Sarampo volta a preocupar nas Américas: entenda os riscos e a importância da vacinação

Durante décadas, o sarampo pareceu pertencer a um passado distante. Para quem viveu a infância há 30 ou 40 anos, porém, a doença ainda faz parte da memória de uma época em que era uma preocupação frequente entre famílias. A vacinação em massa mudou esse cenário e permitiu que o Brasil conquistasse novamente, em 2024, a certificação de eliminação do sarampo. Agora, a doença volta a chamar atenção nas Américas e coloca a vigilância epidemiológica em alerta.
Até 18 de julho deste ano, foram registrados 47.459 casos confirmados de sarampo em 16 países e um território das Américas, além de 44 mortes. O número já supera em mais de três vezes o total registrado em todo o ano de 2025. Guatemala, México, Estados Unidos e Peru concentram cerca de 95% das ocorrências. Diante do avanço, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) classificou como muito alto o risco à saúde pública na região.
Para o epidemiologista José Geraldo Leite Ribeiro, do Hermes Pardini, a principal característica do vírus ajuda a explicar a velocidade com que ele consegue avançar quando encontra pessoas desprotegidas. “O sarampo tem uma capacidade de transmissão impressionante e é isso que faz ele se propagar com muita facilidade. Se ele chega a um local onde existem pessoas não vacinadas, ele acaba contaminando também essas pessoas”, explica o médico.
O problema se torna ainda maior quando a cobertura vacinal de determinada população fica abaixo do necessário para impedir a circulação do vírus. A recomendação da Opas é alcançar pelo menos 95% de cobertura com duas doses da vacina para interromper a transmissão.
O Brasil, apesar de não apresentar atualmente transmissão sustentada da doença, está cercado por países onde o vírus voltou a circular. Isso significa que casos importados continuam sendo uma possibilidade. “Como nós temos vários países das Américas tendo muitos casos de sarampo, há sim o risco dele retornar entre nós”, preocupa-se Ribeiro.
Vacinação é proteção
Diante desse cenário, manter a vacinação em dia é a principal forma de impedir que um caso importado se transforme em um surto. No calendário de rotina, a vacina tríplice viral – que protege contra sarampo, caxumba e rubéola – começa a ser aplicada a partir de 1 ano de idade, com uma segunda dose aos 1 ano e 3 meses.
Segundo o epidemiologista, nas regiões brasileiras que não estão realizando ações específicas de bloqueio, pessoas com menos de 59 anos que não tenham comprovadas as duas doses devem procurar a imunização. “Nas demais regiões do país, todas as pessoas devem ter duas doses de vacina tríplice viral no seu cartão de vacina ou no sistema de informações do SUS”, ressalta.
Há, entretanto, situações específicas em que autoridades de saúde podem recomendar uma dose adicional. O epidemiologista cita municípios de São Paulo onde houve circulação do vírus e campanhas de bloqueio foram adotadas. Nesses casos, a recomendação pode alcançar pessoas a partir dos seis meses de idade, independentemente da situação vacinal anterior. Por isso, diante das mudanças provocadas por surtos localizados, a orientação é verificar a situação individual no cartão de vacinação ou no sistema do SUS e seguir as recomendações das autoridades de saúde da região.
Uma doença que afeta toda a comunidade
A proteção contra o sarampo não depende apenas da decisão individual de se vacinar. Quanto maior a quantidade de pessoas imunizadas, menor é a possibilidade de o vírus encontrar indivíduos suscetíveis e iniciar uma cadeia de transmissão. “Uma pessoa não vacinada, portanto, está em risco de pegar sarampo e pode inclusive transmitir a doença para seus familiares ou pessoas mais próximas”, diz.
É justamente por isso que a meta de 95% de cobertura não surgiu de maneira arbitrária. Ela é resultado da experiência epidemiológica acumulada ao longo dos anos: quando a cobertura fica abaixo desse patamar, aumenta a possibilidade de o vírus voltar a circular quando introduzido em uma comunidade.
A volta do sarampo às Américas funciona, portanto, como um lembrete de que doenças controladas pela vacinação podem retornar quando a proteção coletiva diminui. Para o Brasil, que recuperou recentemente o certificado de eliminação, o desafio agora é evitar que casos importados encontrem espaço para se transformar em transmissão sustentada.
Manter a vacinação em dia continua sendo a maneira mais simples – e mais eficaz – de impedir que uma doença que parecia coisa do passado volte a fazer parte da infância do presente.
Febre alta é um dos primeiros sinais
O sarampo começa de maneira semelhante a outras infecções, o que pode dificultar a identificação imediata. Entre os primeiros sintomas estão febre alta, tosse, coriza e conjuntivite. As manchas características da doença aparecem posteriormente.
“O sarampo se inicia com febre muito alta, tipo 39 graus, 39 e meio, e durante cerca de dois dias o que o paciente apresenta é isso, tosse alta, conjuntivite, muita coriza”, explica.
Depois dessa fase inicial, surge o chamado exantema, caracterizado pelas manchas avermelhadas na pele. Elas costumam aparecer primeiro na região da cabeça e do pescoço e avançam pelo corpo nos dias seguintes.
A orientação, entretanto, não é esperar pelo surgimento das manchas para procurar atendimento. Febre alta já é motivo para avaliação médica, principalmente porque outras doenças infecciosas também podem apresentar o sintoma.
Embora qualquer pessoa possa desenvolver complicações, alguns grupos exigem atenção especial. Crianças e pessoas com doenças crônicas estão entre aquelas com maior risco de agravamento, mas o epidemiologista ressalta que o sarampo não deve ser subestimado em nenhuma faixa etária.
Fonte: O Tempo

















