Câncer deve impactar mais de 92% da população: entenda os reais motivos do avanço da doença no mundo


A Organização Mundial da Saúde (OMS) traçou um cenário de saúde pública que transformará o câncer em uma experiência praticamente universal. Um novo levantamento divulgado pela entidade avalia que 92% das pessoas serão impactadas pela doença nos próximos anos, seja por um diagnóstico pessoal ou por conviver com alguém em cuidados oncológicos, como pais, filhos ou companheiros. A projeção estima que uma em cada cinco pessoas receberá um diagnóstico de câncer durante a vida e que os casos globais saltarão de 20 milhões em 2022 para mais de 35 milhões em 2050, um crescimento na casa dos 77%.
O susto ao ler esse tipo de informação pode ser grande, afinal o câncer por muito tempo foi visto sob o estigma de “sentença de morte”, em um período marcado por opções limitadas de tratamento e menor conhecimento sobre a doença. Porém, especialistas reforçam que o crescimento não significa necessariamente que o mundo esteja diante de uma epidemia inesperada.
Parte desse avanço é consequência direta do aumento da expectativa de vida, enquanto outra parcela está relacionada às mudanças no estilo de vida. É o que explica o oncologista e oncogeneticista André Márcio Murad, professor fundador da disciplina e da residência em Oncologia da Faculdade de Medicina UFMG. “O primeiro motivo é até positivo: as pessoas estão vivendo mais. O câncer é uma doença do envelhecimento. Quanto maior a idade, maior a probabilidade de ocorrerem alterações no DNA das células que favorecem o desenvolvimento de tumores”, analisa.
Outro fator que infla as estatísticas, de forma positiva, é a democratização e a sofisticação do diagnóstico. Se no passado muitos pacientes faleciam sem sequer saberem a causa, hoje exames de imagem, biópsias e endoscopias chegam a populações em áreas mais remotas, revelando casos que antes ficariam ocultos nas estatísticas de mortalidade.
O estilo de vida como novo vilão
Embora o mundo tenha muito a comemorar com a queda global do tabagismo, que passou de quase 45% entre adultos em meados do século passado para menos de 10% atualmente, outros vilões assumiram o protagonismo. Quase 40% dos novos casos de câncer são preveníveis.
A vida moderna trouxe automação, sedentarismo e uma mudança drástica no prato da população. “A gente se alimenta cada vez mais de alimentos potencialmente cancerígenos: ultraprocessados, embutidos, ricos em gordura trans e conservantes. Juntando a má alimentação, o sedentarismo e a obesidade, temos os fatores causadores de uma gama considerável dos casos de câncer, que certamente ultrapassaram o tabagismo”, alerta Murad. Ele também destaca o consumo exagerado de álcool, fortemente ligado ao aumento de câncer de mama em mulheres mais jovens.
Esse impacto comportamental já é visível nas estatísticas de jovens adultos. Casos de câncer em pessoas com menos de 50 anos dispararam nas últimas três décadas. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou uma alta de 284% entre 2013 e 2024 para tumores como mama e colorretal nessa faixa etária. Nos Estados Unidos, o câncer colorretal ultrapassou o de mama e já é a principal causa de morte por câncer em pessoas com menos de 50 anos, sendo que 75% dos diagnósticos em adultos jovens ocorrem em estágios avançados.
O mapa da doença no Brasil e a desigualdade no tratamento
Dados divulgados pela própria OMS e por estudos como o “Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer em todo o mundo: um estudo populacional”, publicado na revista científica The Lancet, mostram que o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer neste ano, um aumento de 10% em relação à estimativa anterior. A mortalidade também segue em alta e, em diversos municípios brasileiros, já supera a das doenças cardiovasculares. Os tipos de câncer mais frequentes e os que mais provocam mortes no país desenham o seguinte cenário:
- Pulmão: 32 mil novos casos. É o mais letal no cenário geral (cerca de 28 mil a 31 mil mortes).
- Mama (Feminino): 73 mil novos casos. Altamente incidente e um dos que mais mata mulheres.
- Próstata: 71 mil novos casos. É o que mais causa mortes entre homens, com potencial para ultrapassar o de pulmão devido ao envelhecimento.
- Colorretal: 45 mil novos casos. Tendência de alta na mortalidade, registrando quase 25 mil mortes anuais recentes.
- Estômago e Colo Uterino: 21 mil e 17 mil novos casos, respectivamente, figurando entre os mais letais, especialmente em populações com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Apesar dos imensos avanços com a oncologia de precisão, imunoterapia e terapias-alvo que aumentaram a sobrevida de forma sem precedentes, há um abismo na acessibilidade. A taxa de sobrevivência para o câncer de mama supera 85% em países ricos, mas fica abaixo de 30% em nações de baixa renda.
Murad relata essa dicotomia na prática: “Quando comecei, a oncologia do sistema público era a mesma do privado. Hoje houve um distanciamento muito grande. Os testes genômicos e tratamentos como imunoterapia são caros. Infelizmente, no sistema público, ainda temos uma oncologia deficitária, muito distante daquela para pessoas que têm fontes pagadoras”.
A vida após o câncer e os desafios para a Medicina Geral
Com o aumento da sobrevida, o sistema de saúde enfrenta um novo paradigma: os sobreviventes. O Brasil possui hoje 3,5 milhões de sobreviventes de câncer, e estima-se que mais de 60% deles apresentarão efeitos tardios clinicamente relevantes, lidando com as chamadas “toxicidades” deixadas pelas novas terapias, como disfunções endócrinas, fibrose pulmonar e problemas cardíacos.
Esse foi o foco central das discussões no 4º Congresso Brasileiro de Medicina Geral, organizado pela Associação Médica Brasileira (AMB). A Dra. Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), ressaltou a urgência de aproximar a oncologia dos médicos generalistas.
“Os novos tratamentos aumentaram drasticamente a sobrevida. O médico geral precisa saber disso e estar preparado para acolher essa demanda”, pontuou o Dr. Jose Aurílio Rocha.
Para o Dr. Rodrigo Munhoz, membro do Comitê Científico da SBOC, o uso da imunoterapia permeia o dia a dia do generalista. Como essas terapias excitam o sistema imunológico, toxicidades imunomediadas ocorrem em cerca de 66% dos casos. “O pronto reconhecimento pelo profissional é fundamental para manter o plano terapêutico, sendo eventos potencialmente reversíveis se bem tratados”, afirmou.
Além do aspecto físico, a Dra. Solange Moraes Sanches lembrou que o paciente não “volta à vida normal” automaticamente após a alta. Há profundos impactos na saúde mental — 40% enfrentam ansiedade ou depressão — e “toxicidade financeira”, afetando 62% dos pacientes.
O perigo da “Medicina de Instagram”
Em meio à complexidade de diagnosticar e tratar o câncer no século 21, um novo risco se espalha silenciosamente: a desinformação. O estigma do câncer como “sentença de morte” vem perdendo força, mas abrindo espaço para soluções mágicas nas redes sociais.
O Dr. André Murad faz um alerta contundente contra o que chama de “medicina de influenciadores”, que promove um reducionismo perigoso dos sintomas. “Vejo uma infantilização de correlacionar fadiga ou perda de peso apenas com deficiências nutricionais. Ficam mandando as pessoas dosarem selênio, magnésio e indicando soro na veia, vitaminas. Se você suplementar sem critério, vai mascarar o diagnóstico de um câncer”, adverte.
O especialista defende o retorno imediato à medicina clínica tradicional, focada no paciente. “Todo ato médico começa com uma entrevista detalhada e um exame clínico completo. Não é só exame de laboratório que detecta doença. O principal antídoto contra sequelas e diagnósticos tardios é a boa formação do profissional de saúde.”
Fonte: O Tempo

















