Febre do Nilo Ocidental: após casos confirmados e morte, doença pode virar uma epidemia?

Doença pouco conhecida por boa parte das pessoas, a Febre do Nilo Ocidental tem causado receio após a confirmação de dois casos em São Paulo e outros dois em Santa Catarina – incluindo o óbito de uma idosa de 77 anos em Imbituba. Um quinto caso está sendo investigado no Piauí. A infecção é causada por um arbovírus, grupo que também inclui os vírus da dengue, zika, chikungunya e febre-amarela. Mas, será que os diagnósticos são casos pontuais ou sinalizam que a doença pode estar se alastrando pelo país?
Para o médico Adelino de Melo Freire Junior, presidente da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI), os casos recentes são um sinal importante para a vigilância. Porém, isso ainda não significa que estejamos diante de uma epidemia ou de uma situação semelhante à dengue, por exemplo.
“Por outro lado, já não podemos considerar o vírus restrito a uma pequena região do país. O Ministério da Saúde chama a atenção para a presença do vírus em diferentes macrorregiões e biomas brasileiros e considera que os dados apontam para uma ampla distribuição do vírus no território nacional”, analisa.
O especialista também lembra que, entre 2014 e 2025, o Brasil havia registrado 13 casos humanos confirmados, inclusive um caso em Minas Gerais. “O mais importante agora é reforçar a vigilância, principalmente diante de casos de meningite, encefalite ou paralisia de provável causa viral sem diagnóstico definido”, afirma.
Victor Bertollo Gomes, médico infectologista e membro do comitê da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), afirma que o aumento no número de casos também pode ser um reflexo da melhoria na capacidade de realizar diagnósticos.
“Por se tratar de uma doença rara e dificilmente investigada, é provável que casos ocorram esporadicamente sem nunca serem diagnosticados. Com a melhoria das ações de vigilância, podem surgir novos casos sem necessariamente indicar aumento na circulação do vírus. Ainda é um número pequeno de casos para possibilitar uma avaliação do risco detalhada”, reforça.
Quais os sintomas e quando se preocupar?
Entre os sintomas mais comuns causados pela Febre do Nilo Ocidental estão febre, cansaço, dor de cabeça, dores musculares e fraqueza. Também podem ocorrer dores articulares, náuseas, vômitos, diarréia e manchas na pele. Em algumas pessoas, especialmente o cansaço e a fraqueza podem persistir por algum tempo após a fase aguda.
“Estima-se que aproximadamente 70% a 80% das pessoas infectadas sejam assintomáticas. Cerca de 20% desenvolvem a chamada febre do Nilo Ocidental, geralmente uma doença febril autolimitada (em que o próprio sistema imunológico do corpo elimina o agente agressor). Somente 0,5% desenvolve a forma neurológica da doença, que é a manifestação mais grave”, explica Adelino de Melo Freire Junior.
Segundo ele, a principal preocupação é quando há comprometimento do sistema nervoso. Isso porque a doença pode provocar meningite, encefalite ou uma forma de paralisia aguda.
“Sinais como confusão mental, alteração do nível de consciência, convulsões ou fraqueza muscular de aparecimento recente devem levar à procura imediata de atendimento médico. Idosos e pessoas imunossuprimidas apresentam maior risco de doença grave e merecem atenção especial diante de uma síndrome febril acompanhada de manifestações neurológicas”, orienta.
Mortes não são comuns
Apesar do óbito em Santa Catarina chamar a atenção, o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia reforça que, levando em consideração todas as pessoas infectadas, a morte é rara, principalmente porque a grande maioria não apresenta sintomas e menos de 1% desenvolve manifestações neurológicas da doença.
“Entretanto, quando ocorre encefalite ou outra manifestação neurológica grave, o quadro passa a ser potencialmente grave e a letalidade é estimada em torno de 10% entre os pacientes com doença neuroinvasiva, podendo ser maior em idosos e pessoas imunossuprimidas. Portanto, é importante separar duas coisas: o risco de uma pessoa infectada morrer é baixo. Mas, entre aqueles poucos pacientes que desenvolvem a forma neurológica grave, o risco se torna significativo”, diferencia.
Há vacina? Como se proteger?
Victor Bertollo Gomes esclarece que, até o momento, não há vacina aprovada para uso em humanos. Por isso, a prevenção depende principalmente do controle da exposição aos mosquitos.
Confira algumas medidas:
- Eliminar criadouros e água parada;
- Usar repelentes;
- Vestir roupas compridas em horários de maior atividade dos mosquitos (entre o entardecer e o amanhecer);
- Instalar telas em portas e janelas e usar mosquiteiros;
- Não despejar lixo em valas, valetas, margens de córrego, rios e riachos;
- Evitar manusear animais mortos.
“Também são necessárias medidas públicas de controle de criadouros, manejo ambiental, melhoria de saneamento básico e, eventualmente, controle químico de mosquitos em cenários de surto”, aponta o médico.
O que é a doença e como é feito o diagnóstico?
A Febre do Nilo Ocidental é uma infecção causada por um arbovírus, grupo que também inclui os vírus da dengue, zika, chikungunya e febre-amarela.
A transmissão se dá principalmente pela picada de pernilongos do gênero Culex – não há registro de transmissão entre humanos. O vírus tem como principais hospedeiras algumas espécies de aves silvestres.
Também pode infectar humanos, equinos, primatas não humanos e outros mamíferos, embora o papel desses animais na transmissão ainda não esteja totalmente esclarecido.
O diagnóstico combina avaliação clínica e exames laboratoriais. Pessoas com sintomas compatíveis que tenham estado em áreas com circulação do vírus ou exposição aos mosquitos devem informar essa condição ao serviço de saúde.
Fonte: O Tempo

















