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Apostando alto, vencendo pouco, perdendo tudo

Redação8 de julho de 20267min0
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Especialistas alertam sobre a “pandemia silenciosa” que tem levado milhões de famílias ao endividamento e à crise emocional com as Bets

Atualmente o Brasil enfrenta uma nova pandemia silenciosa: o vício em jogos online. Invisível aos olhos, mas devastador nas finanças e na saúde mental, a prática já compromete a renda de milhões de famílias e empurra trabalhadores para o endividamento crônico. Se antes o vírus atacava o corpo, agora o “vírus das apostas” corrói a estabilidade financeira e emocional, transformando celulares em cassinos portáteis e multiplicando histórias de perdas, dívidas em vulnerabilidade social.

Dados do Governo Federal mostram que 25,2 milhões de brasileiros apostaram em plataformas autorizadas em 2025, sem contar as casas clandestinas. A receita bruta do setor chegou a R$ 17,4 bilhões apenas no primeiro semestre de 2025. O cenário é ainda mais grave em um país marcado pela desigualdade.

Um dos indicadores dessa preocupação é o volume de recursos provenientes de programas sociais destinados às apostas. Em agosto de 2024, beneficiários do Bolsa Família movimentaram cerca de R$ 3 bilhões em casas de apostas. Para o advogado Kallil Sousa Silva, especialista em Direito Civil, esse cenário evidencia o potencial de agravamento da vulnerável situação econômica de milhares de famílias. “A receita para o caos social está pronta”, afirma. De acordo com  Kallil Sousa a evolução tecnológica, ao acesso às apostas deixou de ser restrito aos cassinos físicos e passou a estar disponível em qualquer celular. “Agora cada um tem o cassino ao alcance das mãos e com poucos toques pode arriscar o seu  salário em apostas”, alerta o professor da Afya Redenção, especialista em Direito Civil e Agronegócio.

Dependência psicológica

A psicóloga Emilly Lima, professora na Afya Marabá, complementa que a linha entre entretenimento saudável e dependência “reside no controle e na priorização”. Segundo ela, os sinais de alerta incluem isolamento social, negligência de responsabilidades, irritabilidade e uso do jogo como escape emocional. “O jogador passa a viver em função da aposta, abandonando vínculos e transformando o jogo em sua única ferramenta de enfrentamento”, explica.

Emilly reforça que esse “furacão silencioso” não atinge apenas o apostador. “O prejuízo financeiro costuma ser o primeiro sinal visível, mas logo se instala um ambiente de desconfiança, estresse crônico e sensação de traição entre os familiares. Muitas vezes, os parentes adoecem juntos, vivendo em estado de alerta constante e tentando esconder o problema da sociedade.”

Outro dado que chama atenção é a intensa propaganda das casas de apostas, presente em televisão, redes sociais e patrocínios esportivos. “O cidadão se vê em constante estímulo. O lobby das casas de Bets impede que uma discussão mais séria sobre regulamentação ou de proibição avance no Congresso”, analisa Kallil.

A psicóloga ressalta que muitas pessoas com ludopatia — transtorno caracterizado pela compulsão por jogos de azar, demoram a buscar ajuda por medo do julgamento social. “Ainda existe a ideia de que o vício em apostas é uma questão de falta de força de vontade ou de caráter, quando, na verdade, estamos falando de um transtorno que precisa de tratamento. O acolhimento da família e da rede de apoio é fundamental para que a pessoa reconheça o problema e se sinta segura para procurar ajuda profissional”, explica.

Apesar de medidas adotadas pelo Governo Federal, especialistas avaliam que as ações de enfrentamento ao vício em apostas ainda são insuficientes. Iniciativas como a plataforma de auto exclusão, lançada em 2025,  permite que usuários possam se bloquear voluntariamente, em sites autorizados. No entanto, a adesão ao mecanismo ainda é considerada baixa.

O Ministério da Saúde iniciou em março de 2026 um teleatendimento gratuito pelo SUS, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. A expectativa é realizar 600 consultas mensais, acessíveis pelo aplicativo Meu SUS Digital. O serviço oferece autotestes, acompanhamento psicológico e encaminhamento para a Rede de Atenção Psicossocial, garantindo sigilo e acessibilidade.

Sobre o tratamento, a psicóloga da Afya Marabá destaca que a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é considerada o padrão-ouro, pois ajuda o paciente a identificar gatilhos emocionais e reestruturar pensamentos distorcidos, como a “ilusão de controle” de que vai recuperar o dinheiro perdido. Ela também aponta a importância da entrevista motivacional, dos grupos de apoio mútuo, como os Jogadores Anônimos, e da abordagem psiquiátrica em casos de comorbidades, ressalta Emily Lima.

Onde buscar apoio jurídico

Além do suporte psicológico e médico, Núcleos de Práticas Jurídicas (NPJs), como o da Afya Redenção, oferecem assessoria gratuita para pessoas de baixa renda, inclusive em casos de devolução de valores por parte das casas de apostas. O atendimento ocorre de segunda a sexta-feira, das 08h às 11h, e de segunda a quinta-feira, das 14h às 17h. O Núcleo fica localizado na Rua Pedro Coelho de Camargo, S/N – Setor Buriti 1 – Redenção – PA.

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