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Dia Mundial do Coração: pressão alta resistente atinge 11,7% dos hipertensos no Brasil

Redação29 de setembro de 202612min0
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Pressão que continua alta mesmo com remédios eleva em cerca de 50% o risco de AVC, infarto e doença renal, alerta entidade

Nesta terça-feira (29) é celebrado o Dia Mundial do Coração. A data, criada pela Federação Mundial do Coração, busca chamar atenção para as doenças cardiovasculares, responsáveis por cerca de uma em cada três mortes no mundo. E uma das ameaças à saúde cardiovascular costuma passar despercebida: a pressão alta que não cede nem com tratamento, chamada de “hipertensão arterial resistente” (HAR).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,4 bilhão de adultos de 30 a 79 anos viviam com hipertensão em 2024, mas apenas 23% mantinham a pressão sob controle. Outros 44% nem sabiam que tinham a doença. No Brasil, o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), levantamento do Ministério da Saúde feito nas capitais e no Distrito Federal, registrou que 29,7% dos adultos relataram diagnóstico médico de hipertensão em 2024. Em 2006, eram 22,6%.

Dentro desse universo, existe o grupo que sofre de HAR e, de acordo com especialistas, terá pressão acima da meta mesmo com uso de anti-hipertensivos nas doses máximas que o organismo tolera ou atingirá a meta com quatro ou mais medicamentos. No país, o estudo “Resistant Hypertension Optimal Treatment” (“Tratamento ideal da hipertensão resistente”, em tradução livre, ou ReHOT) estimou que a condição atinge 11,7% dos hipertensos. Segundo a Rede Brasil AVC, a condição eleva em cerca de 50% o risco de acidente vascular cerebral (AVC), infarto, insuficiência cardíaca e doença renal.

Como se chega ao diagnóstico

A confirmação passa por um critério objetivo: a combinação de três classes de remédios, com diurético incluído, sem levar a pressão para baixo de 140/90 mmHg (popularmente referida como “14 por 9”). A partir dessa suspeita, o cardiologista Anis Mitri, presidente da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (Ahosp), explica que o médico passa a buscar uma causa por trás do quadro.

“Quando tem essa suspeita diagnóstica, aí o médico tem que pedir alguns outros exames do paciente para investigar algumas outras causas de hipertensão, que podem ser causas secundárias. Hipertensão primária é uma doença genética. A pessoa vai ter essa condição independentemente do fator de vida dela. Agora, a hipertensão pode ser secundária a alguma outra doença. E aí, para fazer essa investigação, você tem que pedir exames que avaliam hormônios, artérias e rins”, afirma.

Entretanto, nem toda pressão alta persistente é resistente. Segundo a neurologista Sheila Martins, presidente da Rede Brasil AVC, o médico precisa antes descartar explicações mais comuns, como erro na medição, aumento da pressão na consulta por ansiedade ou nervosismo (chamado de “efeito do avental branco”), uso irregular dos remédios, hábitos de vida, substâncias que elevam a pressão e doenças que causam hipertensão secundária.

Ainda assim, a especialista defende que a pressão elevada, apesar do tratamento, nunca seja tratada como fatalidade. “Quando uma pessoa está fazendo o tratamento e a pressão permanece elevada, não devemos simplesmente aceitar que ‘a pressão dela é alta mesmo’. É preciso investigar por que isso está acontecendo, confirmar se realmente existe hipertensão resistente, procurar possíveis causas e definir a melhor estratégia para conseguir o controle”, afirma Sheila.

Idade e obesidade estão entre os fatores que mais contribuem para a condição. “Pessoas negras também têm maior tendência a ter hipertensão refratária ou resistente”, diz Mitri. Entre as causas secundárias mais comuns, o cardiologista cita as vasculares, as hormonais e as renais.

Meta de pressão pode variar

A meta muda conforme o perfil do paciente. “Para pessoas que têm esse tipo de hipertensão, a meta de alcançar com o tratamento é 13 por 9 (130/90 mmHg). Pessoas com mais idade, idosos, acima de 60 anos, a gente tolera até 14 por 9. É um pouco acima, porque se baixa muito também pode dar mal-estar nesses idosos. E para diabéticos também a meta é abaixo de 13 por 9”, explica Mitri.

Casos que resistem à combinação de três classes de remédios, incluindo um diurético, são raros, segundo o cardiologista, e costumam responder ao ataque das causas de base. “Geralmente quando você tem uma hipertensão resistente, ela consegue responder bem quando você acrescenta outras classes de remédio, outros tipos de medicação. Além disso, é possível ter uma boa resposta no combate aos fatores de risco – por exemplo, no caso da obesidade, se a pessoa emagrece”, diz.

Em último caso, Mitri cita como alternativa a denervação renal simpática, procedimento minimamente invasivo feito por cateterismo. “É um cateter introduzido na artéria do rim que faz uma ablação. É uma forma de queimar o nervo simpático daquela região, que é um dos causadores do aumento da pressão. E aí o efeito colateral é começar também a ter muitos episódios de hipotensão, por isso você não faz isso com frequência”, explica.

Diagnóstico tardio é o maior risco

Entre o atraso no diagnóstico e a falta de rigor no tratamento, Mitri aponta o primeiro como o mais perigoso, porque a hipertensão raramente avisa. “O atraso no diagnóstico é mais arriscado, porque quando o paciente não tem rigor no tratamento, mesmo assim ele tem tratamento de alguma forma e geralmente tem acompanhamento. Já o paciente que não tem o diagnóstico geralmente é assintomático, não sente nada”, relata o cardiologista.

“Sentir-se bem não significa que a pressão esteja bem. Por isso, medir a pressão regularmente é fundamental”, diz Sheila Martins. “Quanto mais cedo conseguirmos controlar a pressão, maior será a nossa oportunidade de prevenir AVC, infarto, doença renal e outras complicações graves”, completa Sheila.

A falta de diagnóstico e a pressão alta sem tratamento, podem, inclusive, gerar outras consequências. “A pressão alta não é uma doença que dá sintomas. E aí quando o paciente vier a descobrir a condição, pode ser através de alguns problemas mais sérios que a hipertensão pode ter ocasionado”, explica Mitri.

“A pressão muito alta atinge as paredes do coração, deixando o músculo mais grosso – a essa condição damos o nome de ‘hipertrofia cardíaca’. E essa hipertrofia dá um problema maior de contratividade do coração, que passa a bater com mais dificuldade e pode gerar insuficiência cardíaca. Nesse caso, a pessoa, por qualquer esforço físico, fica cansada”, detalha o cardiologista.

O especialista ainda alerta que há sinais que não devem esperar a próxima consulta. “Deve procurar o setor de emergência e urgência quando a pressão sobe acima de 18 por 12 ou em casos em que essa hipertensão é acompanhada de dores no peito, falta de ar, confusão mental e em alguns casos até uma forte dor de cabeça e perda de consciência”, orienta o cardiologista.

Como medir e controlar a pressão arterial

Além do acompanhamento médico regular, o controle passa por uma alimentação equilibrada com menos sal, atividade física, peso adequado, abandono do cigarro e moderação no álcool. Quem já tem diagnóstico não deve suspender nem alterar os remédios por conta própria, mesmo com a pressão normalizada ou sem sintomas, porque ela pode voltar a subir sem aviso. E quem segue o tratamento à risca e continua com números altos deve procurar reavaliação médica.

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o caminho começa na atenção básica. “Em casos em que a pressão é refratária ou o paciente tem outras doenças mais graves junto da hipertensão, é feito o encaminhamento para o especialista por um médico generalista. O SUS tem tudo à disposição e de maneira muito integrada”, diz Mitri.

Em casa, a medição correta evita resultados distorcidos. “A partir do momento em que você escolher um aparelho adequado e validado pelo Inmetro, você tem que deixar o aparelho na altura do peito. E aí você medir essa pressão num ambiente silencioso, sem ter tomado cafeína antes e sem poder conversar também ou fazer movimentos bruscos enquanto a média é pressão – um dos maiores erros da pessoa é medir conversando”, recomenda o cardiologista.

“A mensagem para a população é simples: meça sua pressão regularmente, conheça seus números, procure orientação médica quando eles estiverem elevados e, se já estiver em tratamento, siga as recomendações e mantenha o acompanhamento. Mesmo sem sintomas, a hipertensão precisa ser levada a sério”, conclui a neurologista Sheila Martins.

Fonte: O Tempo

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