Câncer de rim pode crescer 80% até 2050: saiba por que a maioria descobre o tumor ‘por acaso’


O número de casos de câncer de rim pode crescer quase 80% até 2050 no Brasil e na América Latina. A projeção da Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que a incidência da doença deve aumentar 79,8% na América Latina e 79,5% no Brasil nas próximas décadas. O alerta ganha destaque nesta quinta-feira (18/6), Dia Mundial do Câncer de Rim, data criada para ampliar a conscientização sobre um tipo de tumor que, na maioria das vezes, evolui sem apresentar sintomas no início.
Atualmente, mais de 434 mil novos casos de câncer renal são diagnosticados por ano no mundo. No Brasil, dados mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam para uma estimativa de 11 mil a 12 mil novos casos anuais. Apesar de representar cerca de 3% dos cânceres em adultos, o tumor renal preocupa médicos e pesquisadores pelo comportamento silencioso.
Por que tantas pessoas descobrem o câncer de rim por acaso?
O câncer de rim costuma não apresentar sinais claros nas fases iniciais. Por isso, aproximadamente 60% dos casos são identificados de forma incidental, ou seja, quando o paciente realiza um exame de imagem por outro motivo e acaba descobrindo uma alteração no órgão. Pode acontecer, por exemplo, durante um ultrassom abdominal de rotina ou uma investigação para outro problema de saúde.
“É mesmo comum que o carcinoma de rim seja descoberto acidentalmente, durante a realização de um exame de rotina ou por outra causa. A boa notícia é que em muitas dessas ocasiões ele ainda está em estágio inicial, localizado exclusivamente no rim, situação na qual são maiores as taxas de cura”, explica Artur Ferreira, oncologista da Oncoclínicas.
Segundo o especialista, o diagnóstico precoce faz diferença porque, quando o tumor ainda está restrito ao rim, as possibilidades de tratamento e controle da doença são maiores. Esse tipo de tumor pode aparecer em diferentes idades, mas é mais frequente a partir dos 60 anos, principalmente entre os 50 e 70 anos.
A doença também atinge mais homens do que mulheres. Dados da International Agency for Research on Cancer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, mostram que, em 2020, cerca de 271 mil homens foram diagnosticados com câncer renal no mundo, enquanto 160 mil mulheres receberam o diagnóstico.
Atualmente, o câncer de rim é o 14º tipo de câncer mais comum no mundo. Entre os homens, ocupa a 9ª posição, e entre as mulheres, a 14ª.
Tipos de câncer renal variam conforme a idade
Entre os adultos brasileiros, o tipo mais frequente é o câncer renal de células claras, responsável por aproximadamente 75% dos casos, segundo o Ministério da Saúde. Nas crianças, o tumor renal mais comum é diferente. Trata-se do tumor de Wilms, que representa 7% dos casos de câncer renal infantil. Esse tipo de câncer pode atingir um ou os dois rins e costuma aparecer principalmente antes dos 6 anos de idade. Segundo Artur Ferreira, a cada dez casos de câncer renal diagnosticados em crianças, cerca de nove são tumores de Wilms.
Como os hábitos de vida e as condições de saúde influenciam risco da doença
Embora alguns fatores, como idade e predisposição genética, não possam ser alterados, especialistas apontam que parte dos riscos está relacionada a hábitos e condições de saúde que podem ser acompanhados e controlados. Entre os principais fatores associados ao câncer de rim estão:
- tabagismo;
- obesidade;
- hipertensão arterial não controlada;
- sedentarismo;
- doença renal crônica;
- histórico familiar e algumas síndromes hereditárias.
O oncologista clínico Matheus Baptista, da Croma Oncologia, destaca que o controle desses fatores pode ajudar a reduzir o risco de desenvolvimento da doença. “Tabagismo, obesidade, hipertensão arterial não controlada e sedentarismo estão entre os principais fatores associados à doença. O controle desses fatores pode contribuir para a redução do risco de desenvolvimento do câncer renal. No entanto, é importante destacar que outros fatores também influenciam o surgimento da doença, incluindo idade, sexo, doença renal crônica e predisposição genética, presente em aproximadamente 6 a 9% dos casos”, afirma.
Também entram na lista de risco pessoas com insuficiência renal crônica, especialmente aquelas submetidas à hemodiálise, além de pacientes com algumas alterações genéticas hereditárias, como as síndromes de Von Hippel-Lindau e Birt-Hogg-Dube, o complexo de esclerose tuberosa e o carcinoma papilar renal hereditário.
Quando os sintomas costumam aparecer?
Na maioria dos casos, o paciente não percebe alterações no início, e os sinais costumam surgir quando o tumor já está em uma fase mais avançada. A chamada tríade clássica do câncer renal, formada por dor na lateral do corpo, presença de sangue na urina e uma massa abdominal que pode ser percebida ao toque, atualmente é pouco comum. Essa combinação aparece em menos de 10% dos pacientes.
Um dos sinais que pode chamar atenção é a presença de sangue na urina, conhecida como hematúria. Segundo Artur Ferreira, ela aparece em menos de 25% dos casos e pode se manifestar de diferentes formas: a urina pode ficar com coloração rosada, vermelho vivo ou até mais escura, semelhante à cor de refrigerante de cola.
Outros sintomas que merecem investigação são:
- dor na região lombar ou abdominal;
- perda de peso sem motivo aparente;
- cansaço ou fadiga persistente.
“Embora alguns desses fatores sejam não modificáveis, como a idade por exemplo, muitos são evitáveis. Por exemplo: é desejável não fumar, adotar hábitos de vida saudáveis e seguir uma dieta equilibrada, além de ter um bom controle da pressão arterial”, orienta Ferreira.
Exames de imagem são fundamentais para o diagnóstico
Como os sintomas iniciais são pouco específicos, os exames de imagem têm um papel importante na descoberta do câncer de rim. A ultrassonografia costuma ser o primeiro exame capaz de identificar alterações no órgão. Ela ajuda a diferenciar, por exemplo, cistos simples de lesões sólidas que precisam de uma investigação mais detalhada.
Quando existe suspeita de tumor, a tomografia computadorizada com contraste é o exame mais utilizado para avaliar melhor a lesão e verificar se a doença está localizada ou se atingiu outras regiões do corpo.
A ressonância magnética também pode ser indicada em situações específicas, principalmente para pacientes que não podem utilizar contraste iodado ou quando o médico precisa avaliar o envolvimento de veias próximas ao tumor.
A biópsia, apesar de ser comum em muitos tipos de câncer, não é necessária em todos os casos de tumor renal. Isso acontece porque, muitas vezes, as imagens já oferecem informações suficientes para que a equipe médica defina a melhor conduta.
Diagnóstico precoce aumenta chances de cura
O momento em que a doença é identificada influencia diretamente as possibilidades de tratamento. Conforme os especialistas, em cerca de 70% dos casos, o câncer de rim é diagnosticado quando ainda está localizado, ou seja, restrito ao órgão. Nessa fase, a cirurgia para retirada do tumor continua sendo o principal tratamento com potencial de cura. A sobrevida em cinco anos para pacientes com doença localizada é superior a 90%.
Em situações específicas, principalmente quando o tumor é pequeno ou quando o paciente possui outras condições de saúde que dificultam uma cirurgia, os médicos podem optar por outras estratégias, como a vigilância ativa, com acompanhamento frequente, ou as ablações térmicas, técnicas que destroem o tumor utilizando calor ou frio.
O maior desafio está nos casos em que a doença já avançou. Cerca de 10% dos pacientes chegam ao diagnóstico com metástases, quando o câncer se espalhou para outros órgãos. Outros 10% daqueles que inicialmente tinham um tumor localizado e passaram por cirurgia podem apresentar retorno da doença posteriormente.
Para esses pacientes, os tratamentos passaram por grandes mudanças nos últimos anos. “Hoje conseguimos tratar o câncer de rim de forma mais eficaz em diferentes estágios da doença. Nas situações avançadas, as terapias sistêmicas trouxeram uma nova perspectiva de controle prolongado da doença e melhora na qualidade de vida”, explica o oncologista Matheus Baptista.
Novas terapias ampliam possibilidades de tratamento
Nos últimos anos, o tratamento do câncer de rim avançado passou por mudanças importantes. Novas combinações de medicamentos ajudaram a reduzir o risco de progressão da doença e de morte, principalmente em pacientes com tumores mais avançados. Entre os avanços estão as combinações de imunoterapia com terapias-alvo e o uso de duas imunoterapias associadas, estratégias que passaram a oferecer novas alternativas para pacientes que antes tinham poucas opções.
Esse avanço também foi destaque na reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), realizada em Chicago, nos Estados Unidos, no início deste mês. Pesquisadores apresentaram estudos sobre novas formas de tratar os cânceres de bexiga e rim em fases em que ainda existe possibilidade de cura. Os resultados reforçaram o potencial da imunoterapia em momentos mais precoces do tratamento, mas também levantaram uma discussão importante: como garantir que os pacientes certos recebam tratamentos mais intensivos, evitando efeitos colaterais sem benefício real.
Durante a sessão “Novas abordagens para a cura do câncer de bexiga e rim: em que ponto estamos hoje?”, especialistas discutiram uma mudança de estratégia: se antes os maiores avanços estavam concentrados nos casos metastáticos, agora o objetivo é evitar que a doença volte após tratamentos como cirurgia.
O urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos e de medicina genômica da BP, explica que esse movimento representa uma nova fase no tratamento. “Durante muitos anos, os avanços mais significativos ocorreram no tratamento da doença metastática. Agora, estamos vendo esses resultados serem transferidos para cenários curativos. O objetivo passa a ser reduzir a chance de recorrência e aumentar o número de pacientes efetivamente curados”, enfatiza.
Segundo ele, os estudos também mostram a importância de escolher bem quem deve receber terapias mais intensas. “Os estudos apresentados mostram que a cura é possível em grupos selecionados, mas também reforçam a necessidade de aprimorar a seleção dos candidatos para evitar exposição desnecessária a tratamentos que podem gerar toxicidade sem benefício proporcional”, completa.
Combinações de tratamento antes e depois da cirurgia
Um dos trabalhos apresentados na ASCO 2026 foi o estudo KEYNOTE-905/EV-303, que analisou uma combinação de medicamentos, enfortumabe vedotina e pembrolizumabe, administrada antes e depois da cirurgia para retirada da bexiga em pacientes com câncer de bexiga que invade o músculo.
O estudo avaliou pessoas que não podiam receber cisplatina, um dos medicamentos usados tradicionalmente nesse tipo de tratamento, ou que optaram por não utilizar essa terapia. Resultados apresentados anteriormente já haviam mostrado benefícios da combinação. O tratamento reduziu em 42% o risco de progressão da doença, retorno do câncer ou morte em comparação com a cirurgia realizada isoladamente. Também houve redução de 49% no risco de morte por qualquer causa.
Outro dado observado pelos pesquisadores foi que 36% dos pacientes tratados com a combinação não apresentavam mais sinais detectáveis de câncer na peça cirúrgica após o tratamento, contra cerca de 14% entre aqueles submetidos apenas à cirurgia.
Na ASCO 2026, os pesquisadores voltaram a analisar um ponto considerado fundamental quando novas terapias são incorporadas: a qualidade de vida dos pacientes. A preocupação era entender se um tratamento mais intenso poderia trazer benefícios contra o câncer, mas ao mesmo tempo causar impactos importantes no dia a dia.
Os resultados indicaram que a combinação de medicamentos não provocou piora significativa na qualidade de vida geral quando comparada à cirurgia isolada. As alterações observadas ocorreram de maneira semelhante entre os dois grupos e foram relacionadas principalmente aos efeitos da própria cirurgia de retirada da bexiga.
Os pesquisadores também acompanharam aspectos como funcionamento do intestino, controle urinário e vida sexual. Os resultados foram semelhantes entre os pacientes dos dois grupos. Houve impactos nessas áreas após o tratamento, especialmente relacionados à retirada da bexiga, mas não houve diferença significativa provocada pela combinação medicamentosa.
Para Gustavo Guimarães, os dados ajudam a responder uma das principais dúvidas sobre o uso de tratamentos mais intensivos em pacientes que ainda têm possibilidade de cura. “Quando avaliamos um tratamento adjuvante ou perioperatório, não basta observar apenas o controle da doença. Precisamos entender o impacto sobre a vida do paciente. Os dados apresentados sugerem que é possível obter ganhos em eficácia sem uma deterioração relevante da qualidade de vida global, o que fortalece a relação benefício-risco dessa estratégia para pacientes selecionados”, conclui.
Fonte: O Tempo

















