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A vida não segue o calendário

Ed Gonçalves16 de junho de 20268min0
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por Ed Gonçalves

Chegamos à metade do ano. Para alguns, isso é apenas uma constatação do calendário. Para outros, é um momento que costuma vir acompanhado de uma sensação incômoda. Uma espécie de balanço silencioso que fazemos quase sem perceber. Olhamos para trás e nos perguntamos onde foram parar aqueles planos feitos em janeiro. A academia que começaria na segunda-feira. O livro que seria lido. O curso que seria iniciado. O dinheiro que seria economizado. A mudança de vida que parecia tão possível quando o ano ainda era apenas uma promessa.

É curioso observar como colocamos tanta esperança na virada de um calendário. Como se o dia primeiro de janeiro tivesse o poder mágico de reorganizar a existência. Como se bastasse um novo ano para que uma nova versão de nós mesmos surgisse pronta, disciplinada, motivada e capaz de realizar tudo aquilo que antes parecia impossível. Mas a vida raramente acontece dessa forma.

Entre janeiro e junho existe algo que os planejamentos não costumam prever: a própria vida. Existem os imprevistos, os medos, os cansaços, as perdas, as dúvidas e até mesmo as mudanças de rota. Existem dias em que simplesmente não conseguimos avançar. Existem momentos em que precisamos apenas sobreviver ao que está diante de nós. E há situações que transformam completamente nossas prioridades.

Talvez por isso tantas pessoas estejam se sentindo frustradas neste momento do ano. Elas olham para as metas que escreveram e enxergam apenas a distância entre aquilo que sonharam e aquilo que conseguiram realizar. O problema é que quase sempre fazemos essa comparação ignorando tudo aquilo que aconteceu no caminho.

Poucas pessoas contabilizam as batalhas que enfrentaram. Poucas reconhecem os obstáculos que precisaram atravessar. Poucas valorizam o simples fato de terem continuado caminhando mesmo quando tudo parecia difícil.

Vivemos em uma época que nos ensina a medir a vida por resultados. Somos incentivados a exibir conquistas, mostrar produtividade e apresentar números. Quantos quilos perdeu. Quanto dinheiro ganhou. Quantos seguidores conquistou. Quantos objetivos alcançou. Quase nunca somos ensinados a valorizar aquilo que não aparece nas fotografias nem nas redes sociais.

Ninguém vê a pessoa que lutou contra a ansiedade para sair da cama. Ninguém vê quem precisou reconstruir a própria vida depois de uma perda. Ninguém vê quem passou meses enfrentando problemas familiares, financeiros ou emocionais e, ainda assim, continuou seguindo em frente. E, no entanto, essas também são conquistas.

Talvez uma das maiores armadilhas seja acreditar que a vida segue uma linha reta. Imaginamos que existe um caminho perfeito, com datas definidas para tudo acontecer. Como se existisse uma idade certa para ter sucesso, um prazo correto para encontrar o amor, um calendário ideal para realizar sonhos. Mas a existência humana não funciona assim.

A vida tem seus próprios ritmos. Algumas coisas acontecem rapidamente. Outras levam anos para amadurecer. Há sementes que germinam em poucas semanas e árvores que precisam de décadas para se tornarem fortes. O mesmo acontece conosco.

Nem sempre estamos atrasados. Às vezes estamos apenas em processo. Nem sempre fracassamos. Às vezes estamos aprendendo. Nem sempre perdemos tempo. Às vezes estamos adquirindo a experiência necessária para aquilo que ainda virá.

Existe uma ansiedade coletiva que nos faz acreditar que estamos ficando para trás. Observamos a vida dos outros e imaginamos que todos estão avançando enquanto nós permanecemos parados. Esquecemos que cada pessoa carrega suas próprias dificuldades, seus próprios medos e suas próprias dores. Esquecemos que aquilo que vemos é apenas uma pequena parte da história.

Talvez a pergunta mais importante neste momento não seja quantos objetivos você alcançou desde o início do ano. Talvez a pergunta seja: quem você se tornou durante esse percurso?

Você aprendeu algo novo? Tornou-se mais forte diante das dificuldades? Desenvolveu mais paciência? Passou a compreender melhor a si mesmo? Descobriu limites que antes desconhecia? Encontrou novas possibilidades?

Porque, no final das contas, a vida não é apenas uma coleção de metas cumpridas. Ela é também o processo de transformação que acontece enquanto tentamos alcançá-las.

Ainda faltam muitos meses para o ano terminar. Mas, mesmo que faltassem poucos dias, a verdade continuaria sendo a mesma: a vida não obedece ao calendário. Ela não se organiza em períodos perfeitos de trezentos e sessenta e cinco dias. Ela acontece no tempo possível, no ritmo possível, da forma possível.

Por isso, antes de condenar a si mesmo por tudo aquilo que ainda não realizou, talvez valha a pena reconhecer o caminho que já percorreu. Talvez seja importante olhar para trás com menos cobrança e mais honestidade. Talvez seja necessário lembrar que viver não é cumprir uma planilha de metas. Viver é continuar caminhando, mesmo quando o mapa muda. E, às vezes, essa já é uma conquista extraordinária.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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