Mais de 85% dos brasileiros consomem menos cálcio do que o recomendado


Muito associado à saúde dos ossos, o cálcio é um mineral essencial para o funcionamento do organismo. Além de dar resistência ao esqueleto, ele participa de processos indispensáveis para a manutenção da vida. Ainda assim, a maior parte dos brasileiros não consome a quantidade recomendada diariamente.
Dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que mais de 85% da população apresenta ingestão insuficiente de cálcio. Entre mulheres adultas e idosas, a inadequação ultrapassa 90%, tornando o grupo vulnerável à complicações relacionadas à fragilidade dos ossos
Segundo a endocrinologista Patrícia Corradi, idealizadora do projeto de saúde ELAS+, embora quase todo o cálcio do organismo esteja armazenado nos ossos e dentes, uma pequena parcela exerce funções indispensáveis para a manutenção da vida.
“Cerca de 99% do cálcio está armazenado nos ossos e dentes, conferindo resistência e estrutura. O 1% restante participa da contração muscular, incluindo a do músculo cardíaco, da transmissão dos impulsos nervosos, da coagulação sanguínea, da liberação de hormônios e do funcionamento de diversas enzimas”, explica.
A médica explica que os laticínios continuam sendo as principais fontes do mineral por apresentarem alta absorção pelo organismo. No entanto, para quem não consome leite e derivados, Patrícia aponta boas fontes de cálcio, como tofu, sardinha, salmão, couve, brócolis, gergelim, tahine, amêndoas, algumas leguminosas e bebidas vegetais enriquecidas com o mineral.
Outro nutriente indispensável é a vitamina D. “A vitamina D é fundamental para que o intestino absorva adequadamente o cálcio presente nos alimentos. Quando há deficiência, essa absorção diminui e a saúde óssea pode ser comprometida”, alerta.
Patrícia ressalta ainda que suplementos não devem ser usados por conta própria. “Sempre que possível, a prioridade deve ser obter cálcio pela alimentação. A suplementação é indicada apenas em situações específicas, quando a dieta não consegue fornecer a quantidade necessária ou há alguma condição clínica que justifique seu uso”.
Deficiência silenciosa
Para a ortopedista Marcela Silva Freitas, especialista em doenças osteometabólicas, a ingestão insuficiente de cálcio durante muitos anos compromete a saúde dos ossos e aumenta o risco de osteopenia, osteoporose e fraturas. “O cálcio é um dos principais minerais responsáveis pela formação e manutenção dos ossos. Quando a ingestão é insuficiente por muitos anos, o organismo retira cálcio do esqueleto para manter funções vitais, favorecendo a perda de massa óssea”, esclarece.
Segundo ela, esse processo normalmente acontece sem provocar sintomas. “Na maioria das vezes, é um problema silencioso. Muitas pessoas só descobrem a osteoporose depois de sofrer uma fratura por fragilidade ou perceber perda de altura causada por fraturas na coluna”.
A especialista destaca que a infância e a adolescência são decisivas para formar o chamado pico de massa óssea. “Costumo dizer que essa é uma poupança para o futuro. Quanto maior essa reserva construída até cerca dos 30 anos, menor será o risco de osteoporose e fraturas durante o envelhecimento”, frisa a ortopedista.
Segundo Marcela, a baixa ingestão de cálcio durante a infância e a adolescência, aliada ao sedentarismo e à deficiência de vitamina D, pode impedir que essa reserva seja formada plenamente.
Além da alimentação adequada, Marcela recomenda a prática regular de exercícios, especialmente atividades de fortalecimento muscular e com impacto, que estimulam a formação óssea e ajudam a reduzir o risco de quedas e fraturas.
Grupos de risco
A reumatologista Fernanda Calil explica que, embora qualquer pessoa possa desenvolver perda de massa óssea, alguns grupos exigem atenção especial. “As mulheres após a menopausa constituem um dos principais grupos de risco porque a queda dos níveis de estrogênio acelera a perda óssea. Os idosos também merecem atenção, pois costumam ingerir menos cálcio, apresentam menor absorção intestinal e frequentemente têm deficiência de vitamina D”, afirma.
Ela acrescenta que pessoas com doenças inflamatórias crônicas, doenças intestinais que dificultam a absorção de nutrientes, pacientes submetidos à cirurgia bariátrica e usuários de corticoides por tempo prolongado também apresentam maior risco de osteoporose.
Fernanda faz ainda um alerta sobre um equívoco bastante comum. “Consumir mais cálcio não significa, necessariamente, ter ossos mais fortes. O excesso de suplementação, quando não há indicação médica, não traz benefícios comprovados”.
Segundo a especialista, o mais importante é investir na prevenção ao longo da vida e identificar precocemente quem apresenta fatores de risco. “A osteoporose pode permanecer silenciosa durante décadas, mas suas consequências, principalmente as fraturas de quadril e coluna, podem comprometer significativamente a qualidade de vida, a independência e até aumentar o risco de mortalidade em idosos. A boa notícia é que grande parte desses casos pode ser prevenida com hábitos saudáveis, diagnóstico precoce e acompanhamento médico”, pontua.
Fonte: O Tempo

















