O novo não precisa pedir licença ao passado

Há momentos na vida em que o novo aparece diante de nós, mas, em vez de avançarmos, permanecemos olhando para trás. Não necessariamente porque desejamos voltar, mas porque existe algo no passado que ainda nos interroga. Uma palavra que não foi dita, uma escolha que gostaríamos de ter feito diferente, uma relação que terminou sem que conseguíssemos compreender exatamente por quê, uma oportunidade que deixamos escapar. E então começamos a revisitar mentalmente as mesmas cenas, como quem acredita que, repetindo uma lembrança muitas vezes, finalmente encontrará nela uma resposta capaz de modificar aquilo que já aconteceu. O problema é que a memória não funciona como uma máquina do tempo. Podemos retornar inúmeras vezes ao passado, mas nunca chegaremos a um lugar onde ele possa ser refeito.
Na psicanálise, a repetição possui uma importância fundamental justamente porque aquilo que não encontra elaboração pode insistir. Repetimos pensamentos, perguntas, sentimentos e até determinadas formas de nos relacionarmos porque existe algo que ainda não conseguimos simbolizar. É diferente, portanto, de simplesmente lembrar. Lembrar pode fazer parte da nossa história. Ruminar é permanecer preso a ela. Há uma diferença delicada, mas profunda, entre olhar para o passado para compreendê-lo e olhar para ele na esperança impossível de modificá-lo. No primeiro movimento, a lembrança pode produzir elaboração. No segundo, ela se transforma em uma espécie de prisão silenciosa.
Muitas vezes, o medo do novo não está exatamente no novo. Está naquilo que ele exige que deixemos para trás. O novo nos coloca diante daquilo que não conhecemos, e o desconhecido pode despertar angústia. Quando não sabemos o que encontraremos pela frente, podemos sentir vontade de retornar ao que já conhecemos, mesmo quando aquilo que conhecemos nos fazia sofrer. É curioso como o ser humano, algumas vezes, prefere uma dor conhecida a uma possibilidade desconhecida. O sofrimento familiar oferece uma espécie de segurança paradoxal: sabemos como ele funciona, sabemos onde dói, sabemos até quais pensamentos costumam aparecer. O novo, ao contrário, não oferece garantias.
Por isso, começar alguma coisa pode ser tão difícil. Mudar de trabalho, terminar uma relação, iniciar outra, voltar a estudar, mudar de cidade, assumir um desejo antigo, colocar um projeto em prática ou simplesmente permitir-se viver de uma maneira diferente pode despertar uma série de fantasmas. “E se não der certo?” “E se eu me arrepender?” “E se antes era melhor?” “E se eu perder aquilo que ainda tenho?” Essas perguntas parecem prudentes, mas podem se transformar em mecanismos de paralisação. Afinal, não existe escolha capaz de nos oferecer garantia absoluta. Viver também significa fazer escolhas sem possuir todas as respostas.
Talvez uma das maiores dificuldades diante do novo seja aceitar que não podemos entrar no futuro levando conosco todas as certezas que gostaríamos de ter. O futuro não se apresenta pronto. Ele precisa ser construído. E toda construção envolve algum grau de incerteza. É por isso que amadurecer não significa deixar de sentir medo, mas aprender que o medo não precisa ocupar o lugar da decisão. Podemos sentir medo e, ainda assim, caminhar. Podemos sentir saudade e, ainda assim, seguir adiante. Podemos reconhecer que determinada experiência foi importante e, ao mesmo tempo, compreender que ela terminou.
O passado merece respeito, mas não precisa receber o comando da nossa vida. Existem pessoas que passam tantos anos tentando entender por que determinada coisa aconteceu que deixam de perceber o que está acontecendo agora. Ficam presas à pergunta “por quê?” quando talvez a questão mais importante seja “o que faço com isso que aconteceu?”. Não se trata de abandonar a história, negar a dor ou fingir que nada aconteceu. Trata-se de encontrar outra relação com aquilo que nos aconteceu. O passado não precisa desaparecer para que possamos continuar. Ele precisa deixar de exigir que a nossa vida permaneça parada diante dele.
Na clínica, muitas vezes descobrimos que aquilo que parece ser medo de seguir em frente é, na verdade, medo de perder uma determinada versão de nós mesmos. Porque toda mudança também transforma a imagem que construímos de quem somos. Quando alguém abandona uma relação, por exemplo, não perde apenas o outro. Pode perder também o lugar que ocupava naquela relação. Quando muda de profissão, pode precisar abandonar a identidade que construiu durante anos. Quando começa a desejar algo diferente, pode descobrir que já não consegue viver de acordo com expectativas antigas. O novo, então, não significa apenas encontrar alguma coisa. Significa também despedir-se de alguma coisa.
E despedidas nem sempre são simples. Algumas precisam de tempo. Algumas deixam marcas. Algumas continuam fazendo parte de nós de maneira silenciosa. Mas uma marca não precisa ser uma ferida aberta para sempre. Existem experiências que podem deixar de doer sem deixar de existir. Talvez seja justamente esse um dos sentidos possíveis da elaboração: não apagar aquilo que vivemos, mas permitir que a experiência ocupe outro lugar dentro de nós.
Não precisamos ter certeza de que o amanhã será melhor para nos permitirmos caminhar em sua direção. Essa talvez seja uma das coisas mais difíceis de aceitar. A vida não nos oferece garantias antes de começar. O novo chega sem contrato, sem promessa e sem manual de instruções. Cabe a nós experimentar, errar, recalcular, desejar novamente e, quando necessário, começar outra vez.
Há momentos em que seguir em frente parece uma espécie de traição ao que fomos. Como se deixar o passado para trás significasse dizer que aquilo não teve importância. Mas não é assim. Podemos honrar o que vivemos sem continuar vivendo dentro daquilo. Podemos reconhecer o amor que existiu sem permanecer numa relação que terminou. Podemos reconhecer nossos erros sem transformar a culpa em moradia. Podemos sentir saudade sem transformar a saudade em destino.
O passado faz parte de nós, mas não precisa ser o lugar onde continuamos morando. Há uma vida acontecendo enquanto pensamos na vida que já aconteceu. E talvez, em algum momento, seja necessário interromper a repetição das mesmas perguntas para escutar aquilo que ainda não perguntamos. O que eu desejo agora? O que ainda posso construir? O que existe diante de mim que não existia antes?
Enfrentar o novo não significa esquecer o passado. Significa permitir que a vida tenha continuidade. Afinal, algumas portas não se fecham para nos punir. Fecham-se porque existem outras que precisam ser abertas. E talvez viver seja justamente aprender a reconhecer, entre aquilo que já terminou e aquilo que ainda não começou, o instante presente em que ainda podemos escolher.

Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















