74% das mulheres já sofreram assédio, principalmente em espaços públicos e transporte coletivo


Quase toda mulher já foi – ou conhece alguém que foi – vítima de assédio no Brasil. E os casos não se restringem a algum local específico. Ocorrem na rua, no ônibus, no trabalho, na balada, em casa, em qualquer lugar. Segundo a pesquisa Viver na Cidade – Mulheres, do Instituto Cidades Sustentáveis (ICS), em parceria com Ipsos e Ipec, com apoio da Fundação Grupo Volkswagen, 74% das mulheres já sofreram algum assédio no Brasil.
A pesquisa foi realizada entre 2 e 27 de dezembro de 2024, com 3,5 mil internautas de 16 anos ou mais, residentes há pelo menos dois anos em dez capitais brasileiras: Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia.
A capital mineira e Fortaleza aparecem como as cidades com a menor porcentagem de mulheres que disseram já terem sofrido assédio em pelo menos um ambiente: ambas registraram 68%. Os piores resultados foram em Recife, Rio de Janeiro e Porto Alegre, onde 77% das mulheres recifenses e cariocas e 79% das porto-alegrenses afirmaram já terem sofrido assédio em algum local.
O levantamento identificou os locais com maior recorrência de assédio contra mulheres. Em primeiro lugar, estão a rua e os espaços públicos, como parques e praças, apontadas por 56% das respondentes do levantamento. Em seguida, os locais mais apontados pelas mulheres foram o transporte público (51%), ambiente de trabalho (38%), bares e casas noturnas (33%), ambiente familiar (28%) e o transporte particular, como Uber, táxi e mototáxi (17%).
A Supervisora da Área de Gestão de Conhecimento, Monitoramento e Avaliação da Fundação Grupo Volkswagen, Jennifer Caroline Luiz, explica que o fato dos assédios acontecerem mais nos espaços e no transporte públicos, traduz um problema estrutural, em primeiro lugar, relacionado a políticas públicas que consigam oferecer segurança para a sociedade como um todo, principalmente para as mulheres.
“Nesses espaços públicos e no transporte público, se a gente não tiver uma intervenção efetiva de políticas públicas no nível nacional, subnacional, estados e municípios, a gente não vai conseguir combater isso”, disse. Precisa de fiscalização efetiva, iluminação, instrumentos de captação e denúncia ágeis, rápidos, fáceis, câmeras de segurança, enfim, precisa adotar uma série de medidas que consigam mostrar uma presença pública ali e que intimidem o agressor”, analisa.
Ao mesmo tempo em que novas políticas públicas devem ser adotadas, pontua Jennifer Caroline Luiz, políticas empresariais também devem ser incorporadas no mundo corporativo, como a abertura para denúncias no ambiente de trabalho, medidas de correção, de intervenção, como uma espécie de “política de salvaguarda” no ambiente de trabalho.
“O fato de demonstrar que ocorre no ambiente familiar, em locais privados, como bares, casas noturnas, no setor produtivo, empresarial, no ambiente de trabalho e nos espaços públicos, isso por si só traduz que é um fenômeno de toda a sociedade e a solução precisa vir de toda a sociedade. Enquanto a gente não tiver, como sociedade, todo mundo envolvido, e principalmente os homens envolvidos nesse enfrentamento, a gente não vai ter respostas efetivas para esse problema”, explica.
Diferenças no combate ao assédio entre cidades
A pesquisa Viver na Cidade – Mulheres mostrou ainda que a eficiência da conscientização no combate ao assédio às mulheres acontece de forma diferente entre as capitais do Brasil. Isso acontece devido principalmente a uma falta de uma diretriz pública nacional, explica Jennifer, o que faz com que as políticas públicas e as campanhas de conscientização contra o assédio sejam adotadas ao redor do país de forma despadronizada.
Em Belo Horizonte houve uma redução relevante no assédio apontado pelas mulheres no ambiente familiar de um ano para o outro, quando caiu de 31% para 25%. Já em Manaus, houve uma queda significativa no assédio no transporte público, de 47% para 39%, e no transporte particular, de 26% para 19%. E no Rio de Janeiro, o assédio apontado nas casas noturnas caiu de 37% para 28%.
Além de identificar que as medidas de conscientização têm tido efeitos diferentes nas capitais, há também providências diferentes sendo tomadas pelos estados e municípios. “Por exemplo, instalar a câmera no transporte público, iluminar mais ruas e praças. Essas coisas vão tornando esses espaços um pouco mais seguros para as mulheres caminharem à noite. Enfim, é a percepção da mulher da sensação de segurança. Não são medidas padronizadas, vamos dizer assim, não são medidas que todo o país adota”, ressalta Jennifer.
Uma diretriz de política pública nacional que incida a nível subnacional, especialmente nos estados, seria importante não somente para padronizar o combate ao assédio contra as mulheres, destaca Jennifer, como também para garantir um cofinanciamento, que fariam as políticas públicas acontecerem em uma velocidade muito maior.
“Os três entes federativos precisam estar em conjunto, chamando inclusive a sociedade toda para participar disso. Quando a gente fala de bares, casas noturnas, tem muitas medidas que os empresários podem e devem adotar. Quando a gente fala de ambiente de trabalho, o setor produtivo, empresarial, comércio, enfim, todos os setores da sociedade devem fazer parte das providências”, argumenta a Supervisora da Fundação Grupo Volkswagen.
Fonte: O Tempo

















