Interromper o uso do Ozempic pode elevar o risco de infarto e AVC, aponta estudo

Interromper o uso de medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro pode elevar significativamente o risco de infarto, AVC e morte. A conclusão é de um estudo publicado no periódico neste ano no BMJ Medicine.
A pesquisa apontou que após dois anos sem o tratamento, pacientes com diabetes tipo 2 apresentaram risco até 22% maior de eventos cardiovasculares graves em comparação àqueles que mantiveram o uso contínuo de medicamentos GLP-1.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, e acompanhou mais de 333 mil veteranos norte-americanos com diabetes tipo 2 ao longo de três anos. Os resultados indicam que os benefícios cardiovasculares acumulados durante o tratamento podem desaparecer rapidamente após a interrupção do uso da medicação.
Medicamentos GLP-1, classe que inclui a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro e Zepbound) já tinham reconhecimento científico pelos efeitos protetores no coração. O novo estudo, porém, revela que essa proteção não se mantém quando o tratamento é interrompido.
Como o estudo foi feito?
O grupo de controle foi composto por 201.136 pacientes em uso de sulfonilureias, outra classe de medicamentos para diabetes. Os participantes foram acompanhados em reavaliações a cada seis meses. Durante o período do estudo, 26% dos usuários de GLP-1 abandonaram o tratamento completamente, e outros 23% tiveram pausas de pelo menos seis meses antes de retomar o uso.
Os pesquisadores identificaram uma relação direta entre a duração do uso contínuo e o grau de proteção cardiovascular. Entre os 132.551 pacientes que mantiveram o tratamento com GLP-1 durante os três anos completos, o risco de eventos cardiovasculares graves foi 18% menor do que entre os usuários de sulfonilureias. Essa diferença equivale a aproximadamente quatro eventos graves a menos para cada 100 pacientes ao longo de três anos.
Pacientes que ficaram dois anos e meio em tratamento antes de parar obtiveram redução de risco de 15%. Os que permaneceram por dois anos antes de interromper registraram redução de 7%. Já aqueles que abandonaram o medicamento antes de completar 18 meses não apresentaram redução significativa no risco ao fim do estudo, em comparação com o grupo que usou sulfonilureias.
A perda de proteção foi progressiva conforme o tempo sem o medicamento aumentava. Um ano sem retomar o tratamento foi suficiente para elevar o risco cardiovascular em 14% em relação ao uso contínuo. Após dois anos de interrupção, esse aumento chegou a 22%.
Pausas temporárias também prejudicaram a proteção, mesmo quando o tratamento foi retomado posteriormente. Quem usou GLP-1 de forma contínua por três anos teve redução de risco de 18%, enquanto quem interrompeu e depois retomou obteve redução média de 12%. Uma interrupção de seis meses, ainda que seguida de reinício, foi associada a um aumento de 4% a 8% no risco cardiovascular em relação ao uso ininterrupto.
“Há um enorme entusiasmo em começar a usar os medicamentos GLP-1, mas não há atenção suficiente ao que acontece quando as pessoas param”, afirmou o pesquisador sênior Ziyad Al-Aly, médico e epidemiologista clínico da Universidade Washington, em comunicado. “Muitos abandonam após alguns meses por causa do custo, dos efeitos colaterais ou de desabastecimentos. Quando param, não é só o peso que volta, eles experimentam um ressurgimento da inflamação, da pressão arterial e do colesterol. O reganho de peso é visível, a reversão metabólica, não”, acrescentou o médico, que também é chefe do Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento do VA Saint Louis Health Care System.
Al-Aly descreveu o fenômeno como uma espécie de chicotada metabólica com consequências duradouras. “Nossos dados sugerem que esse efeito chicote metabólico é prejudicial à saúde do coração”, explicou. “Retomar o medicamento ajudou a restaurar parte da proteção, mas apenas parcialmente, mostrando que a interrupção deixa uma cicatriz duradoura”.
O pesquisador defendeu que médicos e sistemas de saúde tratem a adesão contínua ao tratamento com GLP-1 como uma prioridade clínica. “Os sistemas de saúde precisam de planos para ajudar as pessoas a continuar o medicamento indefinidamente, reconhecendo que os GLP-1 tratam condições crônicas. Isso inclui o manejo proativo dos efeitos colaterais, conversas francas sobre a natureza de longo prazo do tratamento, infraestrutura para identificar e apoiar pacientes em risco de abandonar e o enfrentamento das barreiras de custo que tornam a terapia com GLP-1 insustentável para muitos”, concluiu.
Fonte: O Tempo


















