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Raiva ao volante: fatores emocionais contribuem para o caos no trânsito

Redação4 de maio de 202214min0
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Especialistas debatem como questões emocionais afetam a ação de motoristas, tornado o trânsito mais perigoso

Há 72 anos, os Estúdios Disney lançavam a animação “Motor Mania”, curta que se revelou um clássico aparentemente atemporal. Afinal, essa crítica ácida ao comportamento das pessoas no trânsito, feita na década de 50, continua válida e atual.

No vídeo – que se passa no universo do Pateta e é livremente inspirado no clássico literário “O Médico e o Monstro”, do escocês Robert Louis Stevenson – o protagonista é apresentado como um cidadão comum, solícito e cortês, incapaz de machucar uma mosca, e que se considera um bom condutor. “Mas, quando pega no volante, acontece um fenômeno estranho. O Sr. Walker (Pedestre, na tradução para o português) se deixa levar por uma forte sensação de poder, sua personalidade muda completamente, e, de repente, ele se transforma em um monstro incontrolável, um motorista diabólico: o Sr. Walker é agora o Sr. Wheeler (Motorista)”, diz o narrador que conduz a trama. Em seguida, são exibidas cenas em que o personagem age de maneira impaciente e egoísta. Com nervos à flor da pele, ele se comporta como se estivesse em uma competitiva disputa, na qual vale tudo para superar o outro – da agressão verbal à direção ostensivamente perigosa. A animação ainda exibe como, ironicamente, ao sair do veículo, o protagonista passa a ser vítima do tipo de comportamento agressivo que ele próprio pratica quando está ao volante.

O fenômeno que a animação “Motor Mania” ironiza já tem nome próprio em países como Estados Unidos e Austrália. Nesses lugares, como também em algumas nações europeias, o evento é chamado de “road rage” (“raiva ao volante”, em tradução). O problema é apontado como muito preocupante e precisa ser levado em conta quando se discutem possíveis soluções eficazes para reverter o cenário de tensão e violência no trânsito. É o que argumentam os pesquisadores André Pedrosa Bezerra de Macedo e Pedro Ramon Pinheiro de Souza, respectivamente, mestre e doutor em ciências da educação pela Facultad Interamericana de Ciencias Sociales.

No artigo “Educação para o trânsito: um estudo sobre o comportamento humano”, publicado em 2020 pelo periódico “Brazilian Journal of Development”, os estudiosos citam uma pesquisa feita pela National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA), agência de segurança veicular do governo dos Estados Unidos (EUA), que mostrou que a raiva ao volante ultrapassou o número de ocorrências envolvendo condutores bêbados, trazendo números assustadores em acidentes graves de trânsito.

“Analisando o trânsito local, os índices apontam que o Brasil necessita melhorar em todos os quesitos. O cidadão urbano tem mais pressa, e cada pessoa acha que suas prioridades precedem as dos demais. Essa relação de disputa de interesses, aliada a um trânsito que carece de melhores condições de tráfego, gera um trânsito caótico nos grandes centros urbanos do país”, sustentam Bezerra e Souza, que realizaram pesquisa na cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte, mas que também trouxeram dados nacionais em sua investigação. Para eles, era de se esperar que a atual configuração despertasse a atenção das autoridades públicas na busca por soluções executáveis no trânsito, minimizando os reflexos do comportamento humano e melhorando as condições das vias públicas nos pontos mais críticos.

Os autores mencionam, por exemplo, que o acidente de trânsito é um dos problemas mais graves provenientes do tráfego rodoviário e, no Brasil, destaca-se por ser uma das principais causas de morte, “apresentando índices de fatalidade entre seis e sete vezes maiores que os índices de países desenvolvidos, como Alemanha, Inglaterra e Holanda”, informam, citando dados da International Road Traffic Accident Database (IRTAD). Eles ainda sinalizam que o país se destaca negativamente no ranking mundial de acidentes de trânsito, de acordo com os dados extraídos de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea): há em média 6,8 mortes para cada 10 mil veículos, “dado alarmante, que se agrava quando comparado ao dos EUA, que detém a média de 1,93, e da França, 2,35”. Segundo o estudo, a fatalidade nas estradas brasileiras gera um custo estimado de R$ 10 bilhões por ano.

Emoções ao volante 

A partir do conceito do fenômeno da raiva ao volante, os pesquisadores André Bezerra e Pedro de Souza defendem que fatores emocionais, além de outros diversos elementos, devem ser considerados ao se pensar em políticas públicas que busquem enfrentar o cenário de perceptível agressividade no trânsito. “Em meio a frustrações e problemas, o indivíduo tem uma tendência a descarregar sentimentos através de ações, e desse modo surge o comportamento agressivo, carregado de fúria e insensatez, que coloca em perigo a própria vida e a de outras pessoas”, descrevem. Os veículos, nesse caso, se transformam em instrumentos “para demonstrar superioridade e imponência em ultrapassagens forçadas, excesso de velocidade, discussões e agressões, sendo uma verdadeira ameaça, especialmente para os pedestres, que são o lado mais vulnerável nessa relação”, assinalam.

“As pessoas possuem diferentes bagagens culturais, valores e projetos de vida, não é possível dissociar isso do comportamento no trânsito. O comportamento é alterado conforme as necessidades que *determina e as condições de sua vida.* O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu art. 1º, parágrafo 1º, considera trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e animais, isolados ou em grupos, conduzindo ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga e descarga. Entretanto, é notório que o trânsito possui uma complexidade maior a ser analisada”, criticam, preferindo usar outra definição: “uma disputa pelo espaço físico, que reflete uma disputa pelo tempo e pelo acesso aos equipamentos urbanos – é uma negociação permanente do espaço, coletiva e conflituosa”.

“Ocorre que em momentos de conflito a negociação dessas variáveis não ocorre com a sensatez esperada, há um jogo de predominância, em que ninguém quer abrir mão do seu ponto de vista e sair ‘fracassado’ dessa disputa. Então os ânimos se exaltam, e surgem os comportamentos agressivos, ansiosos e estressados, iniciando uma receita com ingredientes perigosos no trânsito”, ponderam, inteirando que o modo de conviver num espaço de necessidades e disputas deveria ser com urbanidade e paciência.

Educação. Um caminho para a mudança de cenário passa, segundo André Bezerra e Pedro de Souza, por investimentos em educação para o trânsito. “O comportamento agressivo deve ser combatido desde a infância, quando se apresenta de modo menos ofensivo na criança”, defendem, sustentando que habilidades como a racionalidade e o poder de autocontrole, que podem ser estimulados, tendem a contribuir para a resolução de conflitos. Contudo, eles argumentam que pouco se faz em termos de políticas públicas que mirem campanhas educativas para o trânsito.

“Desde meados do século passado, quando o Brasil ainda trilhava rumo à utilização mais intensa de novas tecnologias, o país vive um momento dramático de não ter fortalecido políticas mais claras de informação e formação de pessoas sobre o uso adequado dos automóveis e dos sistemas por onde estes circulam. O tempo passou, e o ambiente público, que deveria ser de ampla convivência entre os seres humanos, tornou-se bastante competitivo, um verdadeiro espaço de disputa desigual entre indivíduos e máquinas”, sentenciam.

Outros elementos 

Integrante da BH em Ciclo e conselheiro de Política Urbana de Belo Horizonte, Guilherme Tampieri acrescenta que uma série de fatores, para além de aspectos emocionais, contribui para a sensação de agressividade percebida cotidianamente ao trafegar pelas cidades. “Hoje, a forma como o trânsito se desenvolve gera espaço para essa violência institucionalizada – seja pela perspectiva legal, pela infraestrutura urbana, pela ausência de fiscalização, de coerção e de campanhas educativas”, comenta.

“Por um lado, temos motoristas que trafegam na velocidade máxima regulamentada (ou acima dela) em eixos completamente incompatíveis com isso (por haver grande fluxo de pedestres), ampliando o risco de colisões e atropelamentos”, critica. Ele também argui que locais que privilegiam o transporte motorizado – como avenidas com grande espaço destinado aos automóveis e calçadas estreitas, mesmo diante de uma ampla presença de pessoas circulando a pé na região – acabam convidando os motoristas a acelerar mais e mais, ampliando o clima de competitividade e disputa. “O que gera, sim, uma postura antissocial de muitos motoristas no sentido de não ter empatia com o outro, incluindo pessoas idosas, com dificuldade de locomoção e com outras formas de deficiência”, diz.

Soluções. Além de permanentes campanhas educativas, Guilherme Tampieri lembra serem necessários esforços de gestão, de fiscalização e de operação para que seja possível a construção de um ambiente mais acolhedor no trânsito. Um cenário que ele vislumbra como possível.

“O próprio município de Belo Horizonte já fez intervenções focadas nos pedestres, por exemplo, no entorno do Shopping Cidade, que trouxeram bons resultados. Esses quarteirões abertos (para o tráfego ativo, isto é, a pé e de bicicleta) são importantes avanços de uma política pública que pretendia privilegiar as pessoas, não as máquinas. É exatamente o que o plano de mobilidade da nossa cidade prevê”, situa.

“Entre os oito eixos do PlanMob-BH (Plano de Mobilidade de Belo Horizonte), há alguns que são muito importantes nesse sentido. Caso do eixo de mobilidade ativa, que se pretende desenvolver e potencializar a utilização de bicicletas e de patinetes e o caminhar. Temos também o eixo circulação calma, que visa a redução das velocidades máximas regulamentadas a partir não só da legislação, mas também do redesenho urbano. E, por fim, há o eixo da acessibilidade universal, que vai falar de calçadas acessíveis, de travessias para pedestres com tempo maior, possibilitando que o tráfego na cidade atenda a todos, inclusive pessoas com dificuldades de locomoção”, pontua, lembrando que está em fase de elaboração o plano de mobilidade ativa da região metropolitana de BH.

Fonte: O Tempo

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