Uso de antibióticos pode alterar o intestino por até uma década, aponta estudo


O uso de antibióticos, comum no tratamento de infecções, pode deixar marcas no organismo por muito mais tempo do que se imaginava. Um novo estudo publicado em março, no periódico científico Nature, indica que esses medicamentos podem alterar o microbioma intestinal por até dez anos após o uso, levantando alertas sobre seus efeitos prolongados.
O microbioma é formado por trilhões de micro-organismos que vivem no intestino, como bactérias, fungos e vírus, e desempenha um papel essencial na saúde. Cientistas já sabiam que os antibióticos podem desequilibrar esse sistema, mas as consequências de longo prazo ainda eram pouco compreendidas.
Na nova pesquisa, cientistas analisaram dados de 14.979 adultos. Cerca de 70% dos participantes haviam usado pelo menos um antibiótico nos últimos oito anos. Ao examinar amostras fecais, os pesquisadores mapearam o DNA dos micro-organismos presentes no intestino, permitindo uma visão detalhada da diversidade microbiana.
Os resultados chamaram atenção. Mesmo pessoas que haviam tomado apenas um ciclo de antibióticos entre quatro e oito anos antes apresentaram menor diversidade de micro-organismos em comparação com aquelas que não usaram o medicamento no período. Isso sugere que os efeitos não são apenas temporários, mas podem persistir por anos.
Além disso, ao cruzar os dados biológicos com registros de prescrição, os cientistas observaram que o impacto dos antibióticos orais pode durar quase uma década.
Os efeitos de curto prazo já são conhecidos. Poucos dias após o início do tratamento, o microbioma pode sofrer mudanças importantes, como o aumento de bactérias potencialmente nocivas, incluindo a Escherichia coli. Também pode ocorrer o fortalecimento de genes de resistência a antibióticos e maior risco de infecções.
Já no longo prazo, estudos observacionais têm associado o uso frequente desses medicamentos a problemas de saúde como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e pólipos colorretais. A hipótese é que essas condições estejam ligadas ao desequilíbrio prolongado do microbioma intestinal.
Os pesquisadores destacam que algumas classes de antibióticos podem causar alterações permanentes nesse ecossistema. Por isso, reforçam a importância de um uso criterioso, com prescrição médica precisa e apenas quando realmente necessário.

















