JUNHO VIOLETA: você sabe reconhecer uma situação de violência contra uma pessoa idosa?


Junho guarda duas datas dedicadas ao combate à violência contra a pessoa idosa: o dia 15, reconhecido pela ONU como Dia Mundial de Conscientização sobre o tema, e o mês inteiro, marcado no Brasil pelo Junho Violeta. A dupla atenção se justifica. O país envelhece em ritmo acelerado – segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população com 60 anos ou mais saltou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, crescimento de 53,3% em pouco mais de uma década, e as projeções indicam que em 2070 cerca de 37,8% dos brasileiros serão idosos.
Quanto maior esse contingente, mais urgente se torna garantir que o envelhecimento aconteça com proteção e dignidade, mas os dados mostram que o país ainda está longe disso. Em 2025, o número de denúncias de violência contra pessoas idosas no Brasil superou pela primeira vez a marca de 180 mil registros no Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC). O número já era superior aos 179,6 mil de 2024, que por sua vez representaram um salto de 25% em relação a 2023.
Nos primeiros três meses de 2025 sozinhos, o canal registrou cerca de 250 mil violações de direitos da população com mais de 60 anos (cada queixa pode conter mais de uma privação a direito), uma média de quase 2.800 por dia, indicando um crescimento de 140% em relação ao mesmo período de 2022.
“Existe uma obrigatoriedade por parte do Ministério da Saúde, no atendimento de todos os serviços de saúde do Brasil, que é a notificação dos casos suspeitos ou confirmados de violência contra a pessoa idosa. Mas, quando nós olhamos o sistema nacional que registra todas as violências, as pessoas idosas estão em último lugar. Isso nos dá a falsa sensação de que idoso não sofre violência. A questão é que é subnotificado”, afirma Marília Berzins, gerontóloga e diretora da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo (SBGG-SP).
Quando o assunto é maus-tratos, a maioria das pessoas pensa em agressão física. Entretanto, a especialista alerta que essa é, na verdade, uma das formas menos frequentes nesse grupo etário. Segundo o Censo do Sistema Único da Assistência Social (Suas) de 2023, que mapeou quase 2.900 Centros de Referência Especializados de Assistência Social (Creas) no país, as formas mais presentes de violência atendidas nessas unidades foram negligência ou abandono (87,6%), violência psicológica (84,8%) e violência patrimonial (76,7%). A violência física, embora grave, aparece em 75,4% dos casos – atrás das demais.
Nesses casos mais comuns, além de muitas vezes não haver denúncia ou reconhecimento dos maus-tratos, os cuidados que deveriam ser prestados muitas vezes não acontecem, e essas pessoas ficam submetidas a alimentação inadequada, falta de higiene, privação de medicamentos e ausência em consultas médicas. Há também a violência financeira ou patrimonial – que representou 5,72% das denúncias em 2024 e vai desde o uso indevido do cartão bancário até a apropriação de imóveis e benefícios como aposentadorias e pensões.
Outros tipos de privação de direitos incluem a violência institucional, praticada dentro de serviços que deveriam cuidar; a violência estrutural, quando o próprio Estado falha na proteção de direitos garantidos por lei; e a violência medicamentosa, que ocorre quando medicamentos são negados ou administrados em doses inadequadas.
A especialista da SBGG-SP também chama atenção para dois dados que ainda surpreendem: pessoas idosas não estão protegidas de violência sexual pelo fato de serem idosas, e o suicídio é uma realidade invisibilizada. “Pessoas idosas cometem suicídio em um número extremamente relevante e, muitas vezes, a gente acha que a pessoa idosa não sofre, não se mata, não põe fim à sua vida”, relata.
Perfil do agressor
Um dos dados mais impactantes sobre o perfil da violência contra idosos no Brasil é quem a pratica. Uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) com base nos registros da ONDH revelou que, em 2025, 55,66% das denúncias apontaram filhos ou filhas como autores da violência – e as mulheres passaram, pela primeira vez na série histórica analisada, a figurar ligeiramente à frente dos homens entre os principais agressores. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam na mesma direção: 60% dos casos de violência contra idosos ocorrem no ambiente familiar.
Segundo os pesquisadores, parte dessa dinâmica está ligada à dependência financeira invertida: em muitos lares, é o idoso quem sustenta a família. Filhos adultos que retornam para a casa dos pais, ou que dependem de seus benefícios, tornam-se potenciais agressores. A violência também se concentra geograficamente: a região Sudeste respondeu por 51,67% das denúncias do país em 2025, seguida pelo Nordeste (20,67%) e pelo Sul (14,49%).
Para Marília Berzins, esse cenário explica em grande parte o silêncio das vítimas. “Muitas vezes, as pessoas idosas não querem relatar ou negam as violências porque este membro da sua família, essa pessoa que comete violência, tem uma íntima relação com ela. Às vezes ela depende dessa pessoa para seus cuidados”, destaca. A especialista ressalta que, quanto mais fragilizada a pessoa está, maior é sua vulnerabilidade à violência.
Além do silêncio das vítimas, a subnotificação por parte dos profissionais de saúde agrava o quadro. “Muitas vezes, o profissional subvaloriza essas notificações e dá prioridade, por exemplo, à criança, ao adolescente, à mulher. Não há um valor”, critica Marília. Ela reforça que a notificação nos serviços de saúde é obrigatória por lei e não equivale a uma denúncia formal – é o preenchimento de um formulário de suspeita, um ato simples e fundamental para dar visibilidade ao problema.
Sinais de alerta
A violência deixa marcas – nem sempre físicas, mas sempre presentes. Segundo Marília Berzins, familiares, vizinhos e profissionais de saúde devem prestar atenção a mudanças de comportamento que fogem do padrão habitual da pessoa idosa. “Uma idosa que era superativa na vida social e sofreu uma violência financeira pode deixar de participar nos grupos, na igreja”, exemplifica. Em casos de negligência e abandono, os sinais podem ser emagrecimento, insegurança, falta de higiene ou perda de vontade de viver.
A especialista também alerta para a necessidade de uma abordagem cuidadosa: é preciso criar um ambiente de segurança para que a pessoa se sinta à vontade para relatar o que está vivendo. “Ao perceber uma situação de violência, nós temos várias formas de encaminhar”, orienta a especialista. A principal é a denúncia pelo Disque 100, serviço gratuito disponível 24 horas por dia, todos os dias – inclusive fins de semana e feriados – e que também aceita denúncias via WhatsApp e Telegram pelo número (61) 99611-0100. Não é necessário se identificar.
Outra via é procurar a assistência social por meio do Centro de Referência da Assistência Social (Cras) ou do Creas. Os Conselhos Municipais do Idoso e as delegacias também são pontos de entrada válidos. A gerontóloga reforça que a violência contra a pessoa idosa não é um problema doméstico ou privado. “As violências desrespeitam toda a sociedade. Não é um problema de família, não é aspecto só da vida íntima dentro de casa”, alerta, advertindo para o risco da banalização: “Quando normalizamos que sofrer violência é normal, nós perdemos a capacidade de reagir frente às diversas violências. Todos nós temos importância”.
Onde denunciar
- Disque 100 – gratuito, sigiloso, funciona 24h, inclusive fins de semana e feriados. Também pelo WhatsApp ou Telegram: (61) 99611-0100
- Cras e Creas de cada município
- Conselho Municipal do Idoso
- Delegacias de polícia
- Em caso de emergência ou risco imediato, ligue para o 190 (Polícia) ou 192 (Samu).
Fonte: O Tempo

















