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A empresa fecha, mas a vida continua: especialistas alertam para impactos da crise na saúde mental

Redação22 de setembro de 20268min0
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No Setembro Amarelo, psicóloga e professor destacam a importância de reconhecer sinais de sofrimento emocional diante de um insucesso nos negócios

Quando uma empresa fecha as portas, o impacto vai além das finanças. Para o empreendedor, pode significar o fim de um projeto de vida e de vínculos pessoais. Dívidas, frustração e o medo do fracasso podem desencadear sentimentos como tristeza, vergonha e ansiedade, tornando a crise profissional um desafio para a saúde mental.

No Setembro Amarelo, campanha nacional de conscientização sobre a prevenção ao suicídio e a valorização da vida, especialistas alertam para a importância de reconhecer esse sofrimento e buscar ajuda antes que o colapso financeiro alcance dimensões perigosas e se transforme em algo irreversível.

A psicóloga, professora e consultora em saúde mental no trabalho e desenvolvimento organizacional, Soraia Pena, pondera que o comportamento suicida envolve múltiplos fatores e uma crise financeira precisa ser compreendida dentro da história e das condições de vida de cada pessoa. Acolher o sofrimento e observar sua intensidade e os efeitos na rotina ajudam a identificar quando ele deixa de ser pontual e pode indicar um problema mais sério.

Soraia Pena afirma que o desgaste emocional diante da falência exige atenção quando começa a afetar a rotina. Entre os sinais estão alterações importantes no sono e na alimentação, perda de interesse por atividades, dificuldade para cuidar de si ou tomar decisões, além de sentimentos de desvalorização e desesperança. “Pensamentos de morte ou de se machucar exigem atenção imediata, independentemente de há quanto tempo a crise começou”, alerta.

“Uma distinção que considero fundamental é perceber quando ‘meu negócio não deu certo’ começa a se transformar em ‘eu não tenho valor’. O resultado de uma empresa não pode se tornar a medida de toda uma existência”, completa Soraia.

O envolvimento com o negócio, muitas vezes, é uma jornada solitária, que pode afetar a qualidade de vida, os relacionamentos e até mesmo a capacidade de tomar decisões, como afirma o professor de gestão e administração do Centro Universitário Arnaldo Janssen, em Belo Horizonte, Eduardo Bonfim Machado.

“Assim como no processo de burnout, normalmente acometido por profissionais contratados, os empresários estressados também passam pelos mesmos mecanismos e sintomas, com o agravante da responsabilidade sobre seus negócios, sua imagem, sua família e sobre as famílias de seus funcionários”, enfatiza Bonfim.

Segundo Soraia Pena, há medidas preventivas, do ponto de vista emocional, que podem diminuir o impacto psicológico após um insucesso de gestão. Ela recomenda cultivar relações, interesses e projetos pessoais que façam sentido para além da vida profissional. A ideia é não deixar que a identidade fique restrita ao trabalho e criar outros espaços de realização, independentemente dos rumos da empresa.

“Também considero essencial ter com quem dividir dúvidas e decisões. Isso inclui pessoas de confiança, apoio psicológico quando necessário e orientação técnica para lidar com as dificuldades do negócio. A proposta é criar condições para que o empreendedor consiga falar sobre limites antes de chegar à exaustão”, salienta.

Sinais ligam alerta

De acordo com a psicóloga Soraia Pena, alguns sinais indicam que o empreendedor está emocionalmente entrando em uma situação de risco após uma crise financeira ou o fechamento da empresa.

Soraia destaca que é preciso observar mudanças em relação ao comportamento habitual: isolamento crescente, aumento do consumo de álcool ou outras drogas, alterações acentuadas no sono, agitação e sentimentos intensos de culpa ou vergonha.

A especialista também sublinha que merecem atenção especial as falas de desesperança, a sensação de ser um peso para a família, comentários sobre morrer, despedidas incomuns e a distribuição de objetos pessoais importantes. Esses sinais, ela alerta, exigem avaliação, sobretudo quando são novos ou estão se intensificando.

“Nenhum sinal isolado permite concluir um diagnóstico, e a ausência de manifestações evidentes não garante segurança. Por isso, recomendo uma aproximação respeitosa, com escuta e sem julgamentos. Diante de uma preocupação concreta, é possível perguntar diretamente: ‘Você tem pensado em tirar a própria vida?’. Perguntar de forma acolhedora não aumenta os pensamentos suicidas e pode abrir espaço para a pessoa revelar o sofrimento e receber ajuda”, afirma.

Aprendizados no recomeço

O professor Eduardo Bonfim Machado destaca que, após o encerramento de um negócio de forma planejada ou traumática, o empreendedor deve refletir sobre os aprendizados adquiridos ao longo da experiência. Esse conhecimento, segundo ele, não deve ser desprezado. Entender tanto o que fazer diante de situações de risco e o que evitar será fundamental para recomeçar.

“Começar de novo nunca deve significar ‘começar do zero’. Há de se considerar as competências, as habilidades, a network e os limites pessoais reconhecidos. Isso tudo contribui para que outros mercados ou o mesmo mercado seja atendido de forma mais consistente e robusta”, avalia Bonfim Machado.

Após o fechamento de um negócio, Soraia Pena alerta que a pressão por um recomeço imediato pode ser prejudicial: “Quem perdeu uma empresa pode precisar de tempo para elaborar o que aconteceu e reorganizar a vida. Transformar rapidamente a perda em uma história de superação não deve ser mais uma exigência”.

Centro de Valorização da Vida

Se você estiver passando por um momento difícil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e voip 24 horas todos os dias.

A ligação para o CVV em parceria com o SUS, por meio do número 188, é gratuita a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular. Também é possível acessar www.cvv.org.br para chat, Skype, e-mail e mais informações sobre ligação gratuita.

Fonte: O Tempo

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