• loja.muzambinho.com
  • muzambinho.com.br

Minas Gerais tem 637 mil eleitores analfabetos, segundo dados do TSE

Redação7 de setembro de 20268min0
eleicao_sp_02
Estado concentra 11,6% dos eleitores analfabetos do país e lidera ranking nacional em números absolutos

Minas Gerais chega às eleições de 2026 com 637.785 eleitores registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com grau de instrução “analfabeto”. O número representa 3,89% dos 16,3 milhões de eleitores mineiros e coloca o estado na liderança nacional, à frente da Bahia e de São Paulo.

Os dados fazem parte de um levantamento realizado pela equipe de dados do jornal O TEMPO. Embora Minas Gerais reúna 10,3% do eleitorado brasileiro, o estado concentra 11,6% dos eleitores analfabetos do país.

A diferença também aparece no recorte regional. No Sudeste, Minas responde por 24,7% do eleitorado, mas reúne 41,3% dos eleitores analfabetos da região.

Informação chega por diferentes caminhos

Para quem não sabe ler ou escrever, o acesso às informações sobre candidatos e propostas pode ocorrer por meios diferentes dos tradicionais materiais impressos. Televisão, vídeos, áudios no celular e conversas com familiares, amigos e pessoas de confiança estão entre as formas utilizadas por parte desse eleitorado.

Aos 30 anos, o mecânico de motos Marcus Vinícius Rodrigues de Barros, morador da comunidade rural de Chaves, em Itambacuri, no Vale do Mucuri, é um dos eleitores nessa situação. Ele não sabe ler nem escrever, mas aprendeu sozinho a profissão e mantém uma oficina.

Na hora de escolher os candidatos, Marcus combina as informações que recebe pelo celular com a opinião de pessoas em quem confia.

“Eu vou muito pelo povo, né? O povo falar que é bom, eu apoio. ‘Aquele fulano é bom, tem que votar nele.’ Então vamos embora.”

O celular também trouxe mais autonomia. Quando recebe uma mensagem escrita, pede que a pessoa envie um áudio. Vídeos de candidatos ajudam a conhecer as propostas e os nomes que estarão na disputa.

“Pelo celular também vejo falar. Aí eu pego pelo que a pessoa falou e pelas campanhas que eu vejo pelo celular.”

Embora não consiga ler, Marcus sabe fazer contas, lidar com dinheiro e memorizar números. Para votar, utiliza os santinhos como referência.

“Eu pego os santinhos de cada e voto lá certinho.”

Televisão e memória ajudam na escolha

Aos 72 anos, Virgínia do Amaral de Paula, moradora do Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte, também não sabe ler. Ela afirma, porém, que a dificuldade não impede sua participação política nem significa que outras pessoas escolham por ela.

Sua principal fonte de informação é a televisão.

“No jornal ensina muita coisa, né? No jornal fala tudo.”

Virgínia frequentou a escola aproximadamente dos 7 aos 11 anos, mas deixou os estudos para cuidar dos irmãos enquanto a mãe trabalhava. Ao longo da vida, trabalhou principalmente com limpeza e em casas de família.

Na política, diz confiar na própria avaliação sobre o desempenho dos candidatos e na memória.

“A gente analisa o que ele está fazendo.”

Ela também conta que o WhatsApp trouxe mais independência ao permitir o recebimento de áudios. No dia a dia, entretanto, ainda enfrenta dificuldades para circular sozinha por lugares desconhecidos, identificar nomes de ruas e reconhecer medicamentos.

Analfabetismo não significa incapacidade política

Segundo a cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, recorrer a pessoas de confiança para obter informações não é uma característica exclusiva de quem não sabe ler.

“Não são só os eleitores com dificuldade de acesso à informação escrita que dão importância à mediação de familiares e lideranças locais. Eles são atalhos cognitivos usados por todos os cidadãos.”

A especialista ressalta que o analfabetismo cria barreiras para acessar e organizar informações, mas não significa incapacidade de participar da vida política ou de definir o próprio voto.

“A gente também não pode ser preconceituoso com esse cidadão, achando que ele é menos capaz de definir seu voto.”

Quem é considerado analfabeto?

De acordo com o IBGE, é considerada analfabeta a pessoa que declara não saber ler e escrever um bilhete simples no idioma que conhece. Quem aprendeu, mas esqueceu, ou apenas assina o próprio nome também se enquadra nessa definição.

Os 637.785 eleitores citados no levantamento são aqueles que aparecem no cadastro do TSE com grau de instrução “analfabeto”. O registro não significa necessariamente que a pessoa não consiga realizar outras atividades, como fazer contas, trabalhar ou memorizar informações.

Voto é facultativo para pessoas analfabetas

A Constituição Federal estabelece que o alistamento eleitoral e o voto são facultativos para pessoas analfabetas. A mesma regra vale para jovens de 16 e 17 anos e para maiores de 70 anos.

Isso, no entanto, não significa que esse eleitorado seja excluído das pesquisas de intenção de voto. Segundo Audrey Dias, cientista política e coordenadora de Pesquisa do DATATEMPO, os eleitores analfabetos que possuem título fazem parte do universo pesquisado.

“Os eleitores analfabetos não são excluídos e são representados na categoria de escolaridade correspondente, de acordo com a proporção existente no eleitorado.”

Virgínia reúne duas condições de voto facultativo: é analfabeta e tem mais de 70 anos. Mesmo assim, afirma que pretende continuar participando das eleições.

“Eu posso ficar com 90. Se eu for até lá, posso estar com 90 que eu quero votar. Isso aí eu não vou perder nunca.”

Fonte: O TEMPO, com informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do IBGE.

  • Muzambinho.com

Deixe um Comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios estão marcados com *