Por que o peso pode voltar? O que acontece com o apetite e o metabolismo após interromper os medicamentos para obesidade

Os medicamentos utilizados no tratamento da obesidade transformaram o manejo da doença nos últimos anos. Entre eles estão fármacos que atuam em vias hormonais envolvidas na regulação da fome e da saciedade, como o GLP-1 e, em algumas medicações, também o GIP. Eles aumentam a saciedade, reduzem a fome e a ingestão alimentar e atuam em circuitos cerebrais relacionados ao controle do apetite e da recompensa alimentar.
De acordo com Kamilla Brandão, endocrinologista do Hospital Orizonti, quando o tratamento é suspenso, esses efeitos progressivamente desaparecem. Ao mesmo tempo, permanecem adaptações biológicas provocadas pelo próprio emagrecimento, que tendem a favorecer a recuperação do peso.
“É fundamental compreender que a obesidade é uma doença crônica, complexa e com tendência à recorrência. Depois que uma pessoa emagrece, alterações nos sinais de fome e saciedade e no gasto energético podem favorecer o retorno ao maior peso atingido previamente. Por isso, o reganho após a suspensão de uma medicação não deve ser interpretado simplesmente como falta de disciplina ou força de vontade”, explica a especialista.
Além do aumento da fome e da redução da saciedade, podem voltar os desejos alimentares e o chamado food noise, que são pensamentos frequentes ou persistentes relacionados à comida. O organismo também reduz o gasto energético como uma adaptação à perda de peso. Se houver reganho, benefícios obtidos sobre glicemia, pressão arterial, colesterol e outros parâmetros metabólicos podem ser parcialmente perdidos.
Suspender ou manter o tratamento?
Uma das principais mudanças na compreensão da obesidade é reconhecer que o objetivo do tratamento não é apenas emagrecer, mas manter o peso perdido e os benefícios metabólicos alcançados. Por se tratar de uma doença crônica, para alguns pacientes a farmacoterapia pode ser necessária por longo prazo, desde que permaneça indicada, eficaz, segura e bem tolerada.
“Não devemos partir da premissa de que todo paciente precisa suspender a medicação depois de atingir determinado peso. A decisão de manter, ajustar ou interromper o tratamento deve ser individualizada, considerando a resposta obtida, os efeitos adversos, as condições de saúde, as preferências do paciente e o risco de reganho”, destaca a médica.
Quando a suspensão é necessária ou desejada, ela deve fazer parte de um planejamento de manutenção. Alimentação adequada, atividade física, especialmente exercícios de força para preservação da massa muscular, sono, manejo dos fatores comportamentais e acompanhamento médico ajudam a preservar os resultados, embora nenhuma estratégia elimine completamente o risco de reganho.
O que mostram os estudos?
Os estudos clínicos reforçam essa tendência. Em uma extensão do estudo STEP 1, publicado no New England Journal of Medicine e que provou a eficácia da semaglutida, pessoas tratadas com semaglutida recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso que haviam perdido um ano após a suspensão. No estudo SURMOUNT-4, publicado no Journal of the American Medical Association e que avaliou a eficácia e a segurança da tirzepatida, participantes que interromperam a tirzepatida apresentaram reganho significativo, enquanto aqueles que permaneceram em tratamento mantiveram e ampliaram a perda de peso.
Segundo a médica, isso não significa que todas as pessoas recuperarão todo o peso perdido, mas demonstra que existe uma forte resposta biológica favorecendo o reganho.
“A mensagem mais importante é que o reganho de peso não deve ser encarado como fracasso do paciente ou do tratamento. A obesidade é uma doença crônica e recorrente, e a manutenção faz parte do tratamento. Em alguns casos, será possível retirar a medicação e manter bons resultados; em outros, a farmacoterapia de longo prazo será a melhor estratégia. O importante é que essa decisão seja planejada e acompanhada, e não baseada na ideia de que, depois de emagrecer, basta ter força de vontade para permanecer naquele peso”, finaliza a endocrinologista do Hospital Orizonti.
Sobre o Hospital Orizonti
O Hospital Orizonti faz parte do Grupo Orizonti, fundado pelos médicos Amândio Soares Fernandes Júnior e Roberto Porto Fonseca – tendo como sócios os doutores Ernane Bronzatti e Marcelo Guimarães, conta com mais de 250 leitos, centro cirúrgico completo, além de centro de medicina nuclear e de diagnóstico por imagem, centro de transplante de medula óssea (TMO) e radioterapia. São mais de 55 especialidades disponíveis, entre elas neurologia, oncologia, ortopedia e cardiologia. O edifício bioclimático possui jardins internos e um dos maiores telhados verdes da América Latina – mais de 7 mil metros quadrados. Cercado pelas montanhas da Serra do Curral, integrado ao meio ambiente, tem vista panorâmica para Belo Horizonte (MG).

















