Menos telas, mais interação: o impacto da restrição aos celulares nas escolas após um ano de vigência


Um ano após a entrada em vigor da lei federal 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas brasileiras, os impactos da medida começam a se tornar mais visíveis no cotidiano escolar. Sancionada com o objetivo de reduzir distrações em sala de aula, estimular a convivência presencial e proteger a saúde mental de crianças e adolescentes, a legislação limita o uso de dispositivos móveis durante aulas, recreios e intervalos, permitindo exceções apenas para fins pedagógicos, de acessibilidade ou segurança.
Pesquisas nacionais indicam que os efeitos vão além da concentração acadêmica. Segundo o levantamento realizado pela Frente Parlamentar Mista da Educação, em parceria com o Equidade.info, plataforma ligada ao Lemann Center da Stanford Graduate School of Education, mais de 80% dos estudantes relatam maior atenção nas aulas após a restrição, enquanto 86% da população brasileira apoia algum tipo de limitação ao uso de celulares no ambiente escolar, refletindo uma preocupação crescente com o impacto do uso excessivo de telas na infância e adolescência.
No ambiente escolar, educadores observam mudanças significativas na dinâmica das aulas e das relações entre os alunos. A redução de interrupções causadas pelo uso indevido dos aparelhos contribuiu para um clima mais tranquilo e propício à aprendizagem, além de favorecer interações presenciais.
Esther Carvalho, diretora-geral do Colégio Rio Branco, destaca as mudanças na sala de aula e, especialmente, a forma como os estudantes voltaram a ocupar os espaços coletivos da escola. “O contexto da sala de aula se alterou de uma forma muito importante, porque reduziu o estresse de trabalhar com o celular fora de hora. Mas o maior ganho, um ano depois da proibição, é a convivência dos alunos nos espaços escolares. Eles estão aprendendo a conviver presencialmente, o que é fundamental para o desenvolvimento social”, afirma.
Segundo a diretora, antes da restrição, o celular funcionava como um elo permanente entre alunos e famílias, interferindo na construção da autonomia das crianças ao longo da rotina escolar. “Costumamos chamar isso de ‘cordão umbilical digital’. Com a restrição, esse cordão foi rompido e as crianças estão aprendendo a lidar com os desafios de forma mais tranquila, dentro do contexto da escola”, explica.
As mudanças também se tornaram evidentes fora da sala de aula, corredores e intervalos. Antes marcados pelo uso individual de telas, esses espaços passaram a ser ocupados por conversas, jogos e brincadeiras entre alunos de diferentes idades. “Hoje vemos os estudantes interagindo mais, conversando, brincando e resgatando formas de convivência que haviam se perdido. Antes, era comum vê-los próximos uns dos outros, mas focados nas telas dos celulares. Essa mudança é bastante significativa”, observa Esther.
Desafios que vão além da escola
Apesar dos avanços, a avaliação é de que a restrição ao uso de celulares representa apenas uma parte de um desafio mais amplo. Para a diretora, a legislação resolve apenas um aspecto de uma questão complexa: o impacto das tecnologias digitais, das redes sociais e do tempo excessivo de tela na formação de crianças e jovens. “A proibição resolve apenas a ponta do iceberg, os grandes desafios continuam existindo fora da escola e exigem uma reflexão permanente sobre como estamos lidando com essas tecnologias”, afirma a diretora.
Nesse cenário, o debate sobre letramento digital ganha protagonismo no campo educacional. Especialistas apontam que, embora a restrição ao uso de celulares contribua para melhorar a atenção e a convivência no ambiente escolar, ela não elimina os desafios relacionados ao uso excessivo de telas fora da escola, à exposição precoce às redes sociais e à circulação de conteúdos inadequados para crianças e adolescentes.
Para a educadora, o momento exige uma mudança de abordagem: mais do que proibir, é preciso ensinar a usar. “Não se trata de eliminar a tecnologia, mas de fazer boas escolhas. Precisamos preparar os alunos para um uso responsável e crítico, inclusive em relação a temas como inteligência artificial. Esse trabalho precisa ser contínuo e feito em parceria entre escola, família e sociedade”, afirma.
Um ano após a implementação da restrição, há consenso de que os ganhos na convivência entre os alunos, na atenção em sala de aula e no bem-estar emocional são evidentes. Ao mesmo tempo, a experiência reforça que o uso consciente da tecnologia segue como um dos principais desafios da educação contemporânea, exigindo formação permanente de professores, diálogo com as famílias e políticas educacionais que acompanhem a velocidade das transformações digitais.
Sobre o Colégio Rio Branco (www.crb.g12.br) – O Colégio Rio Branco é uma das mais reconhecidas instituições de ensino do Brasil, com unidades de Educação Infantil ao Ensino Médio em São Paulo (Higienópolis) e Cotia (Granja Vianna). O colégio é associado à UNESCO e orienta seu projeto pedagógico na aquisição de conhecimentos e competências permeadas pelo diálogo, respeito à diversidade, atitude crítica e edificada em princípios éticos e de solidariedade.

















