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Juruaia, polo de lingerie em MG, trocará o nome da Black Friday contra racismo

Redação14 de outubro de 20206min0
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No último mês, O Boticário também também anunciou a mudança; pesquisadores defendem que marcas devem ir além da troca de termos nas lutas sociais

Após O Boticário e a Imaginarium substituírem o termo “Black Friday” por outros nomes para a temporada de descontos de novembro, a cidade do Sul de Minas Juruaia, polo de lingeries de Minas Gerais, também decidiu trocar as palavras e chamar a data de “Uai Friday”. Como no caso do Boticário, um dos motivos apontados pela cidade é discutir o racismo que, na perspectiva deles, pode ser associado ao antigo nome.

“Juruaia tem ‘uai’ até no nome, então estamos fazendo essa campanha com nosso comércio, e também por conta do racismo. É uma proposta para levar conscientização e uma mudança de pensamento, o momento pede isso. Temos que aderir a essa boa onda de combater todas as formas (de racismo)”, detalha Luciana Marques, uma das idealizadoras da mudanças e presidente do Juruaia 360, projeto de comerciantes para promover a cidade em parceria com a prefeitura. Tradicionalmente, a Black Friday não tem grande aderência entre os empresários locais, diz ela.

Não existe consenso na história sobre a origem do termo, que designa a sexta após o Dia de Ação de Graças, na última semana de novembro. Já há alguns anos, porém, circula pela internet a teoria de que a expressão diz respeito à venda de pessoas escravizadas nos Estados Unidos depois do feriado. Em 2013, o site norte-americano “Snopes”, referência na checagem de fatos, descartou a informação.

Ainda assim, ao anunciar a mudança em uma rede social, o CEO do Boticário, Artur Grynbaum, aludiu à controversa. “Há anos conversamos sobre a possível origem do termo ‘Black Friday’, sobre a ausência de dados científicos que comprovem que ele realmente não se relaciona à questão da escravatura. Então, respeitando os movimentos que sentem desconforto com o termo, decidimos parar de refletir e começar a agir”, escreve.

Empresas precisam ir além da substituição de termos no combate ao racismo, cobram pesquisadores

Para o publicitário e professor de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Pablo Moreno, a troca do nome é válida ainda que não haja confirmação de raízes escravocratas. “Nenhuma marca vai se apropriar de discursos de mobilização social sem ter calculado lucros em cima disso. Mas, mesmo sem relação direta do termo e a escravidão, podemos pensar que o que é ‘preto’ é visto como algo de menor valor, remetendo às promoções. A existência de termos que colocam a negritude em posição de desvalorização nos EUA e no Brasil é comum, como ‘a coisa tá preta’ e ‘mercado negro’”, pontua.

Ele também problematiza a transposição de uma expressão em inglês para a realidade brasileira. “O termo vem do Dia de Ação de Graças, um feriado fortemente comemorado nos EUA, mas aqui no Brasil é chamado de ‘Black Fraude’, porque não oferece descontos como no outro país”, aponta. Tanto o Boticário quanto Juruaia mantém expressões estrangeiras para o dia de descontos: “Beauty Week” e “Uai Friday”, respectivamente.

O professor de sociologia do consumo da ESPM Fábio Mariano Borges completa que, no contexto empresarial norte-americano, “black” é uma palavra utilizada para indicar saldo positivo, similar ao “estar no azul” para as empresas brasileiras. Ele não vê problemas no uso de terminologia em inglês no Brasil, dada a influência determinante dos EUA no mercado global e a disseminação da data pelo mundo todo.

Borges lembra que as marcas têm liberdade para fazer as modificações que entenderem na nomenclatura, mas questiona se elas consultam movimentos de pessoas negras antes da decisão para entender se a mudança é uma demanda deles e como eles entendem o termo. “Onde está o comitê de pessoas que estudou a mudança e resolveu sobre ela? Foi decisão de pessoas brancas discutindo sobre racismo, se ‘Black Friday’ é racista, ou foram pessoas pretas apontando isso?”, elabora. Ele lembra que O Boticário tem histórico de aproximação a causas inclusivas,  que avalia ser autêntico.

O professor Pablo Moreno frisa que é necessário observar se as marcas vão além do discurso de combate ao racismo. “Elas podem dizer que deixaram de lado o termo racista, mas continuar não tendo pessoas negras em cargos de liderança e na sua comunicação”, conclui.

Fonte: O Tempo

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