Como o Super El Niño pode afetar o setor de energia e conta de luz

A possibilidade da ocorrência cada vez mais provável de um “Super El Niño” acende uma luz de alerta no setor de energia elétrica. Com expectativas de secas extremas nas regiões Norte e Nordeste do país e chuvas acentuadas no Sul, agentes do setor tentam estimar os impactos na geração e no consumo de energia, e, principalmente, no que isso pode se traduzir na conta de luz paga por consumidores e empresas.
No curto prazo, um maior volume de chuvas no Sul do Brasil deve gerar uma redução no Preço de Liquidação das Diferenças (PLD). O PLD é o valor de referência da energia elétrica negociada no mercado de curto prazo (MCP) pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
O PLD serve para a liquidação financeira das diferenças entre a energia contratada e a energia efetivamente gerada ou consumida. Essa operação ocorre no MCP, conforme as regras de contabilização do setor. Se uma distribuidora de energia – como a Cemig – contrata mais ou menos energia do que seus clientes residenciais e comerciais consumiram, esse saldo positivo ou negativo é liquidado no mercado de curto prazo ao preço do PLD.
Embora o consumidor residencial pague uma tarifa fixa regulada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as oscilações do PLD influenciam os custos do MCP das distribuidoras de energia, o que impacta o acionamento de bandeiras tarifárias e os reajustes anuais de tarifa pagos pelos consumidores. O indicador funciona, na prática, como uma espécie de termômetro das condições do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Ao mesmo tempo que as chuvas no Sul tendem a causar uma redução do PLD no curto prazo, o aumento das temperaturas no Nordeste pode ter implicações no armazenamento e consumo de energia, explica a diretora executiva de Operações de Varejo da (re)energisa, Camila Schoti. Essas implicações geram uma incerteza quanto à tendência do PLD, com viés de alta.
Bandeiras tarifárias
Um dos desdobramentos imediatos para os consumidores é o acionamento de bandeiras tarifárias, explica a executiva, devido a maior necessidade do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) de acionar as usinas termelétricas (UTE) para garantir a estabilidade do SIN, que deverá estar com as condições hídricas comprometidas pelas secas.
Com um sistema ainda muito dependente da geração de energia das usinas hidrelétricas (UHE), as secas extremas com um Super El Niño pode comprometer o armazenamento de água nos reservatórios das UHEs, o que diminui a produção de energia dessas usinas e aumenta a necessidade das termelétricas.
O SIN conta com muitas UTEs a gás natural, mas ainda têm termelétricas a óleo. Ambas têm custos de operação mais elevados que a geração de energia renovável. “Toda vez que o sistema precisa dessas usinas, o preço da energia tende a subir, esse preço de curto prazo, e isso é repassado para os consumidores através das bandeiras tarifárias”, disse Camila Schoti.
Grosso modo, a definição de preço da eletricidade no Brasil acontece basicamente pela hidrologia, ou, o nível de água nos reservatórios das hidrelétricas. Quanto mais cheios, afirma Camila Schoti, menor o preço da energia. Quanto menos água nos reservatórios, maior o preço da eletricidade, devido ao acionamento das termelétricas.
O consumo de energia também impacta o preço da energia no país. Quanto maior o consumo, maior tende a ser o preço da tarifa de energia e vice-e-versa. Ainda assim, a quantidade de água nos reservatórios das UHEs tem um impacto maior sobre a variação de preço da energia do que a variação no consumo, ressalta a diretora da (re)energisa.
“Sempre que tivermos um fenômeno que tende a reduzir a hidrologia, a quantidade de chuva, de água nos reservatórios, esse fenômeno tende a aumentar o custo da geração, porque vai precisar acionar térmica, e para custear essas térmicas, foi criada as bandeiras tarifárias em diferentes níveis”, comenta Camila Schoti.
As variações de preço no setor elétrico não é uma novidade criada pelo El Niño, muito menos uma anomalia. O setor funciona exatamente dessa forma mesmo, com uma variação do preço de acordo com a quantidade de água nos reservatórios das hidrelétricas.
Alternativas no mercado livre e regulado
Por isso, a diretora executiva de Operações de Varejo da (re)energisa aponta que é importante os consumidores que estão no ambiente de contratação livre (ACL), o mercado livre de energia, como os de alta e média tensão, como indústrias e grandes comércios, tenham uma gestão otimizada para garantir uma “cobertura” no consumo e não ficarem tão expostos a essa volatilidade.
Já os consumidores de baixa tensão, as residências, por enquanto, ainda não têm acesso ao ACL. Entretanto, eles também conseguem encontrar alternativas para fugir da volatilidade dos preços de energia mesmo dentro do Ambiente de Contratação Regulado (ACR).
“Os consumidores que estão em baixa tensão conseguem de alguma forma também mitigar esses custos, ao participar da geração solar compartilhada, porque estão fazendo parte ali também de ativos que estão gerando energia e contribuindo para o sistema”, argumenta Camil Schoti.
Fonte: O Tempo

















