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Nem tudo o que não aconteceu deu errado

Ed Gonçalves6 de outubro de 20268min0
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por Ed Gonçalves

À medida que o ano chega ao fim, é quase inevitável olhar para trás e fazer algum tipo de balanço. Pensamos naquilo que planejamos, nas coisas que queríamos realizar, nas promessas que fizemos a nós mesmos e nos caminhos que imaginávamos percorrer. É também nesse momento que algumas frustrações parecem ganhar um peso maior. Aquilo que não aconteceu aparece com mais nitidez: o projeto que ficou pelo caminho, o trabalho que não conseguimos, a mudança que adiamos, o dinheiro que não conseguimos juntar, o sonho que continuou esperando. Existe uma tendência de transformar tudo isso em uma espécie de prova de fracasso, como se o fim do ano tivesse a obrigação de nos apresentar uma lista de tudo aquilo que deveríamos ter conseguido. Mas talvez seja preciso perguntar se aquilo que não aconteceu realmente representa um fracasso ou se estamos apenas julgando a nossa vida a partir de expectativas que foram construídas em outro momento.

Nem sempre aquilo que desejamos no início do ano continua sendo aquilo que desejamos quando chegamos ao seu final. Nós mudamos ao longo dos meses. Conhecemos pessoas, enfrentamos situações que não estavam previstas, descobrimos capacidades que desconhecíamos e também reconhecemos limites que antes não queríamos enxergar. Aquilo que parecia indispensável pode deixar de fazer sentido. Um sonho pode perder o brilho. Uma escolha que parecia certa pode passar a ser questionada. E há algo de profundamente humano nisso. Não somos obrigados a permanecer fiéis a todos os desejos que tivemos simplesmente porque um dia os desejamos. Mudar de opinião, mudar de caminho e até deixar de querer alguma coisa também são formas de transformação.

Há, porém, uma diferença entre desistir de alguma coisa porque ela deixou de fazer sentido e desistir porque encontramos uma dificuldade. Nem sempre conseguimos distinguir uma coisa da outra no momento em que estamos vivendo. Às vezes abandonamos um projeto porque ele se tornou impossível naquele período. Em outras ocasiões, insistimos durante anos em alguma coisa que já não desejamos porque temos medo de admitir que mudamos. Por isso, talvez seja mais importante olhar para aquilo que ficou pelo caminho e perguntar: eu ainda quero isso? Essa pergunta pode ser mais importante do que simplesmente perguntar por que não consegui. Porque algumas coisas não aconteceram e ainda podem acontecer. Outras não aconteceram porque já não precisam acontecer.

Também precisamos reconhecer que nem tudo aquilo que fizemos durante o ano aparece nas nossas listas de conquistas. Continuar trabalhando em uma fase difícil, cuidar de alguém, reorganizar a própria vida, reconhecer um erro, pedir ajuda ou simplesmente atravessar um período complicado podem não parecer grandes realizações quando colocados ao lado dos sonhos que ainda não se realizaram. Mas a vida também é feita dessas coisas. Nem sempre estamos construindo aquilo que planejamos. Às vezes estamos apenas criando as condições para conseguir continuar.

Talvez por isso eu desconfie um pouco dessa obrigação de terminar o ano com tudo resolvido e começar o próximo com uma lista perfeita de objetivos. A vida não respeita o calendário com a mesma disciplina que nós gostaríamos. Dezembro não encerra tudo, assim como janeiro não inaugura tudo. Algumas histórias continuam. Alguns problemas atravessam a virada do ano. Alguns sonhos permanecem esperando. Outros, serão abandonados. E outros ainda surgirão quando menos esperarmos. Não precisamos entrar em janeiro carregando a obrigação de provar que o ano anterior valeu a pena.

Talvez seja mais honesto terminar o ano reconhecendo que algumas coisas deram certo e outras não. Que algumas escolhas ainda fazem sentido e outras precisam ser revistas. Que existem desejos pelos quais continuamos dispostos a lutar e outros que já não queremos carregar. Um desejo que não se realizou não é automaticamente um desejo perdido. Pode ser apenas um desejo que ainda precisa de tempo, de outras condições ou de uma nova tentativa. Mas também pode ser um desejo que já cumpriu o seu papel e precisa ser deixado para trás. Reconhecer essa diferença é uma forma de maturidade.

O ano termina, mas a nossa história não. Há coisas que ficaram incompletas e continuarão incompletas por algum tempo. Há sonhos que ainda podem encontrar um caminho. Há outros que talvez precisem ser substituídos. E talvez não haja necessidade de decidir tudo agora. Podemos atravessar a passagem de um ano para outro sem transformar a nossa vida em um julgamento. Podemos olhar para o que não aconteceu sem concluir imediatamente que fracassamos. Afinal, nem tudo o que não aconteceu deu errado. Algumas coisas apenas ainda não aconteceram. E outras, talvez, simplesmente deixaram de ser necessárias para que possamos seguir em frente.


Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

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