El Niño pode encarecer alimentos em até 20% e aumentar custos no agronegócio

Os efeitos do El Niño podem provocar aumento de até 20% nos preços dos alimentos in natura, segundo um modelo matemático desenvolvido pelo Rabobank com base no histórico do fenômeno no Brasil. A perspectiva acende um alerta para produtores rurais e empresas do setor, diante dos riscos de temperaturas elevadas, irregularidade das chuvas e perdas ao longo de toda a cadeia produtiva.
A intensidade dos impactos depende de fatores como a força e a duração do fenômeno, as condições das safras e o cenário econômico. Além de comprometer a produção agrícola e pecuária, o calor pode elevar os gastos com armazenamento, transporte e distribuição, pressionando os preços pagos pelos consumidores.
Em entrevista ao Itatiaia Agro, o engenheiro Ricardo Valentini, especialista em soluções contra o calor, alertou que os efeitos das altas temperaturas podem se intensificar até o final do ano, com possibilidade de períodos mais críticos em dezembro.
Segundo ele, produtores rurais e empresas precisam se preparar para enfrentar os impactos climáticos e reduzir prejuízos. O planejamento, na avaliação do especialista, deve considerar todas as etapas da produção, desde o cultivo até a chegada dos alimentos ao consumidor.
El Niño pode intensificar extremos climáticos
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, condição que altera os padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do mundo.
No Brasil, os efeitos variam conforme a região e a intensidade do fenômeno. A combinação entre calor extremo e chuvas irregulares pode prejudicar o desenvolvimento das lavouras, aumentar os custos da produção pecuária e dificultar a conservação de produtos perecíveis.
Os reflexos não ficam restritos às propriedades rurais. Quando a produção diminui ou os custos operacionais aumentam, os efeitos podem se estender ao armazenamento, à logística e à comercialização, chegando ao consumidor final.
Para Valentini, é necessário considerar o custo do calor no planejamento das atividades econômicas, especialmente em setores que dependem diretamente das condições climáticas.
Produção de café está entre as preocupações
Uma das culturas que exigem atenção diante das mudanças climáticas é o café, importante para a economia de diversas regiões produtoras, incluindo o Sul de Minas Gerais.
De acordo com Ricardo Valentini, o cafeeiro é sensível às variações de temperatura. Tanto as geadas quanto o calor excessivo podem comprometer o desenvolvimento das plantas e reduzir a produtividade.
O especialista também destacou que as condições climáticas em outros países produtores, como Colômbia, Indonésia e Vietnã, podem influenciar a oferta internacional e os preços da bebida.
Diante desse cenário, Valentini avalia que o café, que já apresenta preços elevados, poderá ficar ainda mais caro até o final do ano, caso as condições climáticas prejudiquem a produção.
Para diminuir os riscos, o engenheiro recomenda o uso de modelos de previsão climática e ferramentas de georreferenciamento. Esses recursos permitem avaliar as condições específicas de cada região e ajudam os produtores a tomar decisões mais adequadas sobre o plantio e o manejo das lavouras.
Outra alternativa, quando tecnicamente viável, é avaliar a rotação de culturas como estratégia para reduzir a exposição aos riscos climáticos.
Calor também ameaça a produtividade na pecuária
Os efeitos das altas temperaturas também preocupam atividades como avicultura, suinocultura e pecuária leiteira. O estresse térmico pode comprometer o desempenho dos animais, afetar a produtividade e gerar prejuízos financeiros aos produtores.
Para enfrentar o problema, Valentini defende investimentos em infraestrutura e soluções de engenharia que ajudem a reduzir a transferência de calor para as instalações rurais.
Entre as medidas apontadas está o isolamento térmico, que pode contribuir para manter condições ambientais mais adequadas dentro de galpões e outras estruturas utilizadas na criação de animais.
Além de favorecer o conforto animal, essas soluções podem melhorar a eficiência dos sistemas de climatização e reduzir o consumo de energia, dependendo das características das instalações e do projeto adotado.
Segundo o especialista, o investimento deve ser considerado parte do planejamento operacional das propriedades, e não apenas uma despesa adicional.
Calor acelera perdas no armazenamento e no transporte
Frutas, legumes e hortaliças estão entre os alimentos mais vulneráveis à exposição prolongada a temperaturas elevadas. O calor pode acelerar a deterioração desses produtos, reduzir sua qualidade e aumentar o desperdício nas centrais de abastecimento, nos sacolões e durante o transporte.
A falta de estruturas adequadas para proteger os alimentos é um dos fatores que podem agravar o problema. Ambientes sem isolamento térmico e veículos sem condições apropriadas de conservação podem contribuir para que os produtos percam qualidade mais rapidamente.
De acordo com Valentini, o planejamento dos negócios precisa levar em conta os efeitos das altas temperaturas sobre toda a cadeia logística. Isso inclui as condições de armazenamento, as estruturas de comercialização, as embalagens e os veículos utilizados na distribuição.
As perdas podem variar desde pequenas quantidades de produtos descartados até volumes expressivos de alimentos que deixam de ser comercializados.
O desperdício representa prejuízo para produtores e comerciantes e pode contribuir para o aumento dos custos que chegam ao consumidor.
Tecnologia e planejamento podem reduzir prejuízos
Na avaliação do especialista, enfrentar os impactos do calor exige planejamento integrado e medidas preventivas. Não basta considerar apenas a produção: é necessário avaliar também como os alimentos serão armazenados, transportados e comercializados.
O uso de tecnologias de isolamento térmico, associado ao acompanhamento das previsões climáticas e à adoção de práticas adequadas de manejo, pode ajudar a reduzir perdas e melhorar a eficiência operacional.
A recomendação é que produtores e empresas avaliem antecipadamente os riscos e busquem soluções compatíveis com as características de cada atividade, em vez de agir somente depois que os danos já ocorreram.
Diante da possibilidade de condições climáticas mais severas, o desafio do agronegócio será preservar a produtividade, proteger a qualidade dos alimentos e controlar os custos de produção e distribuição.
Se os impactos do El Niño comprometerem a oferta e elevarem as despesas ao longo da cadeia produtiva, parte desses custos poderá ser repassada aos consumidores, contribuindo para o encarecimento dos alimentos.
*Com informações do Itatiaia.


















