Diante de um mundo inundado por notificações incessantes e no qual o ser humano se vê cotidianamente afogado em múltiplas tarefas, surge uma questão nem sempre fácil de responder: será que desaprendemos a ouvir?

Embora a comunicação nunca tenha sido tão abundante –  cerca de 100 bilhões de mensagens são enviadas diariamente no WhatsApp, segundo empresas de monitoramento do aplicativo –, especialistas observam que a escuta genuína vem perdendo espaço para interações fragmentadas.

Na avaliação da psicanalista Lorenza Coelho, hoje nós vivemos “uma crise da escuta”, não porque as pessoas deixaram de falar ou conversam menos, mas porque estão “cada vez mais expostas a estímulos e distrações, e, ao mesmo tempo, mais preocupadas em responder do que em compreender.”

“A escuta exige tempo, presença e interesse genuíno pelo que o outro tem a dizer, três elementos que parecem estar sendo continuamente permeados pela pressa da vida contemporânea ou pela urgência criada pelos aplicativos”, destaca.

Não são raros, ainda, os diálogos em que alguém está apenas esperando sua vez de falar, em vez de realmente ouvir o que o outro está dizendo.

“Existe uma frase muito popular que eu ouvia na infância: ‘quando um burro fala, o outro abaixa a orelha.’ Embora seja uma expressão simples, ela traz uma reflexão importante sobre algo que parece estar se perdendo: a capacidade de ouvir até o fim antes de responder. Porque ouvir exige disponibilidade e empatia. Muitas vezes, durante uma conversa, estamos mais preocupados em formular nossa resposta, defender nosso ponto de vista ou contar nossa própria experiência do que em compreender o que o outro está tentando comunicar. Em vez de escutar, ficamos apenas aguardando a nossa vez de falar”, salienta a especialista.

Para completar, a ansiedade e a correria do cotidiano também interferem na qualidade da escuta. “Muitas conversas acontecem enquanto respondemos mensagens, verificamos notificações ou pensamos na próxima tarefa do dia. O corpo está presente, mas a atenção, infelizmente, não está”, identifica.

Ela pondera ainda que, na psicanálise, há um entendimento de que ouvir verdadeiramente significa suspender julgamentos e permitir que o outro faça seu discurso. “Talvez um dos maiores desafios da atualidade não seja aprender a falar melhor, mas reaprender a escutar. Porque é na escuta que construímos vínculos, fortalecemos relações e fazemos o outro sentir que sua experiência tem valor”, aponta.

O cérebro acostumado à velocidade

A dificuldade de permanecer atento durante uma conversa também tem relação com a forma como o cérebro vem sendo treinado a lidar com os estímulos digitais. A psicóloga infanto-juvenil Fernanda Fusco estabelece que o excesso de telas influencia diretamente a capacidade de concentração.

“O problema é que a concentração profunda, aquela que sustenta uma leitura, uma conversa ou um estudo, funciona no caminho oposto, exige permanência. Quando passamos horas num formato que premia a dispersão, ficamos cada vez menos tolerantes ao tédio e ao esforço sustentado. Não é que perdemos a capacidade de concentrar; é que estamos saindo de forma. E, semelhante ao funcionamento de um músculo, a atenção volta a se fortalecer quando é exercitada de novo”, identifica Fernanda.

Nesse sentido, é fácil entender porque algumas pessoas conseguem passar horas navegando nas redes sociais, mas têm dificuldade de manter a atenção em uma conversa de poucos minutos.

“São dois tipos de atenção bem diferentes. Nas redes, a atenção é capturada, o conteúdo foi desenhado para isso, com novidade a cada segundo, e aquele reforço imprevisível que mantém a gente rolando o feed sem nem perceber. Já uma conversa exige uma atenção que a gente sustenta por escolha, sem cortes nem reviravolta; cada frase é um esforço ativo. Então não é falta de interesse pela pessoa na frente; é que o cérebro se acostumou a ser entretido passivamente e ele estranha quando precisa fazer o trabalho de prestar atenção”, destaca.

Como se manter no presente

Muitas pessoas relatam que, durante uma conversa, estão pensando em problemas ou nas tarefas que precisam ser executadas. Esse “estar em outro lugar” geralmente é sinal de uma mente sobrecarregada, não de desinteresse, segundo a psicóloga Fernanda Fusco. Para ajudar a se concentrar no presente, a especialista lista algumas atividades.

“Antes de uma conversa importante, faça uma pausa de respiração de poucos segundos para chegar ali de fato; deixe o celular fora de vista, porque mesmo virado para baixo ele divide a atenção; e use o corpo como âncora: olhe nos olhos e note o tom de voz da pessoa. Isso ajuda a trazer a atenção de volta ao presente. Vale também um exercício honesto: quando a mente fugir para a lista de tarefas, perceba isso sem se culpar e volte, gentilmente, para a conversa. A atenção plena não é nunca se distrair, mas treinar o retorno para o momento que está sendo vivido”, ressalta.

A psicanalista Lorena Coelho analisa também que, como terapeuta, percebe que muitas pessoas já não têm dificuldade apenas para ouvir o outro, mas também para sustentar a própria atenção.

“Quando percebem que a mente se dispersou, é importante fazer um movimento consciente de retorno: parar, respirar, voltar o olhar para a pessoa e para aquilo que ela está tentando comunicar. Escutar é uma escolha ativa. Estar presente em uma conversa é oferecer ao outro algo que se tornou raro atualmente: atenção genuína. Quando alguém percebe que está sendo ouvido sem interrupções, sem julgamentos e sem disputas de espaço, sente-se acolhido e validado. E essa experiência fortalece vínculos, reduz mal-entendidos e aprofunda as relações”, diagnostica.

Fonte: O Tempo