Cientistas descobrem como obesidade do pai afeta o metabolismo dos filhos


A literatura científica já reúne evidências robustas de que a obesidade, tanto materna quanto paterna, pode levar a alterações metabólicas nos descendentes que os tornam mais propensos a desenvolver doenças. Um novo estudo publicado na revista Nature Communications revela o mecanismo pelo qual essa “herança” é transmitida ao embrião pelo pai através do espermatozoide.
Em experimentos com camundongos, os autores observaram que a prole de machos obesos nascia com peso normal, mas com o passar dos dias apresentava um quadro de intolerância à glicose e resistência à insulina – condição para o desenvolvimento de diabetes do tipo 2 –, configurando o que os cientistas chamaram de “disfunção metabólica silenciosa”.
A boa notícia é que, quando os genitores perdiam peso, as “marcas” deixadas pela obesidade no sêmen desapareciam – algo que depois foi validado nas análises feitas em humanos.
A investigação foi coordenada pelo bioquímico Jan-Wilhelm Kornfeld, professor da Universidade do Sul da Dinamarca (SDU), e contou com a participação de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) liderados por Marcelo Mori. O grupo brasileiro é apoiado pela FAPESP por meio de três projetos.
“Acompanhamos o desenvolvimento da prole (de machos obesos) por seis meses e notamos que, embora os animais não apresentassem alterações no peso, seu metabolismo estava comprometido como se fossem obesos”, conta Kornfeld à Agência.
Segundo o pesquisador, os filhotes do sexo masculino foram mais afetados do que as fêmeas, possivelmente por serem mais suscetíveis a problemas metabólicos. “No caso das fêmeas também notamos uma tendência [à disfunção metabólica], mas não estava tão pronunciada como nos machos. É como nos humanos: as mulheres são metabolicamente mais resilientes.”
Mensageiros químicos identificados
Durante os testes, os pesquisadores notaram que os animais que se tornaram obesos em decorrência de uma alimentação rica em gorduras passaram a expressar em excesso no tecido adiposo um tipo de microRNA conhecido como let-7 (especificamente as variações let-7d e let-7e). Os microRNAs são pequenas moléculas de RNA que funcionam como um “modulador” de genes, ou seja, regulam a quantidade de proteínas produzidas pelas células.
O excesso de let-7 também foi observado nos espermatozoides dos machos obesos e essas moléculas foram transferidas ao zigoto durante a fecundação. Dentro do embrião, o excesso de let-7 inibiu a produção de uma enzima chamada DICER, que é essencial para a maturação de uma série de outros microRNAs (e, portanto, crucial para a regulação de muitos genes).
Com a DICER inibida, as células do embrião crescem com prejuízos no funcionamento das mitocôndrias – as organelas que produzem a energia celular. Essa disfunção mitocondrial reprograma permanentemente como o tecido adiposo da prole lida com a energia, levando à intolerância à glicose observada na fase adulta.
“Algo que ainda precisamos descobrir é como esses microRNAs [let-7] também aumentam no espermatozoide e de onde eles vêm. É possível que ocorra uma transferência do tecido adiposo para a célula reprodutiva, como evidências sugestivas indicam, mas ainda é uma pergunta em aberto”, afirma Mori.
Na Unicamp, o grupo de Mori investiga como a queda na expressão da enzima DICER no tecido adiposo – que pode ser decorrente do envelhecimento ou da obesidade – acelera processos degenerativos que levam a doenças crônicas como o diabetes.
“Acreditamos que a perda dessa enzima possa ser um gatilho para disfunções metabólicas. Por outro lado, observamos em trabalhos anteriores que intervenções que promovem saúde e longevidade, como a prática de atividade física, induzem um aumento na expressão de DICER”, diz Mori (leia mais em: agencia.fapesp.br/24786 e agencia.fapesp.br/34542).
O artigo Male obesity causes adipose mitochondrial dysfunction in F1 mouse progeny via a let-7-DICER axis pode ser lido em: nature.com/articles/s41467-026-69686-5.
(Karina Toledo/Agência FAPESP)



















