Aumento entre os jovens: vacinação muda perfil da pandemia em Minas Gerais

Redação5 de maio de 202115min0
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SES aponta redução de internações e mortes de pessoas com 70 anos ou mais no estado, atribuída à vacinação. Por outro lado, incidência cresce entre mais novos

Em mais de um ano da pandemia de COVID-19, Minas Gerais teve uma mudança epidemiológica, ou seja, o perfil de pessoas atingidas pela doença se alterou, conforme dados estatísticos. Na guerra contra o novo coronavírus, a pouca idade deixou de ser um escudo de proteção contra sintomas graves e um crescente contingente de jovens ocupa os leitos de hospitais. Os números mostram que a cobertura da vacina contra a doença entre os mais velhos contribuiu para a redução do número de contaminações e, consequentemente, de mortes. Na direção oposta, maior exposição e circulação de variantes mais velozes contribuíram para elevar casos e mortes entre os mais jovens, avaliam especialistas.

“Lá no começo da pandemia o que a gente via era casos em pacientes idosos, com múltiplas comorbidades que eram mais atingidos. Se a gente olhar hoje, observamos uma população idosa que está sendo coberta pela vacina, portanto existe uma proteção conferida em larga escala”, observou a infectologista e epidemiologista, Luana Araújo. “Se você somar a proteção maior da população mais velha, tanto comportamental quanto pela vacina e a exposição exacerbada da população jovem, associada a uma variante mais transmissível e possivelmente indutora de quadro mais grave, você vai ver o que está acontecendo agora. Mais de 60% dos pacientes internados, incluindo em unidades de terapia intensiva (UTI) hoje têm entre 20 e 50 anos, não são mais apenas aquelas pessoas mais velhas que a gente via no começo”, disse.

Os números corroboram essa análise. O vacinômetro da Secretaria de Estado de Saúde de MG (SES-MG) aponta que 84,95% dos idosos já receberam a primeira dose da vacina e destes, 59,13% garantiram também a segunda dose até sexta-feira (30/4). Segundo dados da Sala de Situação, entre a semana 3 (17/1 a 23/1/2021) e a semana 16 (18/4 a 24/4/2021), é possível observar uma queda na proporção dos óbitos e em internações em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) por COVID-19 de pessoas com mais de 70 anos em relação ao total registrado. Vale lembrar que a primeira dose de vacina foi aplicada no estado em 18/1.

“A população mais jovem que ainda não está coberta pela vacina, considerou que a população idosa era o alvo da COVID-19, então passou a se expor de uma maneira muito irresponsável”

Luana Araújo, infectologista e epidemiologista

 

A faixa etária acima de 90 anos, na semana 3, representava 5,1% do total de internações em UTI pelo novo coronavírus. O número caiu para 1,7% na semana 16, citada acima. Dos óbitos, eram 8,6% do total e passou para 2%. O mesmo cenário de queda dos números é visto no grupo de pessoas entre 80 e 89 anos. Na semana 3, essa faixa representava 14,8% do total de internações em UTI. Na 16, a porcentagem caiu para 6,9%. Em relação às mortes pela doença, eram 25,1% do total, percentual reduzido para 9,9% após a cobertura da vacina.  O percentual de internações de pessoas de 70 a 79 anos nas unidades de terapia intensiva para COVID-19, por sua vez , caiu de 20,6% do total  para 15,9% no mesmo intervalo. No caso das mortes, a parcela do grupo passou de 29,5% para 27,4%.

Luana explica que o comportamento das pessoas também foi fundamental para essa proteção. “Ao longo do tempo, essa população percebeu que era alvo, então passou a se comportar melhor e se proteger do seu entorno”, pontuou. “Ao mesmo tempo, a população mais jovem que ainda não está coberta pela vacina, considerou que a população idosa era o alvo da COVID-19, então passou a se expor de uma maneira muito irresponsável”, afirma a epidemiologista.

De acordo com os dados da SES-MG, abaixo dos 69 anos, ao contrário do público mais velho, os números aumentaram. Na semana 3 (17/1 a 23/1/2021), pessoas entre 60 a 69 anos registraram 21,8%, do total de internações em UTI por COVID-19. Na semana 16 (18/4 a 24/4/2021), este número aumentou para 23,3%. Em relação ao número de mortes, eram 20,6%, do total e aumentou para 27,1%. Vale lembrar, que a vacinação avançou em sequência de idade decrescente.

Na semana 3, as pessoas entre 50 e 59 anos, registraram 16,5% das internações em UTI. Na 16, esse número aumentou para 18,7%. Em número de mortes, a participação no total subiu de 9,2% para 17,1%. A faixa etária entre 40 a 49 anos representava 9,4% do total de internações em UTI pela doença na semana 3, número que subiu para 15,9% na semana 16. O percentual de óbitos foi de 4,5% do total para 9%.

Mineiros de 30 a 39 anos, por sua vez, correspondiam a 5,8%, do total de internações em UTI na semana 3 e este número aumentou para 8,9% na 16. Nas mortes, eram apenas 2% do total e foram para 5,8%. No mesmo intervalo, os mais jovens, pessoas entre 20 a 29 anos, passaram de 2,1% das internações para 4,3%. Em relação a vidas perdidas em decorrência da doença, também houve alta na representação dessa faixa etária: de 0,4% para  1,5% do total.

Luana Araújo considera que, apesar da necessidade socioeconômica que levou muitos à exposição, houve comportamento associado, “um tanto quanto irresponsável” dos mais jovens. “O que a gente vê, associado a tudo isso, é que houve a produção de uma variante que hoje é a dominante na maior parte dos estados avaliados, a P1. Ela tem uma característica de maior transmissibilidade e maior tempo de internação do paciente, uma provável severidade maior também”, explica. “Então, quando você junta uma população mais exposta, com o vírus com características desse tipo, você coloca essa população em um risco muito maior”, disse.

Para a coordenadora da Sala de Situação e do Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (Cievs-MG) da SES-MG, Eva Lídia Medeiros, a principal causa do crescimento de casos entre os mais jovens é o avanço da doença no território nacional. Mas os números também apontam o efeito estatístico da diminuição nas faixas etárias mais avançadas. “Os índices são justificados pelo impacto da cobertura vacinal nos grupos acima de 80 anos, bem como pelo aumento da incidência geral do número de casos, o que também influencia no aumento de internações causado por agravamento da COVID-19”, destaca.

Ela destaca o papel dos imunizantes. “A vacina garante a segurança sanitária de toda a população. Os estudos científicos publicados até o momento comprovam que, após a segunda dose, a imunidade é alcançada, individual e coletivamente.” Por ora, o estado recebeu do Ministério da Saúde 6.811.680 doses de vacinas contra a COVID-19. Cerca de 3,3 milhões de pessoas já tomaram as duas doses do imunizante. Mais dois lotes enviados pelo Ministério da Saúde chegaram ao estado na segunda-feira. Foram 676.250 doses da AstraZeneca e 50.310 da Pfizer.

Susto em família

Felipe Massena, de 20 anos, Wesley, de 52, e Ana Paula Silva, de 46, todos abaixo da faixa etária de maior risco, enfrentaram a doença em família(foto: Arquivo pessoal)

Na família de Wesley Viana Macena, de 52 anos, várias pessoas jovens testaram positivo para a COVID-19. A única que se protegeu inteiramente contra o vírus foi a avó dele, dona Jacira Neto Viana, que completou 100 anos em 31 de março. Ela já tomou as duas doses da vacina e, segundo o neto, ele se sentiu aliviado.

“No aniversário dela, para não passar em branco, já que era um marco importante, minha mãe e outros quatro tios foram à casa dela almoçar”, conta. Wesley disse que a mãe, Elba Nise, de 45 anos, testou positivo para o coronavírus após a comemoração. “Ela recebeu a primeira dose da vacina, por ser da área da saúde, mas agora precisa esperar para receber a segunda, já que pegou a doença”, lamentou.

Os outros quatro irmãos que participaram tiveram sintomas leves, mas não fizeram o teste. “Minha avó não teve nada, isso foi um alívio muito grande para todos nós”, comemorou. “Uma das médicas nos disse que a vacina a protegeu”, disse.

Em contrapartida, Wesley conta que o filho, Felipe Augusto Silva Massena, de 20, teve a doença. “Quatro dias depois do encontro na casa da minha avó, fui visitar a minha mãe com o meu filho. Em seguida, ele começou a sentir os sintomas e ficou mal durante 14 dias”, afirmou.

Nesse período, a sensação foi de desespero. “Tive muito medo de o meu filho piorar porque ele ficou muito prostrado. Ele, mesmo jovem, ficou na cama passando muito mal e não levantava para nada. Ficamos muito preocupados”, contou. Passados 14 dias do início dos sintomas,  Felipe começou a melhorar e hoje já não sente mais nada. *Estagiário sob supervisão da subeditora Rachel Botelho 

Coronavírus em dois tempos

» 14,3% das internações em UTI para COVID-19 eram de pessoas entre 80 e 89 anos na semana 3. Na 16, o índice caiu para 6,9%

» 25,1% das mortes eram de idosos entre 80 e 89 anos na semana 3. Na 16, o percentual caiu para 9,9%

» 20,6% das internações em UTI eram de pessoas entre 70 e 79 anos na semana 3. Na 16, o índice ficou em 15,9%

» 29,5% das mortes eram de pessoas de 70 a 79 anos na semana 3. Na 16, o índice ficou em 27,4%

» 16,5% dos internados em UTI tinham entre 50 e 59 anos na semana 3. Na 16, o índice subiu para 18,7%

» 9,2% das mortes eram de pessoas de 50 a 59 anos na semana 3. Na 16, passou para 17,1%, o maior salto entre os menores de 60 anos

Casos e mortes

Minas Gerais registrou novos 6.727 mil casos da COVID-19 e 83 óbitos em decorrência da doença entre ontem e segunda-feira, aponta boletim da Secretaria de Estado de Saúde. De acordo com o levantamento, hoje, o estado soma 1.378.545 casos da doença desde o início da pandemia do coronavírus, em março de 2020. Desse total, 34.396 mil pessoas morreram vítimas da COVID-19. Ainda há 1.269.377 pessoas recuperadas e 74.772 casos em acompanhamento. Esses últimos consideram pessoas ainda em tratamento e casos que dependem de atualização das Secretarias Municipais de Saúde.

Fonte: Estado de Minas

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