Cirurgia de catarata passa a ser realizada em pacientes a partir de 50 anos


A notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva iria se submeter a uma cirurgia de catarata no olho esquerdo não chegou a ser anunciada como uma surpresa. O procedimento realizado em Brasília na última sexta (30) aconteceu sem intercorrências, e Lula teve alta no mesmo dia. Aos 80 anos, o presidente pertence à faixa etária em que esse tipo de cirurgia é muito comum.
Por muito tempo, a catarata foi tratada como um problema quase exclusivo da terceira idade. Um diagnóstico esperado, associado ao envelhecimento natural do corpo. No entanto, de acordo com dados recentes colhidos em estudos da Fiocruz e do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), cerca de 25% dos brasileiros acima de 50 anos já apresentam sinais de catarata.
O oftalmologista Leonardo Coelho Gontijo, especialista em ótica cirúrgica, transplante e cirurgia refrativa do Instituto de Olhos de Minas Gerais (IOMG) esclarece que “o ritmo de aparecimento da catarata não vem mudando ao longo dos anos e décadas”. “O que vem mudando é a segurança com que o procedimento é feito, a precisão dos resultados e a tecnologia das novas lentes”.
Segundo ele, antigamente a tendência era se aguardar o chamado “amadurecimento” da catarata para tomar uma medida mais efetiva. “Como a cirurgia tinha muitos riscos, somente quando a catarata ficava bem ruim, ao ponto do insustentável, se recorria ao procedimento. O paciente precisava estar em uma situação muito desagradável para ser submetido à cirurgia”, pontua.
Com o passar dos anos, o avanço tecnológico permitiu que a cirurgia de catarata se tornasse cada vez mais simples, segura e eficiente. “Hoje, cataratas menos avançadas podem ser corrigidas com resultados excelentes. Atualmente, a precisão é tanta que o procedimento é realizado em pessoas a partir dos 50 anos, mesmo naquelas que não tenham desenvolvido ainda a catarata, visando apenas a correção do grau que as lentes implantadas proporcionam”, explica Leonardo.
O médico afirma que um paciente com hipermetropia de 5 graus, por exemplo, já pode realizar o implante de uma lente de qualidade para corrigir a visão de longe e de perto. Dessa maneira, a pessoa poderia usufruir dos benefícios antes do aparecimento da catarata, impedindo que ela surgisse futuramente.
“A catarata é um problema que todo mundo vai ter, alguns mais cedo, outros mais tarde. A média de nós brasileiros é aparecer aos 60 anos e ter que operar aos 72, mas em algumas pessoas aparece antes, temos casos de crianças que nascem com catarata e de adolescentes que a desenvolvem por diferentes motivos”, sublinha Leonardo.
A mais comum, todavia, é a chamada catarata senil, que atinge pessoas da faixa etária do presidente Lula ou apenas algumas décadas mais novas. “A catarata normalmente se apresenta entre a quinta e a sétima década de vida, e em alguns sortudos somente bem depois, embora existam casos desde o nascimento e até de idosos centenários. Todos teremos catarata se vivermos o suficiente”, reforça o especialista.
Sintomas
Leonardo informa que o primeiro sintoma da catarata senil é a perda de nitidez ocular, resultando em visão embaçada, ofuscamento por luzes como faróis de carros e um enxergar com cores menos vibrantes, embora este último caso seja o mais difícil de ser percebido pelo paciente. “Por ser um processo muito lento, o aparecimento não é súbito e pode ser complicado de perceber inicialmente”, salienta.
Portanto, a dica é manter as visitas ao consultório oftalmológico em dia, principalmente para aquelas pessoas que já atingiram os 50 anos, para a realização de exames periódicos e análises mais detidas da saúde ocular nos casos em que isto se mostrar necessário. Leonardo descarta que o uso de telas, especialmente de celulares e computadores, cada vez mais frequentes no mundo contemporâneo, cause danos à retina.
“Esse hiperestímulo pode causar alterações dopaminérgicas (ligadas à produção de dopamina, conhecida como o hormônio do prazer e da recompensa) de satisfação pessoal, mas o excesso de televisão e celular não altera a constituição da retina. Portanto, não é necessário se preocupar com proteções como filtro azul, pois essas luzes não geram malefícios dessa ordem”, garante.
Por outro lado, o diabetes pode sim acelerar o aparecimento da catarata. “Isso acontece devido ao aumento do estresse oxidativo e das vias metabólicas que desorganizam as fibras do colágeno do cristalino”, afiança. O profissional conta que nascemos com uma lente natural chamada cristalino, que ao longo da vida se desorganiza e acaba por ficar opaca, passando a ser chamada de catarata. “Esse processo é acelerado em pacientes com descontrole glicêmico”, diz, alertando para a necessidade de pessoas com diabetes se atentarem para mais esse risco à sua saúde.
Cuidados
Leonardo observa que o quadro de catarata pode progredir até o ponto em que a pessoa não consegue mais obter uma visão nítida nem mesmo com o uso de óculos. “Esse é o perfil de paciente com franca indicação cirúrgica. Atualmente, algumas cirurgias estão sendo antecipadas para entregar a independência dos óculos. A indicação para cirurgia pode ser tanto para quem já desenvolveu a catarata quanto para aqueles que desejam se livrar dos óculos, geralmente entre 50 e 55 anos”, destaca.
O oftalmologista também faz questão de salientar que não existem medidas que impeçam o aparecimento da catarata. “Suplementos vitamínicos, exercícios ou fisioterapia não nos podem auxiliar nesse sentido. O que ajuda a postergar o inevitável aparecimento da catarata é manter uma vida saudável, evitar o descontrole glicêmico e o uso desenfreado de corticoides, que são os dois principais cuidados preventivos”, arremata.
Tecnologia para os olhos
O oftalmologista Leonardo Gontijo conta que são muitas as opções de lente para os pacientes que pretendem realizar uma cirurgia de correção ou antecipação de catarata. Ele cita as monofocais plus, de foco estendido e trifocais. “Há uma gama diversa de lentes que podem dividir o foco de forma saudável, permitindo a correção do grau de longe e de perto”, confirma. Leonardo lembra que, após os 40 anos de idade, é comum que a pessoa passe a ter dificuldade em enxergar de longe e de perto, com graus diferentes para cada perspectiva. “Essa é uma preocupação real para as pessoas mais velhas”.
Porém, o especialista informa que somente pessoas com olhos perfeitamente saudáveis podem se submeter à utilização de algumas lentes, como as chamadas premium, em razão da divisão de luz com que elas operam. “Se a pessoa já tem um problema na retina, um glaucoma mais avançado, uma alteração na córnea, essa lente de alta qualidade não poderá ser implantada porque não haverá benefícios”, diz.
Logo, ele deixa claro que o processo é “extremamente individualizado”. “Depende da saúde do olho do paciente, do que ele anseia e do que é combinado dentro das expectativas e do estilo de vida do paciente”. Outro ponto fundamental é evitar a troca de lente no futuro. “Colocar a lente é uma coisa, trocar é outra. O ideal é realizar a cirurgia e nunca mais ter que mexer no local”, conclui.
Fonte: O Tempo

















