Não temos o poder de mudar o outro

Há uma ilusão bastante comum que, em algum momento da vida, quase todos nós alimentamos: a de acreditar que, com paciência suficiente, argumentos convincentes ou amor em excesso, conseguiremos mudar alguém.
Quantas vezes insistimos em conversas que parecem não ter fim? Quantas vezes gastamos energia tentando mostrar ao outro aquilo que, para nós, parece tão evidente? Fazemos isso porque nos importamos. Porque enxergamos caminhos que acreditamos serem melhores. Porque queremos evitar que alguém continue sofrendo ou repetindo escolhas que lhe causam dor. O problema é que existe um limite que nem a boa vontade, nem o carinho, nem o conhecimento conseguem ultrapassar.
Ninguém muda porque outra pessoa deseja. A mudança só acontece quando nasce como um movimento do próprio sujeito. Enquanto esse desejo não aparece, qualquer tentativa de transformação costuma produzir apenas resistência, afastamento ou a sensação de que estamos falando para quem não está disposto a escutar.
É difícil aceitar isso. Há algo de frustrante em reconhecer que não temos esse poder. Gostaríamos de impedir que pessoas que amamos insistissem em relacionamentos destrutivos, abandonassem comportamentos que lhes fazem mal ou encarassem aquilo de que fogem há tantos anos. Mas cada um precisa encontrar seu próprio tempo, suas próprias perguntas e, principalmente, seu próprio desejo.
Isso não significa abandonar quem sofre. Estender a mão continua sendo um gesto importante. Incentivar alguém a procurar uma análise, uma psicoterapia ou qualquer outra forma de cuidado também pode fazer diferença. O que não podemos fazer é ocupar o lugar que pertence ao outro. Nenhuma decisão pode ser tomada por empréstimo.
Existe um momento em que insistir deixa de ser cuidado e passa a ser uma tentativa de controlar a vida alheia. E, por mais difícil que seja admitir, não somos responsáveis pelas escolhas que os outros fazem. Somos responsáveis apenas pela maneira como nos posicionamos diante delas.
Uma das maiores demonstrações de maturidade é compreender que cada pessoa precisa se haver com aquilo que deseja, com aquilo que evita e com as consequências das próprias escolhas. Esse encontro ninguém pode viver em seu lugar.
No fim, a vida nos ensina uma lição simples e, ao mesmo tempo, profundamente difícil: podemos caminhar ao lado de alguém, oferecer presença, escuta e apoio, mas ninguém atravessa a própria existência no lugar do outro. Há caminhos que só podem ser percorridos quando a decisão de caminhar nasce de dentro.

Ed Gonçalves é filósofo, psicanalista e escritor.
É idealizador do projeto Conexões Humanas, que busca tornar a Psicanálise e a Filosofia acessíveis a todos.

















