Setembro Amarelo: suicídio entre idosos é mais que o dobro registrado entre jovens no Brasil

Esta reportagem contém conteúdo sensível que pode ativar gatilhos relacionados a tópicos como saúde mental e suicídio. Se você precisa de ajuda, ligue para o número 188, do Centro de Valorização da Vida (CVV), e busque apoio psicológico o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito.
O avanço da idade está associado a uma série de transformações na vida de uma pessoa. Aposentadoria, perda de familiares e amigos, mudanças na rotina, redução da autonomia e o surgimento ou agravamento de doenças podem alterar profundamente a maneira como o idoso se relaciona consigo mesmo e com o mundo.
Em meio a essas mudanças, um problema ainda pouco discutido ganha dimensão preocupante: o suicídio na velhice. Você sabia que os idosos são o grupo que mais tira a própria vida no Brasil?
Os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde, reunidos em 2021, mostram que a taxa de suicídio entre pessoas com 70 anos ou mais chegou a 16 mortes a cada 100 mil habitantes no Brasil.
O índice é o maior entre as faixas etárias analisadas e representa mais que o dobro da taxa observada entre pessoas de 15 a 29 anos, que registrou um índice de 7,3 por 100 mil.
A segunda maior taxa de suicídios também está entre os mais velhos. Entre os brasileiros de 50 a 69 anos, os dados apontam que, a cada 100 mil habitantes, 10,8 tenham tirado a própria vida. Logo em seguida estão aqueles de 30 a 49 anos, com um índice de 8,8.
Como explicar o fenômeno?
A reportagem da Itatiaia entrevistou a psicóloga Nathalya Aparecida, doutora em Psicologia, Cognição e Comportamento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Gerontologia pela PUC Minas.
Para a profissional, o envelhecimento não deve ser encarado, por si só, como uma condição que necessariamente provoca sofrimento mental. O que pode aumentar a vulnerabilidade é a combinação de diferentes perdas e acontecimentos que podem se acumular ao longo dessa etapa da vida.
“Durante o processo de envelhecimento, nós vamos passando por diversas perdas, por diversos eventos estressores e, na velhice em específico, a vivência de perdas pode se intensificar”, explica.
Entre essas perdas também estão mudanças nos papéis sociais. A aposentadoria, por exemplo, pode significar muito mais do que o afastamento do mercado de trabalho. Para algumas pessoas, representa a interrupção de uma função que durante décadas esteve relacionada à identidade, à rotina e ao sentimento de pertencimento.
“A pessoa acaba perdendo um papel ali que era muito importante para ela”, afirma a especialista.
Quando as perdas se acumulam
A velhice pode ser marcada por uma sequência de mudanças, e a perda de pessoas próximas é uma delas. Ao longo dos anos, o idoso pode vivenciar a morte de companheiros, irmãos, amigos e outras pessoas que fizeram parte de sua trajetória.
Nathalya chama atenção para o impacto do que define como luto repetido. Quando diferentes perdas acontecem em um período da vida em que outras mudanças também estão ocorrendo, a capacidade de lidar com novos acontecimentos pode ser afetada.
Além das perdas sociais, existem aquelas relacionadas ao próprio funcionamento do corpo. Doenças crônicas, dores e limitações físicas podem reduzir a capacidade de realizar atividades que antes faziam parte da rotina.
“Não conseguir fazer coisas que conseguia fazer anteriormente, tudo isso pode intensificar o sofrimento e prejudicar que a pessoa idosa consiga lidar com novas perdas, com novos eventos estressores de uma maneira mais saudável”, explica.
A questão da autonomia é especialmente importante. Uma pessoa que durante toda a vida foi independente pode passar a precisar de ajuda para atividades cotidianas.
Essa mudança, embora possa ser necessária em determinados momentos, também pode afetar a percepção que o idoso tem sobre sua própria capacidade. É nesse contexto que podem surgir pensamentos relacionados à perda de sentido ou ao sentimento de ser um peso para outras pessoas.
“Eu não tenho mais o que fazer”, “eu sou um peso para a minha família” e “a minha vida perdeu sentido” são exemplos de pensamentos que, segundo a psicóloga, podem estar associados a uma maior vulnerabilidade ao sofrimento psíquico, principalmente quando não existe uma rede de apoio.
Solidão não deve ser tratada como algo normal
Um dos riscos apontados pela especialista, no contexto da alta taxa de suicídios entre a terceira idade, é a naturalização do sofrimento na velhice. Por ser comum que idosos passem por determinadas perdas, existe o risco de que familiares e até profissionais de saúde interpretem tristeza e isolamento como consequências inevitáveis da idade.
“A gente não diria que é normal ter solidão em nenhuma outra faixa etária, porque deveria ser normal no envelhecimento? Ser comum é diferente de ser normal”, afirma Nathalya.
Segundo ela, o processo de envelhecimento é multidirecional e multidimensional. Isso significa que não existe uma única maneira de envelhecer e que experiências diferentes podem produzir consequências distintas para cada pessoa. Por isso, estar na velhice não significa necessariamente estar deprimido, solitário ou sem perspectivas.
“A velhice em si, ela não necessariamente aumenta a vulnerabilidade das pessoas em relação ao sofrimento psíquico, ao sofrimento mental”, explica.
Etarismo pode tornar o idoso invisível
Outro elemento citado pela especialista é o etarismo, nome dado à discriminação baseada na idade. Nathalya afirma que existe um preconceito significativo contra pessoas idosas e que isso pode contribuir para o enfraquecimento da saúde mental. “São pessoas que às vezes pela nossa sociedade elas ficam um pouco invisíveis”, diz.
A invisibilidade pode aparecer de diferentes maneiras: quando as opiniões do idoso são desconsideradas, quando ele deixa de participar das decisões que envolvem sua própria vida ou quando comportamentos e sentimentos são tratados como irrelevantes simplesmente porque a pessoa envelheceu. Esse processo também pode acontecer dentro da própria família, inclusive de forma não intencional.
A especialista alerta para a necessidade de evitar a infantilização do idoso e chama atenção para o que define como “dependência aprendida”. Quando uma pessoa ainda consegue realizar determinada atividade, retirar dela essa possibilidade pode acabar prejudicando sua funcionalidade e seu senso de capacidade.
“É importante deixar a pessoa idosa continuar fazendo o que ainda está preservado. Isso favorece a funcionalidade e também promove um senso de capacidade”, afirma.
Sofrimento do idoso precisa ser ouvido
Um dos desafios da prevenção ao suicídio na terceira idade está justamente em reconhecer quando uma mudança de comportamento representa sofrimento psíquico. Desânimo, afastamento das atividades, perda de interesse, mudanças importantes na rotina e falas relacionadas à falta de sentido não devem ser automaticamente atribuídos ao envelhecimento.
A psicóloga ressalta que queixas apresentadas pela pessoa idosa precisam ser levadas a sério.“É essencial não minimizar, culpabilizar ou ridicularizar”, afirma.
Isso vale também para manifestações que possam parecer exageradas ou repetitivas para familiares e cuidadores. A escuta é uma parte importante do cuidado. Para a especialista, naturalizar o sofrimento pode fazer com que a busca por ajuda seja adiada justamente quando ela se faz mais necessária.
Como ajudar um idoso com sinais depressivos?
Para a especialista, a prevenção do suicídio não deve começar apenas quando existe uma situação de risco. Ela precisa fazer parte da construção de uma vida com vínculos, atividades e sentido.
Um dos pontos destacados é o fortalecimento das relações sociais. Ter contato com outras pessoas, participar da comunidade e preservar vínculos afetivos pode funcionar como um elemento de proteção para a saúde mental. A psicóloga também recomenda incentivar hobbies, atividades prazerosas e ocupações que tenham significado para cada pessoa.
Ela chama atenção, ainda, para a possibilidade de descobrir novos interesses durante a velhice. A aposentadoria ou outras mudanças não precisam representar o fim da participação social ou da realização de projetos. “Quase sempre é muito cedo para ser tarde demais”, resume.
A frase representa, segundo ela, a importância de estimular, quando existe abertura, a retomada de sonhos e desejos e o envolvimento em novas atividades. A ideia não é obrigar o idoso a estar constantemente ocupado, mas ajudá-lo a construir uma rotina que tenha significado e que preserve sua autonomia, seus interesses e seus vínculos.
Tratamento também é prevenção
Outro ponto fundamental é o tratamento de doenças e transtornos existentes. Problemas de saúde física e mental precisam ser acompanhados, principalmente quando interferem na qualidade de vida ou na capacidade funcional.
O cuidado pode envolver diferentes profissionais, de acordo com as necessidades de cada pessoa. Em situações de risco, Nathalya recomenda um acompanhamento multidisciplinar.
Ela também destaca a importância de conversar abertamente sobre o assunto. Perguntar diretamente sobre pensamentos relacionados à morte ou ao suicídio não deve ser encarado como algo que necessariamente irá estimular o comportamento.
Ao contrário, uma conversa cuidadosa pode facilitar que a pessoa expresse aquilo que está vivendo e permitir que familiares e profissionais identifiquem uma situação de risco. Quando existe risco, a especialista também recomenda restringir o acesso a meios potencialmente letais como uma das medidas de segurança, além da busca por atendimento especializado.
Para Nathalya, os números reforçam a necessidade de incluir a população idosa nas estratégias de prevenção. “Realmente a gente não pode olhar para essa campanha do Setembro Amarelo pensando só no público adulto, adolescentes, mas também enxergar a população idosa”, afirma.
A prevenção, nesse sentido, não depende apenas de identificar uma crise. Ela começa na maneira como a sociedade enxerga o envelhecimento. É importante que familiares e cuidadores estejam atentos a mudanças significativas e procurem ajuda profissional quando perceberem que o sofrimento ultrapassa aquilo que pode ser enfrentado apenas com apoio cotidiano.
Setembro Amarelo: peça ajuda
O Setembro Amarelo é uma campanha nacional de conscientização sobre a prevenção do suicídio e a valorização da vida. Não hesite em pedir ajuda, você pode precisar de alguém que te acompanhe e te auxilie a entrar em contato com os serviços de suporte.
Como buscar ajuda?
- Centro de Valorização da Vida (CVV): número 188, a ligação é gratuita.
- Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde (UBS), do Sistema Único de Saúde (SUS).
- Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em caso de emergências: número 194, a ligação é gratuita.
Fonte: Itatiaia

















