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Estamos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão sós

Ed Gonçalves27 de janeiro de 20265min0
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por Ed Gonçalves

Vivemos cercados de sinais, sons, notificações, timelines que não cessam. Há sempre algo acontecendo, alguém dizendo algo, mostrando algo, exibindo fragmentos de uma vida cuidadosamente organizada para ser vista. O silêncio se tornou raro. E, de modo quase paradoxal, quanto mais estímulos nos atravessam, mais frágil parece o encontro com o outro. Estamos próximos o tempo todo, mas disponíveis de verdade quase nunca.

A solidão do nosso tempo não nasce da ausência de pessoas. Ela nasce do excesso de ruídos. Estamos tão imersos em estímulos que quase não sobra espaço para que alguém nos encontre onde realmente estamos. Falamos muito e dizemos pouco. Mostramos demais e revelamos quase nada. Construímos uma presença constante e, ao mesmo tempo, intocável.

Essa solidão não se parece com a de outros tempos. Não é feita de desertos ou de quartos vazios, mas de superlotação. Não é a falta de companhia, mas o excesso de distrações. O sujeito não está isolado do mundo. Está perdido dentro dele. Ocupado demais para perceber o que sente, acelerado demais para sustentar intimidade, conectado demais para se conectar.

O inconsciente sofre nesse cenário. Porque o desejo exige tempo, demora, espera. Ele não se adapta à lógica imediatista dos estímulos contínuos. Quando não há espaço para elaborar o que se vive, instala-se uma sensação estranha: tudo acontece rápido, mas nada toca. Como uma fome persistente que nunca se sacia, porque o que se oferece é sempre leve demais para nutrir.

Essa solidão nem sempre é evidente. Ela aparece nas pequenas cenas do cotidiano. Nos jantares interrompidos pela tela. Nos abraços apressados. Nas conversas que não suportam alguns segundos de silêncio. Na sensação de estar acompanhado e, ainda assim, perceber que algo essencial falta. É uma solidão que não se impõe quando estamos sozinhos, mas justamente quando tentamos não estar.

Sem tempo para pensar, o sujeito se acostuma a sentir pouco. O mundo se torna rápido demais para permitir profundidade. Passa-se de um estímulo a outro como quem muda de canal, e cada troca funciona como uma tentativa de aliviar uma inquietação que não se sabe nomear. A solidão é essa inquietação silenciosa, disfarçada de pressa.

Talvez a pergunta não seja por que estamos tão sós, mas de que maneira aprendemos a fugir de nós mesmos. Porque o excesso de estímulos oferece exatamente isso: uma rota de fuga permanente. E quando fugir se transforma em hábito, qualquer encontro verdadeiro começa a parecer arriscado.

O antídoto não está em abandonar o mundo, mas em recuperar o próprio ritmo. Em permitir algum silêncio, mesmo que ele incomode. Em reaprender a estar presente de um modo menos ansioso. O encontro só acontece quando há espaço, e espaço só existe quando não estamos fugindo do que sentimos.

Talvez seja isso que a solidão contemporânea nos mostre: não basta estar cercado de pessoas. É preciso estar disponível para ser encontrado. E, no fim das contas, a presença que mais faz falta costuma ser a nossa própria.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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