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O que você faz com o que fizeram de você?

Ed Gonçalves14 de julho de 20265min0
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por Ed Gonçalves

Existe uma pergunta que praticamente ninguém gosta de ouvir. Ela costuma aparecer justamente quando temos uma lista organizada de motivos para explicar por que a vida não andou como a gente esperava. “Meu casamento acabou por causa do outro.” “Meu trabalho não rendeu porque ninguém reconheceu meu esforço.” “Minha família nunca me apoiou.”

Na maioria das vezes, essas frases são rigorosamente verdadeiras. Há pessoas que realmente nos machucam, há injustiças reais no ambiente de trabalho e há dores familiares que nunca deveriam ter acontecido. A dor não é uma invenção.

O problema começa quando a nossa história passa a ser contada apenas a partir do que os outros nos causaram. E é assim que, sem perceber, entregamos a eles o direito de decidir o nosso destino. Se toda a responsabilidade pelo que sinto está nas mãos do outro, a possibilidade de mudança também fica presa lá. É como entregar a chave da própria casa a quem nos feriu e sentar na calçada, esperando que essa pessoa decida, um dia, abrir a porta para nós.

Sigmund Freud percebeu algo que continua profundamente atual, no consultório e na vida: nós não repetimos os mesmos tropeços apenas por azar. Existe uma participação nossa, muitas vezes silenciosa e invisível para nós mesmos, naquilo que insiste em dar errado.

Essa constatação não serve para apontar culpados, muito menos para diminuir o sofrimento de quem foi ferido. Ela serve para nos devolver o volante.

Responsabilidade é muito diferente de culpa. Quem foi traído não tem culpa pela traição. Quem sofreu violência não tem culpa pela agressão. Quem foi abandonado não tem responsabilidade pelo abandono. Mas, depois que a poeira assenta e a dor se instala, resta uma pergunta que ninguém poderá responder em nosso lugar: o que eu vou fazer com o que fizeram de mim? Essa resposta não pode ser terceirizada. E é justamente nela que mora a única chance de construir uma saída.

Há quem passe décadas esperando um pedido de desculpas que nunca virá. Outros aguardam que o culpado finalmente reconheça o mal que causou para, só então, seguir em frente. Enquanto a espera dura, os dias passam, o tempo corre, e a vida continua seguindo seu fluxo.

Assumir a própria parte não apaga o passado, não fecha a ferida num passe de mágica e não perdoa quem nos machucou. Mas devolve algo que nenhuma dor deveria ter o poder de nos roubar: o direito de escrever o próximo capítulo. Quando assumimos essa autoria, deixamos de ser personagens coadjuvantes do roteiro alheio e começamos, passo a passo, a assinar a nossa própria história.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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