Recomeçar não é recomeçar do zero

Há momentos em que a vida nos coloca diante da sensação de que precisamos começar novamente. Um relacionamento termina, um trabalho acaba, um projeto não acontece como imaginávamos ou simplesmente percebemos que o caminho que estávamos seguindo já não faz mais sentido. Nessas situações, é comum imaginar o recomeço como uma página em branco, como se fosse necessário apagar tudo o que aconteceu antes para começar uma nova história. Mas nenhum recomeço acontece realmente do zero. Nós chegamos ao presente carregando aquilo que vivemos, as pessoas que encontramos, as perdas que enfrentamos, os erros que cometemos e os desejos que descobrimos. Não começamos novamente como quem nunca viveu. Recomeçamos justamente porque alguma coisa aconteceu conosco.
A psicanálise nos lembra que aquilo que não elaboramos pode continuar retornando. Podemos mudar de cidade, de trabalho ou de relacionamento e, ainda assim, perceber que determinadas questões continuam aparecendo. Isso acontece porque algumas coisas não estão nos lugares dos quais tentamos fugir, mas em nós. Às vezes acreditamos estar começando uma vida completamente nova quando, na verdade, apenas mudamos o cenário de uma história antiga. Por isso, recomeçar não significa simplesmente abandonar o passado. Significa poder olhar para aquilo que vivemos e compreender que essa experiência faz parte da nossa história, mas não precisa determinar tudo aquilo que ainda vamos viver.
Também precisamos aprender a diferenciar carregar o passado de permanecer preso a ele. Carregar é reconhecer que aquilo aconteceu e que teve efeitos sobre quem somos. Permanecer preso é continuar vivendo em função de algo que já passou. Nem tudo que termina foi um fracasso. Existem relações que foram importantes e chegaram ao fim, sonhos que deixaram de fazer sentido porque nós mudamos e caminhos que precisaram ser abandonados. O fim de alguma coisa não apaga o valor que ela teve. Algumas experiências pertencem a determinados momentos da nossa vida e, quando esses momentos terminam, precisamos aceitar que nós também já não somos exatamente os mesmos.
Vivemos em uma época que gosta de transformar o recomeço em uma espécie de espetáculo. Fala-se muito em fechar ciclos, esquecer o passado e construir uma nova versão de nós mesmos. Mas a vida real não funciona com tanta facilidade. Algumas histórias permanecem dentro de nós por muito tempo. Algumas perdas continuam doendo. Algumas perguntas não encontram respostas. E tudo bem. Recomeçar não significa deixar de sentir ou fingir que nada aconteceu. Às vezes, o verdadeiro recomeço acontece de maneira silenciosa: quando fazemos uma escolha diferente, estabelecemos um limite, abandonamos uma expectativa ou simplesmente deixamos de esperar que o passado seja diferente para conseguirmos viver o presente.
Recomeçar não é voltar ao ponto de partida. É começar de onde estamos. E onde estamos é resultado de tudo aquilo que percorremos. Não podemos apagar o que aconteceu, mas podemos modificar a relação que estabelecemos com nossa própria história. Podemos olhar para trás sem desejar voltar, reconhecer nossos erros sem transformar nossa existência inteira em um erro e aceitar que determinadas perdas fizeram parte do caminho sem permitir que elas definam o restante dele.
Talvez essa seja a parte mais difícil e também mais bonita de recomeçar: entender que não precisamos nos tornar pessoas completamente novas. Precisamos apenas descobrir o que ainda podemos fazer com aquilo que somos. A vida não nos oferece a possibilidade de começar do zero, mas oferece, todos os dias, a possibilidade de continuar. E continuar não significa esquecer o que passou. Significa reconhecer que o passado faz parte da nossa história, mas não precisa ser o seu último capítulo.

Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















