Celular na cama pode fazer mal ao coração? Entenda

Levar o celular para a cama e passar minutos ou horas navegando nas redes sociais antes de dormir se tornou um hábito comum. O comportamento, porém, pode afetar mais do que a qualidade do sono. Segundo o cardiologista Pedro Caetano, especialista em prevenção e performance, a exposição à luz do aparelho à noite pode interferir no relógio biológico, reduzir a sonolência e dificultar o início do sono.
O efeito cardiovascular direto da luz azul, isoladamente, não é comprovado, mas o uso prolongado pode fazer a pessoa dormir mais tarde, reduzir o tempo de descanso e manter o cérebro em estado de alerta.
O sono é um período de recuperação para o organismo e também para o sistema cardiovascular. Quando esse descanso é insuficiente ou fragmentado, o corpo pode não completar adequadamente esse processo.
“Durante o sono, o organismo deveria entrar em um período de maior repouso, com redução da frequência cardíaca e da pressão arterial. Quando dormimos pouco ou temos um sono muito fragmentado, esse processo fica prejudicado. É como se o corpo permanecesse em um estado de alerta, com aumento da atividade do sistema nervoso simpático e liberação de hormônios relacionados ao estresse”, explica Caetano.
A preocupação aumenta quando as noites ruins deixam de ser ocasionais. “Ao longo do tempo, o sono inadequado pode favorecer inflamação, alterações no metabolismo e piora da função dos vasos sanguíneos. Quando isso se torna frequente, pode contribuir para o desenvolvimento de hipertensão e aumentar o risco cardiovascular, incluindo infarto e AVC”, afirma.
Tempo de exposição
O tempo de exposição também faz diferença. Passar alguns minutos no celular antes de dormir não é equivalente a permanecer durante horas na cama navegando nas redes sociais, vídeos ou mensagens. O problema aparece principalmente quando o hábito começa a reduzir sistematicamente o tempo de sono.
“Não existe hoje um número a partir do qual podemos dizer que o celular passa a fazer mal ao coração. Usar o aparelho durante cinco ou dez minutos não é a mesma coisa que passar uma ou duas horas na cama rolando a tela e adiando o sono diariamente. O que preocupa é quando isso vira um hábito e começa a roubar horas de sono de forma repetida”, afirma Caetano.
“Hoje temos evidências bastante consistentes relacionando sono insuficiente, ou de má qualidade, a maior risco de hipertensão e doenças cardiovasculares. É importante, porém, fazer uma distinção: não podemos simplesmente dizer que ‘o celular causa infarto’. Essa seria uma simplificação exagerada”, explica.
Como melhorar a qualidade do sono
A recomendação não é abandonar completamente o celular, mas evitar que ele ocupe o horário reservado para o descanso. Uma das medidas mais simples é estabelecer um período sem telas antes de dormir.
“Eu costumo dizer que não precisamos transformar o celular em um vilão, mas precisamos estabelecer limites para que ele não ocupe justamente o horário destinado ao sono. Uma medida simples é tentar ficar pelo menos 30 minutos sem o aparelho antes de dormir”, orienta o médico.
Deixar o celular longe da cama ou até mesmo fora do quarto também pode ajudar. Reduzir o brilho e a exposição à luz intensa à noite, manter horários relativamente regulares para dormir e acordar e buscar cerca de sete a oito horas de sono por noite são outras medidas recomendadas.
Caetano alerta ainda que nem todo sono ruim está relacionado ao celular. Ronco intenso, despertares frequentes, sonolência durante o dia e dificuldade para controlar a pressão podem indicar a necessidade de investigar distúrbios como a apneia obstrutiva do sono.
“Nem todo sono ruim é culpa do celular. Pessoas que roncam muito, acordam várias vezes durante a noite, apresentam sonolência excessiva durante o dia ou têm uma hipertensão difícil de controlar precisam ser avaliadas para distúrbios como a apneia obstrutiva do sono”, afirma.
Para o cardiologista, cuidar do sono deve fazer parte da prevenção cardiovascular. “Durante muito tempo falamos principalmente de alimentação, exercício, colesterol, diabetes e pressão arterial. Hoje está cada vez mais claro que a qualidade do sono também precisa fazer parte dessa conversa sobre prevenção cardiovascular. No fim, cuidar do sono também é cuidar do coração”, pontua.
Fonte: O Tempo

















