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A cada 9 segundos, MG registra uma internação por consequências do diabetes

Redação16 de março de 202612min0
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Complicações da doença crônica somaram mais de 3,5 milhões de casos em 2025, segundo a Secretaria de Saúde

“É uma doença silenciosa, eu não sentia nada”, relata o aposentado Antônio Domingos dos Santos Filho, de 61 anos. Diabético, ele integra a parcela da população que convive diariamente com uma enfermidade que, em muitos casos, causa danos sem grandes alardes. Antônio não percebeu, por exemplo, que o aumento da sede era um sintoma da doença.

“Minha mãe sempre alertava para procurar saber o que estava acontecendo, mas eu não dava confiança. Meu pai tinha os mesmos sintomas e era diabético. Quando resolvi fazer o exame de sangue, minha glicose deu 219 mg/dL em jejum (o normal para um homem adulto é de 70 a 99 mg/dL). O médico falou que eu já era diabético”, contou.

Em Minas Gerais, em média, uma pessoa a cada nove segundos é internada por causa de complicações do diabetes, como infarto ou insuficiência renal. Em 2025, conforme a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG), foram 3.533.705 admissões em unidades de saúde por problemas relacionados à doença.

Para o endocrinologista Paulo Miranda, da Rede Mater Dei, a dificuldade de identificar os sintomas é um dos principais desafios. “Na maioria das vezes, o diagnóstico é feito na ausência (não percepção) de sintomas, a partir da identificação da glicemia alterada. Em um estudo com pessoas que não tinham diagnóstico prévio, quase metade das pessoas com glicose alterada não sabia que tinha diabetes”, explicou.

É justamente aí que mora o perigo: não dói, não incomoda, não impede a rotina. Até que as consequências aparecem. Sobre as complicações do diabetes não tratado, Paulo Miranda destaca que elas podem ser severas. “O diabetes é a principal causa de cegueira adquirida na nossa população e também aumenta o risco de neuropatia diabética, infecções, dor nos pés e amputações. No mundo, uma amputação de membro inferior ocorre a cada 15 segundos por complicações do diabetes”, afirmou.

Antônio, que convive com a doença desde os 45 anos, explica que o agravamento muda tudo. Ele perdeu a visão e teve a perna amputada. Mas, segundo ele, a maior amputação foi emocional. “São doenças silenciosas, muitas vezes não sentimos nada. O meu trabalho não foi impactado inicialmente, mas tive um abalo emocional. Os pensamentos ruins entram na cabeça da gente e atrapalham”, disse.

O cenário ficou mais crítico porque, no começo, o aposentado conta que não levou o tratamento a sério. “Depois do diagnóstico, eu não segui o tratamento certinho. Continuei fazendo tudo errado, não cumpri as regras para manter o controle”, disse. “O diabetes parece que puxa a gente para o que não pode: dá vontade de comer doce, tomar café com açúcar, suco bem doce”, afirmou. “Se a gente sai do controle e continua fazendo errado, a doença vai ficando mais difícil de controlar. A minha perna foi amputada também por causa do cigarro. Ele agravou tudo”, completou.

Hoje, mesmo seguindo corretamente os medicamentos, ele enfrenta outra barreira: o acesso. Mora apenas com o pai, também idoso e diabético, e não consegue manter acompanhamento regular. “Não tenho acompanhamento médico porque dependo de alguém para me levar, por causa da visão. Então a gente deixa de fazer as coisas para não perturbar ninguém”, explicou.

“Se tivéssemos demorado mais algumas horas, poderíamos ter perdido nossa criança”

O diabetes atinge pessoas de todas as idades. Há quatro anos, o estudante Luiz Felipe de Almeida, de 12 anos, faz tratamento para a doença. Segundo a mãe do paciente, Lídia de Almeida, de 42 anos, os primeiros sinais foram confundidos com uma virose. “Ao chegar ao hospital, veio o susto: ele estava em estado gravíssimo, com hiperglicemia acima de 400. Foi encaminhado imediatamente para o CTI. Os médicos tinham dificuldade até para encontrar uma veia para o acesso, tamanha a gravidade do quadro. A única coisa que o médico nos pediu naquele momento foi oração, pois era um caso muito delicado”, detalhou.

O médico Paulo Miranda explica que não há só um tipo de diabetes. “O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, diagnosticada geralmente na infância, que exige o uso imediato de insulina. Já o diabetes tipo 2 costuma ser diagnosticado de forma assintomática e está associado a outras condições, como obesidade e hipertensão”, explica.

O diagnóstico de Luiz foi um choque para a família. “Muitas pessoas acreditam que o diabetes surge por consumo excessivo de doces, mas esse não era o caso dele. Ele nunca foi de comer muito açúcar. Os exames mostraram que ele já havia nascido com a doença, e só fomos descobrir mais tarde. Para toda a família, foi um choque. Imaginar que, se tivéssemos demorado mais algumas horas, poderíamos ter perdido nossa criança, é algo impossível de descrever”, contou.

A mudança de rotina é permanente. “A rotina da casa muda completamente. A criança passa a ter horários rígidos para comer e uma alimentação específica para manter o controle da glicemia. Toda a família precisa se adaptar. Muitas vezes, é preciso aplicar insulina enquanto a criança dorme, seguindo rigorosamente os horários orientados pela médica. Após a aplicação, a criança precisa se alimentar em um intervalo específico”, disse Lídia.

Hipertensão e obesidade também levam uma “multidão” para o hospital

Em Belo Horizonte, as internações por obesidade aumentaram 138,8% em 2025: foram 9.231 casos, contra 3.864 em 2024. Já as internações por hipertensão cresceram 234% — 209.605 em 2025, frente a 62.619 no ano anterior. Doenças, muitas vezes, relacionadas ao diabetes.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) defendem a criação de um imposto de 20% sobre bebidas açucaradas para frear o avanço da obesidade no Brasil. “Somente em 2019, estima-se que 57 mil mortes prematuras no Brasil foram atribuíveis ao consumo generalizado de alimentos ultraprocessados (AUP). O impacto econômico é severo: doenças e mortes associadas a esses produtos impõem um ônus anual de aproximadamente 1,24 bilhão de reais ao orçamento público, incluindo cerca de 970 milhões em custos diretos para o Sistema Único de Saúde (SUS)”, aponta o artigo.

Para Paulo Miranda, a taxação pode ajudar. “O consumo regular de alimentos ultraprocessados está associado a piores desfechos de saúde e, por isso, esses produtos deveriam ter maior taxação”, afirmou. Mas ele pondera que o enfrentamento precisa ser mais amplo. “Além das políticas fiscais, são fundamentais ações educativas, investimentos em merenda escolar, mobilidade urbana, segurança, transporte público, ciclovias e espaços públicos para a prática de atividade física”, comenta.

E reforça que alimentação saudável não precisa ser sinônimo de luxo. “Muitas vezes, a alimentação saudável é vista como algo inacessível ou caro, muito por causa de informações equivocadas divulgadas nas redes sociais. Uma alimentação saudável é simples, baseada em alimentos in natura de origem vegetal, encontrados em feiras e mercados, com preparo caseiro e redução do consumo de ultraprocessados”, explica.

Prevenção: o que pode ser evitado

“A prevenção passa pelo diagnóstico precoce e pelo tratamento adequado, que envolve hábitos saudáveis, alimentação equilibrada, atividade física, controle do sono e manejo do estresse”, ressalta Paulo Miranda.

O endocrinologista Rodrigo Lamounier também destaca a importância de mudanças simples. “É importante buscar uma alimentação saudável, com menor consumo de alimentos ultraprocessados e mais comida de verdade, sempre atento à qualidade e à quantidade do que se come. Além disso, manter o peso corporal e praticar atividade física de forma regular são cuidados essenciais”, explica.

Ele recomenda ainda o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde. “É um documento simples, acessível, bem ilustrado e com uma linguagem muito clara. Ele apresenta princípios básicos da alimentação saudável e é uma ótima referência para a população”, afirma.

Na prática, a falta de acompanhamento pode trazer consequências irreversíveis — físicas e emocionais. “A partir dos 40 anos, a pessoa precisa fazer um check-up completo. Se houver alguma alteração, é necessário tratar e não deixar para depois. O diabetes é uma doença silenciosa e, quando você percebe, ela já avançou”, alerta Antônio. “O que eu estou passando não é legal e não desejo isso para ninguém. As pessoas precisam ser alertadas. Saúde tem que ser prioridade”, conclui.

O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, pode ser acessado clicando aqui.

Fonte: O Tempo

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