O problema de passar a vida tentando agradar


Uma queixa que aparece muito no consultório: gente que passou tanto tempo tentando agradar todo mundo que já nem sabe mais o que realmente quer da própria vida. E isso acontece mais do que se imagina. A pessoa acorda cedo, corre atrás das responsabilidades, trabalha, paga contas, responde mensagens, resolve problemas o dia inteiro, mas, no fundo, sente que está vivendo no automático. Como se estivesse apenas cumprindo tarefas e sobrevivendo aos dias. E talvez esse seja um dos maiores problemas da vida adulta hoje. Muita gente continua funcionando, mas deixou de se sentir viva faz tempo.
A verdade é que viver exige coragem. Coragem para fazer escolhas, para errar, para começar de novo, para decepcionar expectativas. Só que fomos aprendendo, ao longo da vida, a buscar aprovação o tempo inteiro. Aprovação da família, dos amigos, das redes sociais, das pessoas ao redor. E quando alguém vive tentando agradar todo mundo, aos poucos vai se afastando de si mesmo.
Isso aparece em coisas simples do cotidiano. Tem gente presa numa profissão que odeia porque morre de medo de mudar. Tem gente vivendo relações que já acabaram faz tempo, mas continua ali porque não quer lidar com julgamento. Tem gente cheia de ideias, projetos e sonhos, mas que nunca começa nada porque fica pensando demais no que vão dizer. E, sem perceber, a vida vai ficando pequena.
O mais complicado é que esse processo quase nunca acontece de uma vez. Ninguém acorda numa terça-feira e percebe: “Nossa, deixei de ser eu.” Não. Isso vai acontecendo devagar. Um pedaço aqui, outro ali. A pessoa vai deixando de falar o que pensa, vai engolindo vontades, vai adiando coisas importantes e, quando percebe, já está vivendo uma vida que faz sentido para todo mundo… menos para ela.
E o medo do julgamento tem um peso enorme nisso tudo. Porque muita gente deixa de viver não por falta de capacidade, mas por medo da opinião dos outros. Quantas pessoas queriam gravar vídeos, escrever textos, mudar de carreira, começar um negócio, terminar um relacionamento, declarar um sentimento e não fizeram nada disso porque imaginaram uma plateia inteira criticando?
Porém, que existe uma coisa curiosa nisso: as pessoas vão falar de qualquer jeito. Vão criticar quem tenta e quem não tenta. Quem muda e quem fica parado. Quem sonha alto e quem desistiu dos sonhos. Então gastar a vida inteira tentando evitar julgamento é uma batalha impossível de vencer.
Talvez amadurecer tenha mais relação com aceitar isso do que com se tornar perfeito. Porque ninguém chega num momento da vida em que desaparecem todas as inseguranças. Isso não existe. A diferença é que algumas pessoas entendem que o medo não pode continuar decidindo tudo.
Quando o medo começa a mandar em cada escolha, a vida vai ficando apertada. Sem novidade, sem verdade, sem entusiasmo. E muita gente anda cansada exatamente por isso. Não é só cansaço físico. É cansaço de ter que sustentar personagens o tempo inteiro.
Hoje as pessoas passam tempo demais tentando parecer bem. Tentando parecer felizes, interessantes, equilibradas, fortes, produtivas. E as redes sociais aumentaram ainda mais essa pressão. Parece que tudo virou vitrine. Todo mundo precisa mostrar alguma coisa o tempo inteiro. Só que chega uma hora em que isso pesa. Porque ninguém consegue viver o tempo todo preocupado em administrar a própria imagem sem acabar distante de si mesmo.
E talvez seja por isso que tanta gente sente um vazio que nem consegue explicar direito. A vida continua acontecendo. A rotina segue. Mas falta alguma coisa. E muitas vezes o que falta não é dinheiro, sucesso ou produtividade. O que falta é sentir que está vivendo uma vida que realmente tem a ver consigo.
Não estou dizendo que viver de forma mais verdadeira seja fácil. Não é. Dá medo. Dá insegurança. Às vezes dá vontade de desistir e voltar para o lugar confortável. Mas existe um preço muito alto em passar a vida inteira tentando caber na expectativa dos outros.
Porque chega um momento em que a pessoa olha para trás e percebe que fez tudo certo, agradou todo mundo, foi responsável, foi aceita, mas não viveu muita coisa que queria viver.
E o tempo passa rápido demais para a gente viver apenas tentando não incomodar ninguém.
No fim das contas, todo mundo vai chegar ao futuro com alguma marca da caminhada. A diferença é que algumas pessoas vão carregar histórias reais, escolhas reais, experiências reais. Enquanto outras vão carregar apenas dúvidas sobre a vida que poderiam ter vivido se tivessem parado de pedir permissão para existir.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















