Houve um tempo em que criança fazia parte da paisagem. Estava na casa dos avós, brincando na rua, correndo pelo condomínio, na casa dos vizinhos, acompanhando os adultos ao supermercado, à igreja, ao restaurante… Era comum que diferentes gerações convivessem e que uma criança aprendesse, na prática, que cada lugar tinha suas regras.

Essa convivência, porém, vem mudando. O Brasil passou de uma taxa de fecundidade de 4,35 filhos por mulher, há quatro décadas, para 1,55. Ao mesmo tempo, a proporção de casais sem filhos passou de 12% em 2000 para 24% em 2022, segundo o IBGE. Com menos crianças circulando no cotidiano, surge uma questão que vai além da demografia: será que os adultos também estão perdendo a familiaridade com a infância?

Para a pediatra intensivista Letícia Salles, o afastamento pode fazer com que comportamentos absolutamente comuns na infância passem a ser vistos como problemas ou incômodos. Choro, birra, brincadeiras agitadas, bagunça e necessidade constante de atenção fazem parte do desenvolvimento infantil, mas podem causar estranhamento em adultos pouco acostumados a conviver com crianças.

“Crianças não são adultos em miniatura. Com esse distanciamento, os adultos se esquecem de que crianças são naturalmente dependentes, necessitadas de atenção e que choro, birras, brincadeiras agitadas e bagunças fazem parte da infância saudável e normal”, explica a pediatra.

A dificuldade aparece também dentro de casa. Segundo a pediatra, a falta de disponibilidade dos próprios adultos para brincar, conversar e acompanhar os filhos pode levar a uma rotina em que telas e brinquedos ocupam o espaço da interação. O resultado, avalia, pode ser uma criança com dificuldade para lidar com frustrações e regular as próprias emoções.

“Dos consultórios aos hospitais, vemos muitos pais distantes, incapazes de se relacionarem com seus filhos, delegando-os a telas e brinquedos sem fim por não saberem passar tempo com elas. No mesmo sentido, são incapazes de tolerar choro, birras e conduzir os desafios naturais da infância, acabando por ceder em tudo que a criança quer”, ressalta.

Para Letícia, antes de interpretar determinados comportamentos como sinal de um transtorno, é importante observar também o ambiente em que aquela criança está inserida e a dinâmica familiar. “Por fim, acaba chegando ao pediatra como queixa de criança ‘difícil’, ‘desobediente’, ‘desafiadora’, ‘hiperativa’, ‘desatenta’, etc. Busca-se um diagnóstico e um medicamento, sendo que, muitas vezes, o que se precisa é uma orientação da dinâmica familiar”, diz.

Transformação
A mudança não está apenas na relação dentro de casa. Também existe uma transformação nos espaços que as crianças ocupam. Ao mesmo tempo em que crescem ambientes “child-free” – hotéis exclusivos para adultos e estabelecimentos que restringem a presença infantil –, muitas famílias acabam concentrando a vida dos filhos em lugares pensados exclusivamente para eles.

A discussão não significa defender que crianças devam ser aceitas em absolutamente qualquer ambiente ou que adultos não tenham direito a momentos sem a presença delas. A questão é outra: até que ponto o desconforto diante de uma criança que faz barulho, brinca ou precisa de orientação passou a ser tratado como se ela estivesse necessariamente fazendo algo errado?

A pediatra considera que a convivência com diferentes ambientes é parte importante do aprendizado. Uma criança precisa, aos poucos, descobrir que o comportamento esperado em um parquinho não é o mesmo de uma sala de aula, um supermercado, uma loja ou um espaço religioso.

“A criança precisa saber se comportar nesses espaços, a lidar com o tédio, com momentos de silêncio, de escuta, entendendo que não pode agir da mesma forma que age em um parquinho. Ela precisa aprender a tratar todas as pessoas com respeito, com cuidado, entendendo e se adaptando aos diferentes contextos e situações.”

Nesse processo, outros adultos também têm um papel. Tios, avós, padrinhos, amigos da família e até pessoas que simplesmente convivem com a criança podem contribuir para que ela compreenda diferentes formas de interação. Não é preciso ter filhos para saber conversar, brincar ou estabelecer um limite respeitoso.

Quando o limite é necessário
Mas existe uma dúvida recorrente: quando a criança ultrapassa uma fronteira, quem deve agir? A responsabilidade pela educação continua sendo dos pais ou responsáveis. Ainda assim, há situações em que a intervenção de outro adulto pode ser necessária – principalmente quando o comportamento afeta diretamente alguém ou o ambiente.

Uma criança que empurra outra, por exemplo, não deve ser tratada como um problema insolúvel, mas precisa entender que aquele comportamento não é aceitável. Para Letícia Salles, o adulto que intervém precisa levar em consideração tanto a idade quanto a situação e evitar assumir uma autoridade que não possui. “De qualquer maneira, a correção deve ser sempre respeitosa e proporcional ao ato e à idade da criança. O adulto que for corrigir deve se lembrar que não possui autoridade sobre ela, e tentar colocar o limite de forma tranquila e clara para a criança”, diz.

Mais do que punição, o limite funciona como orientação. A criança ainda está aprendendo as regras de convivência e não necessariamente sabe, sozinha, o que os adultos esperam dela.
“Muitas vezes ela ultrapassa limites porque não os conhece, ninguém nunca os deu. Toda criança precisa de limites e deseja isso. Quando colocado da forma correta, isso é entendido como cuidado, atenção, carinho”, finaliza.

Criança dá trabalho, e tudo bem!
Crianças interrompem conversas, fazem perguntas, mudam os planos, testam limites e nem sempre aceitam um “não” de primeira. Para a pediatra Letícia Salles, esse desconforto faz parte da própria experiência de conviver com a infância. “Criança ‘dá trabalho’. Tira o adulto da zona de conforto. ‘Tumultua’ o ambiente. Mas é exatamente isso que relembra o adulto do que é a vida humana: trabalho, esforço, imprevistos, não se tem controle sobre tudo”, explica a pediatra.

Para ela, a dificuldade em lidar com pequenos desconfortos reflete uma sociedade cada vez mais imediatista. E reconhecer o lugar da infância também é reconhecer algo essencial sobre nós mesmos. “Não há humanidade sem infância. Esquecer-se disso é esquecer-se do que é, de fato, a humanidade”, conclui.

Fonte: O Tempo