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Enquanto Você Espera, a Vida Acontece

Ed Gonçalves24 de fevereiro de 20268min0
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por Ed Gonçalves

Enquanto você espera, a vida acontece. Ela não pede licença, não consulta o calendário e não respeita a sensação subjetiva de que ainda não começou. Todos os anos repetimos o mesmo ritual simbólico: janeiro é um mês de transição, fevereiro é uma espécie de parêntese, e o ano, dizem muitos, só começa depois do Carnaval. Como se o tempo pudesse ser convencido a aguardar nossa disposição. Como se a existência aceitasse adiamentos formais. Como se houvesse um botão invisível que só é acionado quando nos sentimos prontos. Mas a vida não se organiza segundo o nosso calendário emocional. Ela segue. E nós seguimos com ela, mesmo quando insistimos em acreditar que ainda estamos apenas nos preparando para começar.

Talvez essa crença de que “o ano começa depois do Carnaval” seja menos sobre datas e mais sobre nossa dificuldade em assumir o presente. Começar implica responsabilizar-se. Implica admitir que o tempo está em curso e que somos participantes ativos dele. Enquanto dizemos que ainda não começou, preservamos uma zona de conforto: ainda não preciso agir, ainda não preciso decidir, ainda não preciso enfrentar aquilo que me inquieta. É uma forma socialmente aceita de adiamento. Um pacto coletivo de procrastinação existencial.

No entanto, o tempo não faz pactos. Ele não espera que estejamos psicologicamente prontos. Ele não suspende o envelhecimento, não congela as relações, não interrompe as mudanças enquanto organizamos nossos medos. Cada dia que passa já é vida vivida, ainda que estejamos convencidos de que estamos apenas ensaiando. E talvez o ponto mais delicado seja justamente esse: não existe ensaio. Não há uma versão preliminar da existência. Não estamos aguardando a estreia. Já estamos no palco.

O poeta espanhol Antônio Machado escreveu que o caminho se faz ao caminhar. Essa frase atravessou décadas porque toca em algo essencial: não há estrada pronta à nossa espera. Não existe um momento mágico em que todas as variáveis estarão organizadas, todos os medos resolvidos, todas as condições favoráveis. A ideia de que começaremos “de verdade” depois de determinado marco é sedutora porque promete um futuro mais alinhado, mais coerente, mais seguro. Mas a existência concreta não opera nesse registro ideal. Ela é feita de imperfeição, de improviso, de decisões tomadas com dúvidas ainda presentes.

Do ponto de vista psíquico, o adiamento constante pode funcionar como defesa. Se eu digo que ainda não começou, eu preservo a fantasia de que, quando começar, tudo será diferente. Protejo-me da frustração antecipada. Mantenho intacta a imagem ideal de mim mesmo que um dia agirá com coragem absoluta e convicção plena. O problema é que essa versão ideal raramente chega. Porque maturidade não é ausência de medo; é movimento apesar dele. Esperar não elimina a insegurança, apenas a desloca para o futuro.

Há também algo cultural nisso. Vivemos em uma sociedade que promete começos espetaculares: segunda-feira, primeiro dia do mês, ano novo, pós-Carnaval. Como se a transformação dependesse de marcos simbólicos externos. Eles têm sua função, é verdade. Rituais organizam a experiência humana. Mas quando o ritual vira desculpa para não agir, ele deixa de estruturar e passa a paralisar. O calendário pode marcar datas; não pode produzir decisões por nós.

A vida acontece nos intervalos que julgamos provisórios. Acontece naquele janeiro que dizemos não valer, naquele fevereiro que tratamos como parêntese. Acontece na rotina aparentemente banal, nas conversas sem solenidade, nos pequenos gestos que não parecem grandiosos o suficiente para merecer o nome de “começo”. Talvez estejamos esperando um sinal externo quando, na verdade, o movimento é interno. E silencioso.

O presente raramente é confortável. Sempre há algo fora do lugar: uma insegurança profissional, uma instabilidade financeira, um conflito afetivo, um projeto incompleto. Se esperarmos que tudo esteja perfeitamente alinhado para começar, transformaremos a vida em eterna antecâmara. A promessa de que “logo começarei” pode se tornar uma narrativa que atravessa anos. E, quando percebemos, não estávamos aguardando o início do ano; estávamos adiando o enfrentamento da própria existência.

Há uma dimensão filosófica importante nisso. Não somos espectadores do tempo; somos parte dele. Cada escolha, inclusive a escolha de adiar, já é uma forma de agir. Dizer que ainda não começou é, paradoxalmente, já estar vivendo de determinada maneira. Não há neutralidade. Mesmo a inércia produz efeitos. O não fazer também constrói um caminho, ainda que seja um caminho de estagnação.

Talvez o incômodo maior seja reconhecer que não haverá autorização formal para viver. Ninguém tocará uma campainha anunciando que agora é legítimo começar. Não haverá garantias absolutas. Não haverá segurança total. Haverá apenas o agora, com suas imperfeições e incertezas. E é nesse terreno instável que a vida se desenrola.

O corpo segue seu ritmo biológico. As relações seguem seu curso. O mundo não entra em suspensão para respeitar nosso adiamento.
A pergunta que permanece é simples e desconfortável: o que estamos esperando? Se o caminho se faz ao caminhar, como escreveu o poeta, então cada passo já é início. Não importa se é janeiro, fevereiro ou março. Não importa se houve festa, descanso ou excesso. O tempo não precisa de inauguração. Ele já está em andamento.

A vida não começa depois. Não começa quando o medo desaparecer, quando as contas estiverem todas pagas, quando a confiança for absoluta, quando o calendário indicar uma data simbólica mais adequada. Ela acontece enquanto respiramos, enquanto hesitamos, enquanto pensamos que ainda não é hora.

Talvez a verdadeira mudança não esteja em decidir quando o ano começa, mas em reconhecer que ele nunca parou. E que nós também não.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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