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Entre a felicidade e o sentido

Redação17 de fevereiro de 20267min0
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por Ed Gonçalves

Em meio às complexidades da existência humana, há uma pergunta que, cedo ou tarde, nos encontra: afinal, qual é o verdadeiro propósito da nossa jornada neste mundo?

Vivemos em uma época que transformou a felicidade em meta, em obrigação e até em critério de sucesso. Parece que, se não estamos felizes o tempo todo, algo está errado conosco. Redes sociais exibem sorrisos constantes, manuais prometem fórmulas rápidas e discursos motivacionais reforçam a ideia de que a vida deve ser permanentemente leve. Mas será que essa é mesmo a medida mais profunda da existência?

A felicidade, sem dúvida, é um componente essencial da experiência humana. Ela nos aquece, nos conecta e nos dá fôlego. Momentos de alegria, realização e contentamento são preciosos. No entanto, sua natureza é instável. A felicidade vem em ondas. É sensível às circunstâncias, ao humor, às perdas e às frustrações. Quando fazemos dela o objetivo central da vida, acabamos presos a um ciclo silencioso e desgastante composto por expectativa, euforia e frustração. Então recomeçamos a busca, como se algo estivesse sempre faltando. Talvez o problema não esteja na felicidade em si, mas no lugar que damos a ela.

Uma vida verdadeiramente sólida não se constrói apenas sobre emoções agradáveis, mas sobre significado. E significado é algo diferente de prazer. Enquanto o prazer está ligado ao instante, o sentido está ligado à direção. Enquanto a felicidade depende do que acontece, o significado depende da maneira como escolhemos viver o que acontece.

A experiência humana mostra que não é a ausência de dor que sustenta alguém, mas a presença de um propósito. Quando existe uma razão que orienta a caminhada, mesmo as circunstâncias difíceis podem ser atravessadas com dignidade. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecer que a vida não é composta apenas de momentos favoráveis e, ainda assim, pode ser profundamente significativa.

Viver com sentido implica descobrir um propósito que nos atravesse de maneira íntima. Algo que vá além da simples acumulação de conquistas ou da busca por reconhecimento. Pode ser a dedicação a um trabalho feito com ética. Pode ser o cuidado genuíno com a família. Pode ser a transmissão de conhecimento. Pode ser a contribuição silenciosa que melhora a vida de alguém. O sentido nem sempre é grandioso aos olhos do mundo, mas precisa ser verdadeiro aos nossos olhos.

Há ainda um aspecto decisivo. O significado exige autenticidade. Não se constrói uma vida com sentido vivendo a partir das expectativas alheias. Isso exige coragem. Coragem para sustentar escolhas impopulares. Coragem para rever caminhos. Coragem para permanecer fiel aos próprios valores, mesmo quando isso implica desconforto.

Quando sabemos por que fazemos o que fazemos, as dificuldades deixam de ser apenas obstáculos e passam a ser parte de um processo. A coerência entre valores e ações nos dá estabilidade interior. E essa estabilidade não depende do aplauso externo, mas da consciência tranquila.

Enquanto a felicidade oscila conforme as circunstâncias, o significado permanece como eixo. Ele nos dá sustentação quando os dias não são bons. Ele impede que pequenas frustrações se transformem em grandes crises existenciais. Ele oferece profundidade em uma cultura que frequentemente nos empurra para a superficialidade.

Isso não significa desprezar a felicidade. A alegria é bem-vinda, necessária e bela. Mas talvez ela deva ser entendida como consequência, não como fundamento. Quando a vida está alinhada a valores sólidos e a um propósito claro, a felicidade deixa de ser uma obsessão e passa a ser um fruto. Ela aparece nos intervalos do caminho, como confirmação de que estamos na direção certa.

A pergunta, portanto, não é apenas se estamos felizes. A pergunta é se nossa vida faz sentido. Estamos vivendo de acordo com aquilo que reconhecemos como verdadeiro? Estamos contribuindo, ainda que de forma discreta, para algo que ultrapasse nossa própria individualidade?

No fim das contas, ninguém consegue sustentar uma existência apenas de momentos agradáveis. Mas é possível sustentar uma vida inteira quando ela está ancorada em significado. É isso que transforma o tempo em trajetória. É isso que dá espessura às experiências. É isso que permite atravessar as inevitáveis crises sem perder a própria identidade.

Talvez o verdadeiro equilíbrio não esteja em escolher entre felicidade e sentido, mas em compreender que o sentido é o chão e a felicidade é a paisagem que eventualmente se abre diante de nós.

E quando olharmos para trás, não será a quantidade de dias felizes que definirá nossa história, mas a qualidade do significado que fomos capazes de construir.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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