenta desafios científicos importantes. Como explica o oncologista Diogo Sales, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, a ideia de uma ferramenta de detecção precoce multicâncer é excelente, porém as evidências atuais ainda não sustentam seu uso rotineiro na prática clínica.

Como funcionam os testes multicâncer baseados em biomarcadores

Esses exames analisam fragmentos de DNA tumoral que circulam na corrente sanguínea. A tecnologia busca identificar assinaturas genéticas específicas liberadas por tumores, incluindo proteínas e outros marcadores moleculares.

A proposta é detectar sinais de até 50 tipos diferentes de câncer através de uma única coleta de sangue. O material coletado é enviado para laboratórios especializados que realizam análises moleculares complexas.

O procedimento funciona como uma triagem inicial. Em tese, ajudaria a identificar quem precisa de investigação mais aprofundada com exames específicos.

As limitações científicas dos biomarcadores tumorais

Segundo Diogo Sales, existem questões fundamentais ainda sem resposta. “Procurar biomarcadores do câncer antes da manifestação da doença poderia reduzir o diagnóstico avançado e, portanto, aumentar a chance de cura, mas há muitas questões em aberto”, observa o especialista.

Um dos problemas centrais é a ausência de um marcador universal. Cada tipo de tumor produz seu próprio conjunto específico de proteínas e moléculas.

Ainda não está claro quais biomarcadores demonstram maior precisão diagnóstica. Tampouco se sabe quais detecções estarão realmente associadas a benefícios de cura no futuro.

Taxa de falsos positivos e negativos preocupa especialistas

Um estudo randomizado na Inglaterra avaliou um desses testes comerciais. Os resultados mostraram taxa de detecção menor que o esperado pelos pesquisadores.

Mesmo quando o exame identificou marcadores suspeitos, o risco de falso positivo foi significativo. Apenas 60% dos testes positivos se confirmaram verdadeiros em investigações subsequentes.

Os falsos negativos também são problemáticos. “Nem todo tumor libera biomarcadores desde o início”, explica Sales. Isso pode criar falsa sensação de segurança, levando a pessoa a negligenciar exames de rastreio estabelecidos.

Por que detecção nem sempre significa redução de mortalidade

Estudos publicados em revistas médicas prestigiadas como *The Lancet* focam em taxas de detecção. Porém, o critério mais importante deveria ser capacidade de reduzir mortalidade.

“Na maior parte das vezes, a detecção precoce de fato ajuda a salvar vidas, mas isso não é verdade para todos os tumores”, observa o oncologista. Em certos casos, intervir precocemente pode diminuir qualidade de vida sem aumentar significativamente a sobrevida.

O debate sobre rastreio universal de câncer de próstata ilustra essa complexidade. Às vezes, a melhor conduta é apenas observar o tumor sem tratamento imediato.

“A avaliação deveria ser no impacto que o exame tem na mortalidade associada a doença, e não na capacidade de detectar precocemente”, pontua Sales.

Riscos psicológicos e custos de exames desnecessários

Resultados inesperados podem gerar ansiedade intensa e desencadear cascatas de investigação. Pacientes podem passar por procedimentos invasivos sem necessidade real.

O impacto financeiro também merece atenção. Para o indivíduo, o custo direto dos testes pode ser significativo — alguns chegam a US$ 950 por pessoa.

Para o sistema de saúde, há pressão adicional. Mais pessoas realizando exames complementares sem indicação clínica sobrecarrega recursos médicos e diagnósticos.

Casos específicos onde os testes multicâncer mostram utilidade

Apesar das limitações gerais, existem contextos onde essa tecnologia demonstra resultados promissores. “Quando se trata de tumores no pâncreas e ovário, para os quais não temos uma rotina de rastreio que permita uma detecção precoce, o teste mostrou bons resultados”, destaca Diogo Sales.

Essas neoplasias são particularmente desafiadoras. Faltam métodos eficazes de detecção precoce estabelecidos na prática clínica padrão.

“Portanto, no futuro, há possibilidade de usarmos os testes apenas onde eles seriam mais eficientes”, completa o especialista. A aplicação direcionada pode maximizar benefícios e minimizar riscos.

O que considerar antes de fazer um teste multicâncer

A decisão de realizar esses exames deve ser individualizada e discutida com médico especialista. É fundamental compreender que a tecnologia ainda é experimental e não substitui rastreios validados.

Testes com respaldo científico sólido — como mamografia, colonoscopia e papanicolau — continuam essenciais. Eles têm evidências robustas de redução de mortalidade para cânceres específicos.

Como afirma Sales sobre ferramentas de detecção precoce multicâncer: “Uma ferramenta de detecção precoce multicâncer, portanto, é uma ótima ideia e adoraríamos tê-la a nossa disposição. Por ora, porém, ainda não há evidências científicas de que ela possa ser usada na rotina.”

A medicina baseada em evidências exige que novas tecnologias demonstrem não apenas capacidade técnica de detectar doenças, mas benefício real na saúde e sobrevida dos pacientes.

Fonte: Itatiaia

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