Viver apesar do que aconteceu

Existem coisas que mudam a nossa forma de olhar para a vida, como uma perda, uma separação, uma decepção ou aquela porta que se fechou quando a gente mais esperava. Algumas experiências passam, mas outras ficam continuando a aparecer nas lembranças, nos medos e na maneira como a gente se relaciona com as pessoas. O problema não é lembrar do que aconteceu; ele começa quando o fato deixa de ser apenas uma parte da nossa história e passa a comandar tudo o que a gente faz, como se cada passo novo precisasse pedir permissão para a ferida antiga. Há uma diferença grande entre carregar uma história e ficar preso a ela, pois a gente não pode voltar no tempo para consertar o que deu errado, nem esperar o dia em que a dor vai sumir por completo para, só então, tentar seguir em frente, já que a vida real não funciona assim, tem coisa que a gente aceita sem achar justa, tem perda que a gente lamenta para sempre, e tem cicatriz que continua ali, mesmo sem estar sangrando.
Viver apesar do que aconteceu não é fingir que está tudo bem, nem tentar achar um significado lindo para todo sofrimento, visto que algumas coisas simplesmente doem e ponto. O que pode mudar com o tempo é o espaço que a gente dá para essa dor, para que ela possa continuar fazendo parte da nossa bagagem sem precisar ocupar o banco do motorista da nossa vida. É muito humano ficar voltando ao passado na cabeça, imaginando o que poderíamos ter feito diferente ou o que deveríamos ter dito, como se a gente acreditasse que, pensando bastante, daria para consertar o que já passou. Mas chega uma hora em que o pensamento bate num limite, pois a gente consegue elaborar o que aconteceu e juntar os cacos, mas não tem como mudar o que foi.
Amadurecer é um pouco sobre perceber que a vida não nos dá a chance de recomeçar do zero, nos fazendo recomeçar de onde estamos, com as marcas que carrega e com as dúvidas que ainda sobram, mostrando que o futuro não precisa esperar o passado sumir para poder acontecer. Seguir em frente depois de algo difícil não quer dizer que a gente esqueceu, mas sim que a nossa vida é maior do que aquilo que nos feriu, permitindo que uma pessoa machucada continue tendo vontade de amar, de tentar de novo e de rir de alguma besteira, não porque a dor sumiu, mas porque ela deixou de ser a única coisa que define quem a pessoa é. Nos dias mais difíceis, viver apesar do que aconteceu é só deixar o dia seguinte acontecer sem precisar de nada grandioso, sendo às vezes só voltar a trabalhar, tomar um café, ler um livro ou conversar com alguém em pequenos gestos que, aos poucos, devolvem a cor para os nossos dias.
O que nos aconteceu importa, mas não é a última palavra sobre quem somos, pois a gente continua existindo depois do temporal. E, enquanto a gente estiver aqui, sempre vai existir espaço para novas histórias, encontros e surpresas que o passado não conhece.

Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.


















