Frio não protege a pele: porque muita gente erra ao deixar o protetor de lado


No meio do outono, a rotina já mudou para muita gente: banhos mais quentes, pele mais seca, menos sensação de calor e uma impressão enganosa de que o risco solar ficou para trás. O problema é que essa leitura não acompanha o que acontece de fato com a pele. Mesmo sem sol forte aparente, a radiação UVA continua incidindo, inclusive em dias nublados e em ambientes internos com luz natural, o que transforma essa época em um terreno propício para descuido acumulado.
Esse comportamento ajuda a explicar por que a fotoproteção ainda é tratada como hábito de verão, e não como cuidado diário. Uma pesquisa nacional mostrou que 66% dos brasileiros não usam protetor solar diariamente, enquanto 22,2% deixam de aplicar o produto em dias nublados. Outro levantamento apontou percentual semelhante: 65,5% disseram não usar filtro solar todos os dias, o que reforça a dificuldade de incorporar a proteção à rotina, especialmente fora dos períodos de calor intenso.
Para o dermatologista Dr. Matheus Rocha, o outono e o inverno produzem uma falsa sensação de segurança que favorece o dano silencioso. “Quando a temperatura cai, muita gente acha que a pele está menos exposta. Mas a radiação UVA não depende da sensação de calor para agir. Ela continua presente, penetra profundamente na pele e se acumula ao longo do tempo, contribuindo para manchas, perda de firmeza, envelhecimento precoce e aumento do risco de câncer de pele”, afirma.
As estações ainda trazem um segundo fator de risco: o ressecamento. Com menor umidade do ar e banhos mais quentes, a pele tende a perder água com mais facilidade, ficar mais sensível e responder pior às agressões externas. Na prática, isso significa que esse período do ano não é apenas uma fase de desconforto cutâneo, mas um período em que a barreira da pele fica mais vulnerável justamente quando muita gente relaxa no uso do protetor.
Segundo Rocha, esse cruzamento é o ponto mais negligenciado da estação. “A pessoa percebe ressecamento, coceira e sensibilidade, mas não relaciona isso à necessidade de reforçar proteção. Só que uma pele com barreira comprometida tende a sofrer mais com processos inflamatórios, piora de manchas e agressões cumulativas da radiação”, diz.
Ao contrário do UVB, que costuma ser mais lembrado por causa da queimadura solar, o UVA age de forma mais discreta e constante. Ele atravessa nuvens e vidros comuns, o que mantém exposição relevante durante atividades corriqueiras, como dirigir, caminhar na rua, trabalhar perto da janela ou passar longos períodos em ambientes iluminados naturalmente. Essa característica faz com que o dano seja frequentemente subestimado, porque ele não depende de praia, piscina ou lazer ao ar livre para acontecer.
O peso desse comportamento aparece no cenário nacional. O INCA projeta 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028, sendo cerca de 263 mil diagnósticos anuais de câncer de pele não melanoma, o mais frequente no país. Embora esse grupo de tumores tenha, em geral, baixa letalidade, sua alta incidência reforça a importância da prevenção diária e da proteção contínua, inclusive em meses de menor calor.
Para o dermatologista, um dos principais desafios é romper a associação entre protetor solar e clima quente. “A proteção não deve entrar em cena só quando a pessoa sente sol na pele. O dano mais traiçoeiro é justamente aquele que não chama atenção no momento, mas vai se somando com o tempo. No outono, isso fica ainda mais perigoso porque o desconforto térmico diminui, e o risco parece menor do que realmente é”, afirma.
Rocha orienta que a fotoproteção siga fazendo parte da rotina mesmo nesta época do ano, com aplicação diária de protetor solar nas áreas expostas, além de reforço da hidratação e preferência por banhos mornos e mais curtos. “O clima frio exige menos relaxamento e mais ajuste de estratégia. Não é porque o calor caiu que a pele entrou em férias do dano solar”, resume.
Sobre o Dr. Matheus Rocha
dermatologista com atuação em cirurgia dermatológica e tratamento do câncer de pele. Dedica sua prática clínica ao diagnóstico precoce, planejamento cirúrgico e manejo de tumores cutâneos, com foco em dermato-oncologia. Além do atendimento a pacientes, atua na formação de médicos e cirurgiões dermatológicos, contribuindo para a ampliação do diagnóstico adequado da doença. Parte de sua atuação inclui atendimento gratuito a pessoas com câncer de pele que não possuem condições financeiras ou que não conseguem aguardar a fila do sistema público de saúde.

















