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Reconhecer o próprio erro e pedir desculpas beneficia a todos, diz especialista

Redação28 de março de 202410min0
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Idealização das redes sociais e intolerância desenham cenário em que as pessoas almejam uma perfeição inalcançável, avalia Alaíde Nepomuceno

Há quem acredite que ela aparece muito de vez em quando, como um animal sorrateiro, de hábitos noturnos, que é preciso espreitar para conseguir flagrar no ato, mas, na música popular brasileira, a “desculpa” é quase onipresente. Ainda na década de 1930, o cantor Orlando Silva (1915-1978), no apogeu de sua trajetória artística, se aproveitava dos versos de “Meu Consolo É Você”, música de Antônio Nássara e Roberto Martins, para declarar: “Tudo fiz sem querer/ Meu grande amor, eu peço desculpa a você”.

Outro gogó de ouro da chamada “Era de Ouro do Rádio”, Nelson Gonçalves (1919-1998) mandava, em “Argumento”, choro-canção de Adelino Moreira lançado em 1959: “Sei que este farrapo de desculpa/ Não redime a minha culpa/ Mas, enfim, eu vou tentar…”. Em um bilhetinho escrito de próprio punho, Rita Lee (1947-2023) rascunhou o que se tornaria uma das baladas preferidas dos namorados. “Desculpe o Auê” nasceu de uma crise de ciúmes da cantora com o marido Roberto de Carvalho.

Passado o barraco, Rita admitiu que havia exagerado na dose, e se desculpou com as palavras que iniciam a letra. Roberto respondeu musicando a balada, grande sucesso do álbum “Bombom”, lançado pelo casal em 1983. Tão emblemática quanto “Desculpe, Mas Eu Vou Chorar”, de César Augusto e Gabriel, eternamente associada à dupla sertaneja Leandro & Leonardo, que a gravou antes de todo mundo, em 1991. Ali, tanto se desculpar quanto chorar parecem fragilidades a serem evitadas, porém o eu lírico é incapaz de contê-las.

Com indisfarçável orgulho e pegada irônica, Jorge Mautner transita pela via contrária, na canção que ele registrou em dueto com Caetano Veloso, “Todo Errado”, no ano de 2002. A abertura informa: “Eu não peço desculpas/ E nem peço perdão”, para, mais adiante, completar: “Psicótico, neurótico, todo errado…”. Para a psicóloga Alaíde Nepomuceno, “pedir desculpas é, muitas vezes, difícil, porque trata-se de reconhecer e assumir, diante de outra pessoa, a responsabilidade por alguma falha ou erro cometido”.

“Essa dificuldade nos diz sobre uma cultura onde o erro é caracterizado como algo ruim, que deve ser evitado a todo momento, em busca da perfeição”, analisa. Segundo ela, um exercício simples de observação ao redor pode nos revelar onde os pedidos de desculpa costumam rarear ainda mais do que em situações rotineiras.

Dificuldades e benefícios

“É comum percebermos uma maior resistência em situações que envolvem alguma hierarquia ou relação de poder. No ambiente corporativo, por exemplo, ainda é menos frequente ouvir pedidos de desculpas vindos de uma liderança para a sua equipe, porque muitas pessoas que ocupam posições hierárquicas mais altas nas organizações entendem que precisam ser exemplo e, ser exemplo, na perspectiva de muitas pessoas, significa não falhar”, destaca Alaíde. Entretanto, relações afetivas entre familiares, amigos e casais não estão isentas da barreira que parece isolar a palavra “desculpa”. Superar essa dificuldade e ser capaz de verbalizar o próprio erro diante do outro pode trazer benefícios de inúmeras ordens.

“Conseguir pedir desculpas pode significar uma consciência de que uma ação realizada gerou algum impacto negativo ou algum tipo de prejuízo para outra pessoa. E ter essa consciência abre um espaço para que a pessoa entenda o contexto em que o fato aconteceu, o que a estimulou a agir de determinada forma e o que ela poderia ter feito de diferente para evitar o ocorrido. Isso contribui para que, em uma situação similar futura, ela consiga utilizar esse aprendizado para não repetir o mesmo comportamento”, sustenta Alaíde.

A psicóloga pondera que “se desculpar não significa anular o erro, até mesmo porque não temos ação sobre o passado”. No entanto, o futuro é sempre aquela porta aberta de possibilidades, a ser construído continuamente. “Podemos aprender a lidar com os impactos e nos responsabilizarmos pelas consequências desse erro, com a intenção de não repeti-lo”, sublinha. Alaíde, inclusive, já presenciou pedidos de desculpa que “a comoveram muito”, marcando indelevelmente a sua percepção sobre a existência.

Idealização das redes sociais leva a ‘aversão ao erro’, aponta psicóloga

Vidas perfeitas, regadas a curtição, balada, brindes com champanhe e encontros familiares em que a sintonia reina. De acordo com a psicóloga Alaíde Nepomuceno, as redes sociais trouxeram um obstáculo adicional à contemporaneidade quando o quesito é reconhecer o erro e se desculpar.

“Na nossa sociedade atualmente, é muito difundida nas redes sociais a cultura de buscar sempre a nossa ‘melhor versão’. Essa ideia nos direciona ao constante aprendizado e evolução, mas também nos estimula, mesmo que indiretamente, a seguir em busca de uma perfeição que é inalcançável”, constata. O resultado seria uma “aversão ao erro, o que contribui para omitirmos as nossas falhas e tornamos público somente os recortes de momentos de felicidade e sucesso da nossa vida”.

“E quando temos acesso somente a estes recortes, vistos como positivos, da vida das outras pessoas, caímos no risco da comparação e autocobrança pela perfeição, o que nos afasta do entendimento das nossas vulnerabilidades e de tudo o que podemos aprender e ensinar por meio delas”, aponta, desenhando um cenário de frustração, egolatria e individualismo que, definitivamente, têm sido prejudicial à sociedade.

Intolerância pode ser trava na hora de aceitar as falhas do outro

A intolerância é mais uma pedra no sapato na hora de pedir ou receber desculpas. Cobrar de si uma suposta infalibilidade colabora para não reconhecer no outro fraquezas que pertencem ao ser humano. E, assim, desculpar torna-se tão complicado quanto pedir desculpas.

“A intolerância ao erro pode ser uma trava para desculpar e ser desculpado, mas não a única. É importante entendermos que desculpar e ser desculpado são duas situações diferentes, apesar de fazerem parte de um mesmo contexto, que podem não ocorrer no mesmo momento”, elucida a psicóloga Alaíde Nepomuceno, que destrincha os processos concernentes a essa atividade essencial para a vida em coletividade.

“Da mesma forma que, antes de pedir desculpa, existe todo um processo de entendimento, reconhecimento, humildade e responsabilização pelo próprio erro, desculpar passa por um processo de lidar com a decepção, frustração, dor ou falha cometida pela outra pessoa. Entender isso e respeitar o tempo da pessoa impactada também é necessário”, afirma, deixando claro que “pedir desculpa não significa ser automaticamente desculpado”.

“Pedir desculpa diz sobre quem cometeu o erro e ser desculpado diz sobre a pessoa impactada por esse erro. Cada pessoa tem o seu tempo. Portanto, diante de um pedido de desculpas feito pelo outro, é importante entender a motivação do pedido, deixar explícito para essa pessoa como a atitude dela a impactou, caso sinta-se em segurança e à vontade para fazer isso, e respeitar o seu próprio tempo de processar os sentimentos e consequências geradas pela situação”, finaliza.

Fonte: O Tempo

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