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Saiba como aumento de etanol na gasolina pode afetar veículos

Redação14 de julho de 20268min0
Belo Horizonte terá gasolina a R$ 3,82
Inicialmente, adoção do combustível E32 valerá por seis meses

A partir de agora, a gasolina vendida nos postos de combustível no Brasil terá mais etanol. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou, nesta terça-feira (14/7), o aumento da concentração de 30% para 32% do biocombustível na mistura, chamada de E32. Os produtores de etanol e o governo federal celebram a medida, enquanto os fabricantes de automóveis a encaram com ceticismo. Além deles, o motorista experimentará a mudança na prática e pode ser afetado – para o bem e para o mal.

Hoje, quase 80% da frota de veículos leves do Brasil é flex, aceitando etanol e gasolina. Nesse caso, eles não devem experimentar alterações perceptíveis do ponto de vista mecânico, tranquiliza o diretor do Centro de Tecnologia da Mobilidade da Universidade Federal de Minas Gerais (CTM-UFMG), José Guilherme Baêta. “Para os veículos flex, não há nenhum problema para o motor, ele não sentirá nada”, diz, lembrando que esses veículos são adaptados a diferentes concentrações de etanol.

“Já para a frota movida puramente a gasolina, é preciso ter cuidado, porque o aumento do teor de etanol pode gerar algumas falhas”, alerta. O problema é mais premente em veículos mais antigos ou importados.

Ele ocorre principalmente devido à Unidade de Controle Eletrônico (ECU), espécie de “cérebro” do veículo, que controla o volume de injeção de combustível, ponto de ignição e outros mecanismos essenciais para o funcionamento do automóvel. “Essas centrais são adaptadas a determinado percentual de etanol, mas, quando ele é alto, principalmente em motocicletas, pode haver falhas. Dependendo do fabricante, pode hazer problemas, em tempos mais frios, em ligar o veículo de manhã”, exemplifica o professor.

Isso ocorre devido à relação ar-combustível, que é o equilíbrio entre a quantidade de etanol ou gasolina e oxigênio necessários para gerar a combustão e fazer o veículo funcionar. “A gasolina tem mais energia por massa. Então, é necessário menos gasolina para a mesma quantidade de oxigênio do que etanol. Com a gasolina, a relação é de mais ar e menos combustível. Com o etanol, é de mais combustível e menos ar”, prossegue Baêta.

Ainda assim, o conselheiro de Tecnologia e Transição Energética da SAE Brasil Camilo Adas acalma os motoristas. “Nos veículos equipados com injeção eletrônica, mesmo quando não são flex, os sistemas de gerenciamento do motor normalmente realizam os ajustes necessários para manter a combustão dentro das condições previstas pelo fabricante. Para a ampla maioria da frota em circulação, a expectativa é de manutenção da dirigibilidade, do desempenho e das emissões nas condições normais de uso”, especifica.

O presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Marcus Vinícius Aguiar, pondera que, no dia a dia, em alguns casos os motoristas já têm abastecido com gasolina com 32% de etanol. “Na bomba, se encontra gasolina com uma tolerância de dois pontos percentuais a mais de etanol. De forma geral, quando se fala em veículos flex, não vemos problemas estruturantes grandes”, pontua.

Entre carros e motos abastecidos exclusivamente com gasolina, ele reconhece que pode haver mais problemas, mas por ora nada que cause alarde. “Não vejo que teremos grandes problemas na frota já em funcionamento. Não conseguimos bater o martelo de que haverá problemas de corrosão maiores por dois pontos percentuais a mais de etanol. Isso varia de projeto para projeto, mas não acredito que deva comprometer a vida útil do veículo fazendo a devida manutenção”, prossegue.

O CNPE afirma que a nova mistura foi testada e que “a utilização do E32 apresentou comportamento equivalente ao observado com misturas de menor teor de etanol, sem impactos relevantes no funcionamento dos veículos, inclusive aqueles equipados com motores não flex”. Os estudos foram executados pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).

O problema, de acordo com a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), é que as pesquisas são as mesmas utilizadas para a gasolina E30, quando o percentual de etanol passou de 27,5% para 30% em 2025. “Os testes com combustível contendo até 32% de etanol foram realizados apenas para contemplar a margem de tolerância prevista na especificação do E30 e não para comprovar a segurança e a compatibilidade de uma mistura obrigatória de E32”, alerta a associação.

E o preço dos combustíveis com o E32?

Em geral, o etanol “rende” menos do que a gasolina nos veículos, por isso utiliza-se o parâmetro – variável para cada modelo – de que ele vale a pena quando seu preço nos postos é no máximo 70% o da gasolina. O aumento do percentual do anidro na mistura tende a elevar esse número.

Em teoria, com mais etanol na gasolina, o motorista pode “gastar um pouco mais” ao abastecer com ela, afirma o professor José Guilherme Baêta. Por outro lado, entes do mercado avaliam que o preço da gasolina pode baixar, ainda que apenas ligeiramente. É o que argumenta o presidente da Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais (SIAMIG Bioenergia), Mário Campos. “O etanol anidro tem uma carga tributária mais baixa do que a gasolina A e é mais barato do que a gasolina. Então, o efeito do aumento da mistura é de redução de preço. É claro que, como a mistura está aumentando apenas dois pontos percentuais, é um efeito pequeno, de centavos”, pontua ele.

O principal argumento do governo federal para a adoção da E32 é ambiental, afinal o etanol emite menos gases poluentes do que a gasolina. Outro ponto defendido pelo CNPE é que a adoção da nova mistura pode tornar o Brasil autônomo na produção de gasolina, sem necessidade de importações em um momento de crise global do petróleo.

Na mesma linha, o chefe do núcleo mineiro da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Eder Oliveira, acrescenta: “O etanol tem menor valor de mercado. A maior adição na gasolina influenciará em uma menor necessidade de importação de gasolina externa, bem mais cara do que a nossa neste momento de conflitos internacionais. A tendência é que o consumidor gaste menos com esse combustível”.

Fonte: O Tempo

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