Chuvas em junho prejudicam lavouras e atrasam colheita do café em MG; saiba possíveis impactos


O volume atípico de chuvas no mês de junho influenciou fortemente o mercado cafeeiro, especialmente para produtores do grão arábica. De acordo com a analista de agronegócio do Sistema Faemg Senar, Ana Carolina Gomes, as precipitações provocaram, principalmente, um atraso nas colheitas. No ano passado, nesta mesma época, pelo menos 50% da produção já havia sido colhida – neste ano, apenas uma média de 30%.
A especialista explica que as chuvas impactam o processo de maturação dos grãos. “A planta está demorando um pouco mais para maturar. Então, esse processo está atrasando um pouco as colheitas”, diz. “A gente nota que essas regiões [mais úmidas] estão com um percentual de colheita hoje em torno de 20%. Já as regiões mais para o leste do estado e chapadas, a gente já tem uma colheita mais avançada, porque o clima tem sido mais seco nessas regiões, o que tem favorecido o andamento das colheitas. Então, na média do estado, a gente tem 30%”, exemplifica.
Outro ponto de impacto na colheita é o fato de as chuvas derrubarem os grãos mais maduros no solo, o que traz desafios para o produtor. “O primeiro problema do grão em contato com o solo é a contaminação por micro-organismo, e também interfere na bebida. É um problema de qualidade”, aponta Ana Carolina.
“O segundo problema seria o aumento do custo de produção, porque o produtor vai precisar de fazer um repasse extra para colher esse café que está no chão e fazer um tratamento diferente do café que ele colhe da planta, porque, se ele misturar, ele contamina tudo”, pontua. “E o terceiro risco seria a infecção de broca, uma vez que o grão no solo acaba sendo um ambiente perfeito para esse inseto”, acrescenta.
Além disso, devido aos impactos na qualidade do grão, o café que poderia ser classificado como “especial” ou de “bebida fina” acaba sendo vendido como um café inferior – ou seja, mais barato e que gera menos lucro para o produtor.
O café vai ficar mais caro?
Apesar do cenário e da pressão sobre o produtor, ainda não é possível prever aumento de preços no produto final para o consumidor. No início do ano, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) previu para a safra de 2026 a possibilidade de produção recorde de 66,7 milhões de sacas, uma alta de 18% em relação à última safra. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), se confirmado, esse cenário poderá contribuir para maior estabilidade de abastecimento e preços em todo o Brasil.
Segundo o diretor-executivo da Abic, Celírio Inácio, o volume de chuvas em junho comprometeu o andamento da colheita da safra 2026/27 de arábica e há indicativos de que as chuvas recentes, além de impactarem a qualidade também podem afetar o potencial produtivo das lavouras, gerando perda de produtividade no campo. “Caso esse cenário de perdas se concretize, o setor poderá vivenciar uma nova escalada nos preços da matéria-prima, mesmo em meio às perspectivas de uma safra volumosa. Isso impactaria diretamente os custos de aquisição do café verde pela indústria e, consequentemente, poderia pressionar os preços ao consumidor final”, avalia.
“Do ponto de vista da indústria, isso pode significar maior necessidade de gestão de blends, além de pressão sobre custos. Ainda assim, é importante evitar alarmismo: o setor acompanha o quadro com atenção, com prioridade de garantir qualidade e segurança ao consumidor”, pondera o diretor.
El Niño e safra 2027
Se as chuvas de junho já impactaram as lavouras, a falta das precipitações também deve trazer impactos para a próxima safra. A influência do El Niño pode trazer longos períodos de seca nos próximos meses, especialmente na primavera. “Isso para a cafeicultura acaba sendo um grande risco porque é justamente na primavera que a safra de 2027 se desenha. É o momento da florada, do pegamento, é quando a gente tem o enchimento dos grãos. Esse processo precisa de chuvas. E é justamente nessa época que os meteorologistas estão apontando que a gente vai ter um déficit hídrico”, comenta Ana Carolina.
Celírio Inácio acrescenta que, diante dos possíveis impactos do El Niño, a indústria precisa se preparar para possíveis efeitos sobre disponibilidade, qualidade e custo da matéria-prima, mas sem antecipar cenários extremos. “Os impactos climáticos associados ao El Niño também podem provocar nova escalada de preços e, dependendo da intensidade e da distribuição regional dos eventos climáticos, contribuir para uma possível frustração de safra em 2027”, alerta. “A indústria brasileira de café tem capacidade de adaptação, mas eventos climáticos cada vez mais frequentes reforçam a necessidade de planejamento, previsibilidade e integração entre produção, indústria, varejo e consumidor”, conclui.
Fonte: O Tempo

















