Canetas emagrecedoras: crescimento no consumo e mercado ilegal preocupam especialistas


O Brasil está entre os países com maior consumo per capita de medicamentos à base de agonistas do GLP-1, popularmente chamadas de “canetas emagrecedoras”. Enquanto 3,7% da população adulta global usa esses remédios, no Brasil o índice já chega a 5,5%, acima da média mundial, segundo estudo da consultoria Euromonitor.
Originalmente desenvolvidas para o tratamento do diabetes tipo 2, essas drogas têm mostrado resultados positivos na redução de peso. No entanto, sua utilização sem acompanhamento médico e para fins estéticos tem aumentado significativamente. Na esteira desse uso paralelo, o tráfico das substâncias cresce e gera alertas para entidades de saúde e de segurança pública.
No Brasil, o uso de canetas emagrecedoras cresceu 88% em 2025, e o setor movimentou cerca de R$ 10 bilhões no período. Esse crescimento explosivo é reflexo de diversos fatores: o fim da exclusividade de patentes, o aumento das opções no mercado, a redução do preço e a maior conscientização sobre os riscos da diabetes e da obesidade.
A liberação de patentes, como a da semaglutida, ocorrida em março deste ano, ampliou o acesso ao medicamento. A primeira caneta emagrecedora brasileira com base no princípio ativo, o medicamento Ozivy, da EMS Farmacêutica, chegou às farmácias do país nesta segunda-feira (15).
Atualmente, oito processos estão em análise para novos medicamentos com o mesmo princípio ativo do Ozempic. A chegada de versões pressiona preços para baixo e torna o acesso mais democrático, mas também aumenta o risco de automedicação, contrabando e proliferação de produtos sem controle de qualidade adequado.
Substância não tem indicação estética
Criados para controlar a glicemia em pacientes com diabetes tipo 2, os agonistas de GLP-1 funcionam imitando um hormônio produzido no intestino que regula o açúcar no sangue e a sensação de saciedade. O mecanismo que retarda a digestão e reduz o apetite rapidamente chamou a atenção de quem busca emagrecimento.
Para o ex-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) entre 2022 e 2023 e atual membro do Departamento de Diabetes Tipo 1 no Adulto da entidade, Levimar Araújo, a denominação popular já revela parte do problema.
“A gente não gosta de usar esse termo ‘canetas para emagrecimento’. São medicações para o diabetes, e depois de um tempo foram utilizadas para alguns casos no emagrecimento. Mas o uso recreativo, que não tem prescrição médica, é um absurdo”, opina.
A preocupação é compartilhada pela diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), a endocrinologista Flávia Coimbra. Para ela, o risco central não está no medicamento em si, mas na ausência de avaliação médica prévia.
“Pode ser um paciente que tem alguma outra doença que contraindica o uso ou que está usando algum medicamento diferente que não combina com esses para o tratamento da obesidade. Por isso é muito importante o médico avaliar o paciente de forma global”, explica.
O uso dos agonistas de GLP-1 tem critérios clínicos bem estabelecidos: em geral, é indicado para adultos com Índice de Massa Corporal (IMC) igual ou superior a 30 kg/m², ou com IMC acima de 27 kg/m² associado a ao menos uma comorbidade como hipertensão, dislipidemia, apneia do sono ou doença cardiovascular. Fora desses parâmetros, o uso deve ser cuidadosamente avaliado por um médico.
A especialista da Sbem chama atenção ainda para o fato de que o IMC, sozinho, não diz tudo. “Os critérios para diagnóstico de obesidade hoje vão além do IMC. A gente avalia outros parâmetros como composição corporal, circunferência abdominal, relação cintura-altura.
Às vezes, a pessoa tem um peso na balança praticamente normal, mas com acúmulo de gordura abdominal e presença de síndrome metabólica”, explica. O inverso também ocorre: atletas com grande massa muscular podem ter IMC elevado sem qualquer excesso de gordura. “Por isso a consulta clínica é insubstituível”, explica.
Levimar Araújo reforça a preocupação com a interação medicamentosa entre tratamentos. Ele explica que pacientes diabéticos que já usam insulina ou sulfonilureias (antidiabéticos orais) correm risco real de hipoglicemia ao iniciar o uso das canetas por conta própria. “Ele pode ter uma queda de glicose e isso desestruturar as medicações que ele já está usando”, alerta.
A hipoglicemia, explica o especialista, não é um efeito colateral menor: “A gente tem que ter muito cuidado com a hipoglicemia, porque a gente tem os fatores agudos, os fatores de curto prazo, que levam a pessoa a ficar com uma doença mental e podem ter atitudes drásticas e seriam até fatais”.
Há também sinais de alerta que exigem atenção imediata durante o tratamento: dor abdominal intensa e persistente, especialmente se irradiar para as costas; incapacidade de ingerir líquidos, tontura e fraqueza; episódios de queda da glicemia com visão turva. Na presença desses sintomas, a orientação é buscar atendimento médico de imediato.
Outro risco subestimado, segundo a endocrinologista Flávia Coimbra, é o da posologia incorreta. “Às vezes, o paciente usa sem indicação médica, vai para a dose mais alta do remédio sem fazer aquela transição que a gente orienta de maneira adequada. Isso aumenta muito a náusea, o vômito e pode dar intolerância. A gente até recebe esses pacientes no consultório dizendo que já experimentaram e não toleraram – porque não fizeram a transição adequada”, relata.
Ela acrescenta ainda uma contraindicação pouco conhecida pelo público: o histórico familiar de carcinoma medular de tireoide ou síndrome MEN2. “São duas doenças muito raras, e a maioria da população não tem conhecimento do que se trata. O médico, quando avalia o paciente, vai perguntar se tem história na família de câncer de tireoide, que tipo foi, se tem algum outro carcinoma endocrinológico. Mais um motivo para não usar o medicamento sem orientação”, diz.
O desabastecimento é outro efeito colateral da popularização. “Durante a nossa presidência da SBD, em 2022-23, nós pedimos à própria Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para que fosse receita controlada, para que não pudesse ter desabastecimento”, conta o ex-presidente da SBD, Levimar Araújo. A autarquia federal restringiu a venda dos medicamentos, com retenção do pedido médico, em abril de 2025.
Flávia Coimbra confirma que o cenário é grave e já teve implicações no sistema de distribuição do medicamento. “Muitas vezes, os pacientes com diabetes que precisavam para o controle da sua glicemia tiveram que parar com o medicamento porque não conseguiam comprar. Hoje o fornecimento está normalizado, mas a gente precisa sempre ter os olhos atentos”, relata.
Vigimed monitora reações
A Anvisa registrou 65 mortes suspeitas que podem estar relacionadas ao uso de canetas emagrecedoras no Brasil, no período de dezembro de 2018 a dezembro de 2025. Ao longo desses sete anos, o sistema oficial de monitoramento de segurança de medicamentos, o Vigimed, recebeu 2.436 relatos de reações adversas relacionadas aos princípios ativos semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida.
Entre as complicações graves, o principal destaque é a pancreatite – inflamação no pâncreas. Foram notificados 225 casos dessa complicação, com seis mortes confirmadas como suspeitas por essa causa específica. A Anvisa enfatiza que o monitoramento é padrão para qualquer medicamento aprovado no Brasil e que os casos são considerados suspeitos – ou seja, não há confirmação de relação direta com o uso dos fármacos.
Problema de segurança pública
Diante do cenário, a resposta institucional ganhou força ao longo de 2026. Em abril, a Polícia Federal, com apoio da Anvisa, deflagrou a operação Heavy Pen. A ação identificou insumos para a produção de mais de 1 milhão de canetas injetáveis e movimentação financeira de R$ 4,8 milhões em farmácias de manipulação de 12 estados. Em três estados, os agentes também mapearam a retatrutida, substância que ainda não foi registrada por nenhuma agência reguladora do mundo.
O tráfico transfronteiriço também preocupa. As apreensões de canetas emagrecedoras contrabandeadas pela fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai cresceram de R$ 750 mil em 2024 para R$ 4,5 milhões até maio de 2026. Só no primeiro trimestre de 2026, a Polícia Federal do Mato Grosso do Sul registrou 4.544 apreensões – número que já supera o total de todo o ano de 2025, quando foram feitas cerca de 3.400 apreensões.
Em maio, a parceria entre Anvisa e Polícia Federal foi formalizada com a publicação de uma nota técnica que estabelece protocolos integrados entre os dois órgãos para investigação e repressão das atividades ilegais relacionadas à fabricação, importação e distribuição dessas substâncias.
Na ocasião, o diretor da Anvisa, Daniel Pereira, afirmou que os medicamentos apreendidos em futuras operações passarão por análises conjuntas da perícia da PF com apoio técnico da Anvisa, com o objetivo de verificar a composição dos produtos ilegais e identificar os riscos para a população.
A articulação envolve outra frente. Em abril deste ano, Anvisa, Conselho Federal de Medicina (CFM), Conselho Federal de Farmácia (CFF) e Conselho Federal de Odontologia (CFO) assinaram uma carta de intenção para promover o uso racional e seguro dos medicamentos agonistas do receptor GLP-1 no Brasil. O acordo prevê troca de informações, alinhamento técnico e ações educativas, além de incentivo à prescrição responsável e fortalecimento da notificação de eventos adversos.
O plano de ação da Anvisa estrutura-se em seis eixos: aprimoramento regulatório, monitoramento e fiscalização, articulação institucional e internacional, análise de registros, comunicação com a sociedade e governança interna.
Entre as medidas já em curso estão a revisão das normas de manipulação desses medicamentos, a suspensão de autorizações de funcionamento para farmácias em situação de risco e a busca ativa de eventos adversos em serviços de emergência, hospitais e clínicas.
Emagrecimento não é sinônimo de saúde
Se o cenário regulatório e de segurança pública já é complexo, especialistas alertam para uma dimensão menos visível do problema: o que acontece com quem emagrece sem cuidado médico adequado. A especialista da Sbem, Flávia Coimbra, aponta a perda de massa muscular como um dos efeitos mais negligenciados.
“Se o paciente não tem uma orientação nutricional e de atividade física adequada, aumenta a chance de perda de massa muscular, o que vai colaborar para o reganho de peso quando ele parar com o remédio”, explica.
A endocrinologista defende ainda que o tratamento ideal contra a obesidade ideal deve incluir, além da medicação, acompanhamento nutricional e prática orientada de exercícios – com equilíbrio entre treino de força e exercício cardiometabólico. Há ainda um risco psicológico que a balança não mostra.
“O grande problema é criar uma dependência do medicamento – achar que só emagrece se está usando. E também distúrbios de imagem corporal: pessoas que não se enxergam com o peso que realmente têm, que se olham no espelho e acham que estão sempre acima do peso”, explica.
O uso sem indicação adequada de agonistas GLP-1, assim como de outras substâncias para fim de emagrecimento, pode precipitar um transtorno psiquiátrico que precisa de tratamento com psiquiatra e psicólogo, alerta ainda a diretora da SBEM. “A gente tem visto muito as pessoas se comparando com artistas e influenciadores com corpos cada vez mais magros, achando que isso é uma normalidade – o que não é”, aponta.
Acesso para quem precisa
Por trás do debate sobre automedicação há também uma questão de equidade. Flávia Coimbra reconhece que, mesmo com a queda de preços dos agonistas de GLP-1, o acesso ainda será um desafio para a maior parte da população que tem indicação clínica real.
“A grande maioria que tem indicação, infelizmente, ainda vai ter dificuldade de acesso. Por isso a Sbem busca campanhas junto aos órgãos públicos para tentar que os pacientes que têm indicação possam usar no momento adequado, com a indicação médica correta”, afirma.
O consenso entre os especialistas é que o medicamento, quando bem indicado e acompanhado, representa um avanço real. “O remédio é muito bom quando usado adequadamente”, resume a endocrinologista Flávia Coimbra.
Fonte: O Tempo

















