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Por que continuamos no que não funciona

Ed Gonçalves5 de maio de 202610min0
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por Ed Gonçalves

Há uma frase amplamente repetida, muitas vezes atribuída a Einstein, embora sem confirmação, que diz que loucura é fazer sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes. Talvez o mais interessante dessa frase não seja a sua autoria, mas o desconforto silencioso que ela provoca quando encontra um ponto sensível em quem a escuta. Porque, quando ela nos toca, não é como uma ideia nova que chega, mas como algo que já estava ali, aguardando ser reconhecido. No fundo, nós sabemos. Sabemos quando estamos repetindo certos movimentos, certos vínculos, certos modos de nos colocar no mundo. Sabemos quando insistimos em situações que já demonstraram, de inúmeras formas, que não produzem o efeito que desejamos. Sabemos quando algo já não funciona. E, ainda assim, permanecemos. Não por falta de inteligência, não por ausência de reflexão, mas porque há algo mais profundo em jogo, algo que escapa à lógica simples da decisão consciente.

A repetição, nesse sentido, não é ignorância. É, muitas vezes, uma forma de defesa. Há uma espécie de organização psíquica que se sustenta justamente naquilo que se repete, mesmo que isso traga sofrimento. Romper com um padrão não significa apenas mudar um comportamento externo. Significa tocar em estruturas internas que foram construídas ao longo de uma vida inteira. E isso não acontece sem resistência. Existe uma distância considerável entre compreender e transformar. Entender o próprio sofrimento não garante, por si só, a sua superação. Se fosse assim, bastaria nomear o problema para que ele deixasse de existir. Mas a experiência mostra o contrário. Muitas vezes, conseguimos descrever com precisão aquilo que nos faz mal e, ainda assim, seguimos presos ao mesmo circuito. Isso acontece porque a mudança não se opera apenas no campo da razão. Ela exige um reposicionamento subjetivo, algo que não se impõe de fora para dentro, nem se resolve por decreto.

Mudar implica perda. E essa é uma dimensão que raramente é considerada com a devida seriedade. Perde-se o conhecido, ainda que ele seja atravessado por frustrações. Perde-se uma forma de se reconhecer no mundo, uma identidade que, mesmo limitada, oferece alguma estabilidade. Perde-se, inclusive, a narrativa que sustenta a própria história. Aquilo que se conta sobre si mesmo, aquilo que organiza a própria existência, não se altera sem consequências. Há um custo psíquico real em abandonar certas posições, mesmo quando elas já não servem. Talvez por isso a repetição seja, em muitos casos, preferível. Não porque seja satisfatória, mas porque é familiar. O sofrimento conhecido, por mais difícil que seja, ainda é um território mapeado. O sujeito sabe, de algum modo, o que esperar dele. Já o novo não oferece garantias. Ele exige uma travessia sem roteiro, um encontro com aquilo que ainda não tem forma definida. E isso, inevitavelmente, mobiliza angústia.

O novo exige um tipo de coragem que não se anuncia. Não é a coragem que aparece em grandes gestos ou decisões espetaculares. É uma coragem silenciosa, quase íntima, que se manifesta na disposição de se olhar sem os disfarces habituais. Trata-se de sustentar um olhar sobre si mesmo que não recorra imediatamente às justificativas conhecidas. De reconhecer padrões que se repetem não por acaso, mas porque respondem a uma lógica interna que precisa ser escutada. Há uma fidelidade inconsciente à própria história. Muitas das escolhas que se apresentam como decisões livres estão, na verdade, atravessadas por essa fidelidade. Repete-se não apenas o que se conhece, mas aquilo que, de alguma forma, mantém uma coerência com experiências anteriores, com marcas que foram inscritas em momentos decisivos da vida. Romper com isso não é simples, porque implica, em alguma medida, reescrever a própria posição diante do mundo.

É por isso que a mudança real não começa com uma decisão no sentido mais superficial do termo. Ela começa quando algo se desloca na forma como o sujeito se implica naquilo que vive. Quando o sofrimento deixa de ser apenas algo que acontece e passa a ser interrogado. Quando surge a possibilidade de perguntar não apenas “por que isso acontece comigo”, mas “qual é a minha participação nisso que se repete”. Esse ponto é delicado, porque não se trata de culpa, mas de implicação. Há uma diferença fundamental entre se culpar e se responsabilizar. A culpa paralisa, aprisiona o sujeito em um julgamento que pouco transforma. A implicação, por outro lado, abre um campo de trabalho. Permite que algo seja feito com aquilo que, até então, apenas se repetia.

Nem sempre esse processo é rápido. Nem sempre ele é bonito. E quase nunca ele segue uma linha reta. Há avanços e recuos, momentos de clareza e períodos de opacidade. Há instantes em que tudo parece fazer sentido e outros em que se retorna exatamente ao ponto de onde se tentou sair. Isso não invalida o processo. Ao contrário, faz parte dele. Existe, porém, um momento específico, muitas vezes discreto, em que algo se altera de maneira mais decisiva. Não é necessariamente visível de fora, nem costuma ser acompanhado por grandes declarações. É um momento interno, em que o sujeito já não consegue mais sustentar a mesma posição sem que algo nele questione. A repetição deixa de ser automática. Ela passa a ser percebida como tal. E essa percepção, por si só, já introduz uma diferença.

A partir daí, não se trata mais de simplesmente decidir mudar, como se fosse possível, de um dia para o outro, abandonar tudo aquilo que foi construído até então. Trata-se de não conseguir mais ignorar o que se sabe. De não conseguir mais sustentar a ilusão de que nada está acontecendo. E, nesse ponto, ainda que lentamente, ainda que com hesitações, algo começa a se deslocar. Não porque houve uma escolha clara e definitiva. Mas porque já não é possível fingir desconhecimento diante da própria história. E, quando isso acontece, mesmo que o caminho ainda seja incerto, ele deixa de ser o mesmo.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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